sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Ciência, tecnologia, engenharia e matemática é um espaço para mulheres? Entremeios acadêmicos e profissionais

Publicado em 11 de julho de 2025, às 12:11
Fonte: Ludymilla Souza, Yohana Oliveira

“Prefiro ficar em silêncio do que ouvir mais uma piada sobre como mulher não entende de exatas” conta Melissa Siqueira. A estudante de Engenharia Elétrica no Instituto Federal do Maranhão (IFMA), campus Imperatriz, reflete a experiência de muitas mulheres em cursos de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM) imersas em ambientes considerados masculinos em que suas ideias são frequentemente desacreditadas, e o medo de não terem credibilidade, muitas vezes, ficam em silêncio. 

Para permanecer nesses espaços, é necessário, muitas vezes, mais do que dedicação, pois  se a gente não se impor, somos excluídas , como afirma Marta Mellicia, estudante de Engenharia Civil. Ela relata uma forma que as mulheres encontram para se sentir respeitadas e/ou aceitas nessas áreas.

De acordo com uma pesquisa da CNN Brasil, apenas 27% das mulheres que ingressam em cursos de STEM concluem a graduação, enquanto a taxa de desistência entre os homens é significativamente menor. O que leva essas mulheres a abandonarem a universidade? Quais os desafios que essas mulheres encontram?

A Pressão de Ser Mulher em STEM

Para algumas mulheres, o problema começa já nos primeiros períodos, quando percebem que precisam sempre ter produção acadêmica superior aos homens da turma para serem reconhecidas. No aspecto de convivência social, também são excluídas e expostas a situações de assédio moral, como comentários machistas entre os alunos e professores. Vamos conhecer alguns relatos de mulheres que vivenciaram a pressão de ser mulher em STEM como estudantes ou graduadas até 2025. 

Helen Correa, estudante de Licenciatura em Matemática no IFMA, campus Buriticupu. 
Durante o curso, ela e uma colega foram as únicas mulheres da turma – e as únicas a desistirem das aulas de um professor que fazia piadas machistas e tratava as alunas como “presas fáceis“. Acrescenta ainda que:  “Ele sempre deixou muito claro que o mérito de alguns estarem ali era porque eles eram homens”. O ambiente era tão hostil que a “experiência deixou um trauma enorme em disciplinas como cálculo e álgebra”.

A decisão de abandonar parte do curso não foi fácil, mas Helen só conseguiu retornar às aulas quando o IFMA contratou uma professora mulher, que conduziu a disciplina de forma mais acolhedora e acessível. Já essa experiência “foi o oposto. Ela trouxe a disciplina de um jeito mais leve e nos fez acreditar que aquele lugar também poderia ser nosso”.

Simony Pompeu, estudante de Engenharia na Universidade Federal do Pará (UFPA), em Tucuruí.
Ela compartilha que em suas primeiras disciplinas presenciais, os docentes davam mais atenção às dúvidas dos homens do que das mulheres. “Isso fazia com que a gente ficasse com medo de perguntar. Um professor, toda vez que eu ia falar em aula, dizia: ‘só um minuto, só um minuto’ e nunca deixava eu terminar. Isso me incomodou tanto que eu travei. Sempre gostei de falar e apresentar seminários, mas, depois disso, fiquei intimidada”, relata.

A situação não passou despercebida pelos colegas: “Os meninos começaram a notar e, quando ele tentava me interromper, eram eles que diziam: ‘Professor, ela quer falar!’”. Pequenos atos como esse podem parecer insignificantes, mas acumulam um peso enorme na trajetória acadêmica das mulheres, tornando-as inseguras e até levando algumas a desistirem.

Emilda Oliveira, graduada em Engenharia da Computação, na UFPA, relembra de uma frustração ao ver suas notas e ser questionadas pelos próprios colegas:
“Tirei uma nota maior que um colega e soube depois que ele disse que eu não merecia. Como se, por ser mulher, eu não pudesse ter ido melhor do que ele” e acrescenta “Fora situações de meninas tirarem notas excelentes no cálculo, mas nunca serem escolhidas para serem monitoras. Sempre os meninos sendo escolhidos.”

Ana Clara, estudante de Ciências da Computação no IFMA, campus Imperatriz, compartilha uma reflexão sobre a pressão que muitas mulheres enfrentam.
“Eu não me sinto num espaço seguro e confortável para tirar minhas dúvidas quando o professor é homem e todos os meus colegas também. Eu fico ali pensando: ‘E se eu fizer uma pergunta boba e alguém achar que é burrice minha? Eu tenho medo de manchar a classe feminina, sabe? De fazer uma pergunta idiota e ficar marcada: ‘Nossa, só porque é menina, não sabe.'”

Rayra Galeno, graduada do curso de física do IFMA, campus Imperatriz.
“As mulheres se sentem inferiores aos homens, intelectualmente falando. Mesmo que isso não ocorra, que existam mulheres muito fodas por aí, elas se sentem inferiores.” 

Esses relatos revelam a pressão social e cultural que ainda influencia a percepção das mulheres sobre seu potencial e seu papel no ambiente acadêmico. Será que todas essas estudantes irão concluir o curso e se tornarem profissionais de tecnologia? Esperamos que sim! 

O Valor da Representatividade

A falta de representatividade feminina, também, é encontrada entre as professoras do curso de tecnologia. Elas reforçam a ideia de que essa é uma área exclusivamente masculina. Esse cenário contribui para a insegurança e a síndrome do impostor entre as alunas. 

Simone Aquino, mestra em Engenharia Elétrica, professora do curso de Ciência da Computação no IFMA. 
“Quando é uma área muito masculina, eu digo por experiência própria, entrei na minha faculdade em 1998, uma área sempre muito masculina, e não é uma realidade de Imperatriz e do IFMA, é uma realidade nacional e mundial. Às vezes as mulheres acham que não são capazes, se sentem um pouco inferiorizadas, temem, né? Até uma questão de ter medo de assédio, e uma série de questões. Que fazem com que muitas delas não se sintam seguras o suficiente para adentrarem a esses cursos”. 

Ana Clara, estudante de Ciências da Computação no IFMA, campus Imperatriz.
“Eu acho que as meninas não são incentivadas desde criança. É uma coisa cultural da nossa sociedade, que sempre direciona os meninos para as exatas. Seria interessante começar a mostrar essa área para as meninas desde o ensino fundamental. Ter disciplinas de robótica, por exemplo. Eu nunca tive uma professora mulher de matemática, física ou química.”

Carol Vieira, estudante do curso de Ciência da Computação no IFMA.
“No nosso curso, atualmente, a gente tem poucas professoras, e a única professora que a gente tem, na nossa área especificamente, é a professora Simone. E eu percebo que, mesmo com ela sendo uma ótima professora, ainda há um certo desprezo por parte da maioria dos alunos pelo fato de ela ser mulher mesmo, sabe? Como eles não respeitarem a própria aula, o próprio conteúdo que ela passa, ou melhor, tecnicamente, que ela seja, às vezes, até melhor que alguns professores. Mas é por uma questão de machismo mesmo.”

Rebeca Maciel, graduada em Matemática na Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão  (UEMASUL) em Imperatriz.
Apesar da ausência de professoras, que reforça a desigualdade, temos mulheres que conseguiram ocupar, além da docência, um cargo de gestão. A graduada lembra que a chegada de uma professora mulher mudou a percepção das alunas sobre o curso:  “A gente tem uma professora doutora em matemática que dá aula para a gente, e ela é uma das principais motivações. Ela é diretora do curso hoje em dia. Para as meninas, ela é uma inspiração.”

Lorrany Victória, estudante de Engenharia Civil na UEMASUL, em Açailândia.
Os paradigmas começam a ser rompidos, como destaca a estudante. 

“Até porque hoje, graças a Deus, a Engenharia Civil, ela tem mudado muito. E aqui, no nosso campus, a gente tem muita representatividade feminina. Nossa diretora de curso é mulher. Então, daí já gera um outro ambiente. Hoje, aqui na faculdade, acredito que seja pouca diferença de mulheres e homens no curso. Então, dentro do curso, eu nunca senti essa diferença ou de alguém diminuir. Até tem muita inclusão, justamente porque aqui a gente trabalha muito disso.”

Roda de conversa sobre empreendedorismo feminino na engenharia – UEMASUL, Açailandia – Fotos: Acervo público

Projetos e eventos que estimulem as mulheres em STEM são fundamentais para garantir o interesse e engajamento delas nessas áreas, mostrando seu potencial sem limitações impostas por fatores culturais e sociais. 

Programas de Incentivos

O projeto “Mermãs Digitais” do IFMA, campus Imperatriz, foi criado com a finalidade de incentivar meninas do Ensino Médio da rede pública a despertarem o interesse por cursos de Computação e Tecnologias. Desde de 2020 já participaram mais de 100 meninas.

Simone Aquino, coordenadora do projeto, conta sobre a importância da iniciativa: 

“Então, o Mermãs Digitais hoje é um projeto que representa justamente a gente tentar diminuir a desigualdade de gênero. Porque hoje você sabe que nós temos muitas áreas que são predominância masculina e a gente trabalha muito”.

“A gente faz visitas nas escolas. E para que elas possam conhecer um pouco da nossa área e vir no futuro fazer a verticalização pro IFMA saindo de um curso de um projeto de extensão e vindo fazer um curso técnico de informática, de automação, de eletrotécnica ou um curso superior nas áreas de engenharia elétrica, civil e computação.

Ana Clara declara com alegria a importância do Mermãs na vida das mulheres: 

“Elas estão vendo através desse projeto que existem mulheres que trabalham nessa área, pessoas assim como elas, que não sabiam, e que agora trabalham, estudam, e conseguem viver, vivenciar tudo isso.”

A inclusão de meninas e mulheres na área de STEM ainda enfrenta desafios significativos. Para mudar esse cenário, projetos como esse têm desempenhado um papel fundamental ao incentivar as jovens do ensino médio a se aproximarem do universo da tecnologia.

Programa Meninas e Mulheres nas Engenharias (PMME) da UFPA em Tucuruí

É um programa com iniciativa de transformar e oportunizar as estudantes. Com objetivo de criar espaços de acolhimento e incentivo para meninas que desejam ingressar nesse campo e se profissionalizar.

Emilda Oliveira, graduada em Engenharia  da Computação na UFPA, uma das fundadoras do PMME, relata o impacto do programa na permanência das mulheres na área:

“O PMME ajudou muitas meninas, porque se não fosse o programa, eu teria abandonado o curso ali, na pandemia. Não fazia mais sentido pra mim, sem ter contato com as pessoas. O que me fez permanecer foi o programa.” O PMME oferece suporte acadêmico e emocional às alunas, promovendo mentorias, eventos e espaços de troca de experiências. Para Emilda, além do apoio educacional, o projeto cumpre um papel essencial de criação de comunidade e pertencimento: “Pensar no coletivo é o que faz o programa acontecer, que fez ele nascer e o que vai fazer ele crescer.”

Fotos: Acervo pessoal/Emilda Oliveira

Ações como o Mermãs Digitais e o PMME mostram que, embora os desafios ainda existam, há um esforço crescente para garantir que mulheres não apenas entrem em STEM, mas também permaneçam e se engajem nos espaços acadêmicos e do mercado.

Com apoio e iniciativas institucionais, é válido destacar que a mudança vai além dos muros da universidade, os aspectos formativos, influência na construção da identidade social e profissional das estudantes, como também na parte socioemocional, a forma como cada menina enxerga seu próprio potencial. Para muitas, o maior obstáculo não é apenas o ambiente acadêmico, mas a dúvida sobre se pertence a esse lugar considerado tão masculino.

Jaciara Rodrigues, estudante de Engenharia Elétrica no IFMA, enfatiza a importância do sonho e da persistência: 

“E é um lugar para pessoas que sonham, para pessoas curiosas, para pessoas que têm coragem mesmo, porque dá trabalho.”  Ela incentiva meninas que desejam ingressar na área a não desistirem, mesmo diante dos desafios: “Se você tem a vontade de ingressar nessa área, se você sonha com isso, mesmo que pareça coisa mais distante, você vai conseguir força.” E conclui:

“Mesmo que você ache que suas ideias são pequenas, ou que elas não são relevantes, o mundo precisa das suas ideias.”

A busca pela equidade de gênero em STEM, apesar de alguns avanços, ainda é uma questão com conflitos, que merece atenção, mais iniciativas e discussões. As mulheres ainda se sentem interditadas ou inferiorizadas no mundo das engenharias. É necessário dar visibilidade ao tema para diminuir as disparidades de gênero nas salas de aula, ampliando as oportunidades para a inovação, habilidades e o entusiasmo pela ciência e tecnologia desde a infância. Meninas e mulheres devem ser encorajadas e sentir-se livres para pertencer a qualquer espaço acadêmico e profissional.

Produto desenvolvido por acadêmicos do curso de jornalismo da UFMA/Imperatriz na disciplina de Leitura e produção textual II, coordenado pela professora Camila Viana, e publicado no site Região Tocantina, editado pelo professor Marcos Fábio e diagramado por Eduardo Jorge.

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