
Há exatamente duas semanas, escrevi, neste mesmo espaço, uma breve e singela homenagem ao escritor Joaquim Itapary. Logo depois que a postagem foi divulgada, recebi algumas mensagens nas quais alguns leitores confessavam o quase total desconhecimento sobre a vida e a obra daquele notável escritor que, por décadas, ocupou a cadeira número 04 da Academia Maranhense de Letras.
Não obstante Joaquim Itapary ter ocupado relevantes cargos públicos, de haver sido deputado estadual e de ter efetiva atuação no cenário cultural do Maranhão, algumas pessoas só foram saber de sua trajetória de vida a partir das reportagens divulgadas em telejornais.
Claro que eu já havia percebido que grande parte da população pouco sabe sobre nossos intelectuais. Hoje poucas são as pessoas que se lembram de Ubiratan Teixeira, Waldemiro Viana, Lucy Teixeira, Nauro Machado, Luiz Phelipe Andrès, Conceição Aboud, Antônio Carlos Lima, Carlos de Lima, Rosemary Rêgo, Carvalho Junior, Ribamar Reis, Manoel Lopes, Dagmar Destêrro, Déo Silva e tantos outros intelectuais que, pertencendo ou não a alguma academia, deixaram suas contribuições para o desenvolvimento cultural de nosso povo.
Lembro-me de certo momento, proferindo uma palestra sobre a poesia de José Chagas, autor de “Os Canhões do Silêncio”, alguém da plateia, acabado o evento, confidenciou-me que não sabia que Chagas havia escrito tantos livros, pois só o conhecia como cantador de toadas de bumba-meu-boi. Claro equívoco que já deve ter ocorrido em diversas outras situações.
Muitos escritores que fazem parte de academia passam a acreditar em uma hipotética imortalidade. Contudo, colar, pelerine, vestes talares e diplomas não são capazes de mudar a rota da memória literária. O que realmente imortaliza um escritor é sua obra, são suas produções, são as lembranças que ele deixa na história de quem continua no plano terreno. Dessa forma, é possível dizer que todos nós temos um pouco dessa imortalidade, mas nem todos são imortalizados por alguma instituição.
Embora seja possível, a rima imortalidade/vaidade não deve ser levada em consideração, pois a vaidade de ser imortal pode ser soterrada pela realidade do esquecimento até mesmo entre os pares e familiares antes e depois do falecimento. Os títulos, talvez, possam em alguns momentos alimentar os egos e até mesmo servirem como fonte de inspiração, mas não são capazes de eternizar pessoas. “Eu sou isso”, “Eu sou aquilo” não dizem o que realmente somos. A efemeridade e a simplicidade deveriam ser a verdadeira rima para essa realidade.
Um dia passaremos e, no caso dos escritores, o que permanecerá é a sua obra. Mas, em uma sociedade que desvaloriza a leitura e a cultura em geral, pensar em imortalidade passa a ser até um contrassenso. No final de tudo, todos nós, mortais ou imortais, somos passarinhos que um dia passarão. E o que deixaremos para o futuro?