Na década de 90, o meio principal para ingresso em uma Instituição de Ensino Superior (IES) era o vestibular, que geralmente acontecia uma ou duas vezes por ano. E exigia dos candidatos muitas horas de estudos nas escolas, em casa, nas bibliotecas e nos cursinhos preparatórios.
Durante esse período de efervescência intelectual e hormonal, a juventude se deparava com seu primeiro grande desafio social: mostrar ao mundo que era capaz de superar a si e milhares de candidatos em um certame dificílimo para ter acesso a uma graduação em uma IES pública.
Nessa passagem da adolescência para a vida adulta, em que a curiosidade, os desafios, as descobertas, a perda da inocência, os infindáveis estímulos sensoriais percorriam incessantemente cada um dos pretensos bacharéis ou licenciados, a razão tinha que ser priorizada: para que incontáveis informações pudessem ser compreendidas ou pelo menos armazenadas diariamente naqueles cérebros ávidos por realizações.
E, às vezes, a satisfação imediata pela superação racional de seus próprios limites conduzia os jovens para contextos em que comportamentos negativos afloravam no convívio com outros que não estavam no mesmo nível de aprendizagem ou que apresentavam posicionamentos divergentes.
Com isso, atitudes arrogantes ao ostentar conhecimento ou algum grau de erudição (pedância) eram frequentes e podiam “evoluir” para um orgulho excessivo, uma super valorização do ego, uma crença de superioridade em relação aos demais (soberba).
E foi justamente nesse cenário característico da pedância e da soberba que surgiu uma frase útil que até hoje me convida a uma necessária reflexão: “O homem mais vazio que existe é aquele que está cheio de si”. Esta assertiva aparentemente despretensiosa foi o comentário adequado em resposta a um momento de rispidez e/ou desatenção pueril em ambiente educacional. Em que um dos amigos tentava impressionar o outro com retórica de botequim.
O que podemos inferir dessa elocução? Que de vez em quando, por mais domínio de conteúdos que tenhamos, agir com empatia, humildade e menos formalismo pode ser o modo mais valoroso e eficaz de compartilhar experiências de maneira construtiva. É importante reconhecer que todos têm diferentes níveis de conhecimento e que cultivar uma atitude de respeito ao próximo, ao posicionar-se criticamente sobre os mais diversos assuntos, pode tornar a comunicação mais prazerosa e inteligível.
Em outros termos, para que não sejamos taxados de pedantes ou soberbos devemos ter a cautela de nos expressarmos de modo a aperfeiçoarmos relacionamentos pessoais e profissionais, agindo com compreensão e colaboração nas interações sociais. Dá-se a essa prática o nome de Comunicação Não Violenta (CVN): que estimula o estabelecimento de relações de parceria e cooperação.
Para Rosenberg (2021), a CVN é formada por quatro pilares: a) observação (retratar de maneira objetiva e imparcial o que ocorre em determinada situação, sem julgamentos ou interpretações subjetivas); b) sentimento (identificar e expressar seus sentimentos de modo claro e autêntico); c) necessidade (compreender e respeitar as necessidades do outro); d) pedido (expressar de forma direta e respeitosa o que realmente deseja do outro).
O que o homem mais vazio que existe tem a ver com atos imaturos da juventude, com a CVN ou com nós mesmos? Aquele que está cheio de si mesmo pode estar vazio de empatia, pode estar cultivando uma autoestima fictícia, pode não agir com honestidade e lealdade, pode não interessar-se verdadeiramente por outrem, pode agir com intolerância e petulância, pode não se sentir responsável pelas próprias ações, pode estar submetido a crenças limitantes, pode não conhecer a si mesmo (a sua própria identidade).
O homem mais vazio que existe é aquele que está cheio de si, porque a sua completude é imaginária. Embora possuir autonomias seja crucial para que não fiquemos presos às vivências alheias, somos seres que se completam mutuamente. E ao desconsiderarmos a importância dos que nos cercam estamos a ampliar esse vazio (há desconexão com o mundo). Por conseguinte, o caminho para preenchermos essa lacuna existencial perpassa pela prática da humildade, da empatia, do autoconhecimento e da gratidão, para termos uma vida mais autêntica, significativa e enriquecedora.