sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

ARTIGO DE SEGUNDA #21- UM POEMA DE MARIO LUNA FILHO

Publicado em 15 de janeiro de 2024, às 6:36
Fonte: José Neres – Professor. Membro da AML, ALL, APB e da Sobrames-MA
Imagem cedida pelo autor

Não obstante os trabalhos de estudiosos como Antônio Henriques Leal (O Pantheon Maranhense), Antônio Lobo (Os novos atenienses), Antônio dos Reis Carvalho (A Literatura Maranhense), Francisco José Correa (Um livro de crítica), Mário Martins Meireles (Panorama da Literatura Maranhense), Jomar Moraes (Apontamentos da Literatura Maranhense), Clóvis Ramos (Minha terra tem palmeiras / As Aves que aqui gorjeiam), Carlos Cunha (As lâmpadas do sol), Nauro Machado (Campo Ladeado / As esfera lineares), Arlete Nogueira da Cruz (A atual poesia do Maranhão / Nomes e nuvens), Dinacy Mendonça Corrêa (Da Literatura Maranhense: o romance do século XX), Rossini Corrêa (O Modernismo no Maranhão), Henrique Borralho (Terra e céu de Nostalgia / A Athenas Equinocial), a Literatura Maranhense ainda se ressente da falta de estudos que versem sobre algum tipo de sistematização sobre suas obras, autores e momentos históricos.

Quase sempre, quando alguém se propõe a estudar a Literatura Maranhense, costuma-se ouvir os seguintes questionamentos: “Como iniciar esses estudos?”, “Será que há referências suficientes para iniciar um trabalho sobre Literatura Maranhense?”, “Que autores estudar?”, além de tantas outras perguntas que nem sempre recebem uma resposta adequada.

Porém, as respostas são muitas e podem suscitar inúmeros debates. De modo geral, todo texto, autor ou temática pode dar origem a um ou a vários trabalhos sobre toda e qualquer literatura. Nesse rol de opções, podem ser incluídos até mesmo as leituras, as memórias afetivas, as influências e o olhar interpessoal de poetas, dramaturgos, prosadores e pesquisadores, conforme pode ser visto no poema Caderneta de Chamada, escrito por Mario Luna Filho e publicado no livro Viver, Cuidar e Escrever, 5ª Antologia da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, seção do Maranhão.

Na referida antologia, que teve o médico e escritor Michel Herbert Alves Florencio como organizador, o leitor encontra crônicas, contos, estudos literários e poemas de diversos autores que fazem parte dessa agremiação cultural. Entre esses autores se encontra o médico e escritor Mario Luna Filho, membro da Academia Ludovicense de Letras e autor dos seguintes livros: Do sapato aos pés descalços e Do granito e do infinito. Autor de um estilo que mescla a leveza das palavras com a contundência das imagens poéticas, Mario Luna foi descrito pelo crítico e professor Carlos Cunha como sendo “um poeta bastante impregnado dos dilemas, sofrimentos e angústias do homem”, dada a simbiose que ele costuma fazer em seus versos entre as peculiaridades de uma carga às vezes autobiográficas e as bifurcações nos terrenos da crítica social.

Mas qual a relação desse poema em específico com os estudos literários maranhenses? Acontece que nesse texto, que vai da página 193 até a 197 do livro, o poeta simula uma chamada na qual os nomes aludidos são de importantes personagens da história recente da Literatura Maranhense. O poema começa com um monóstico com a seguinte frase: “Em um tempo da vida.” A partir daí, os nomes de escritores falecidos são chamados, sempre seguidos de uma interrogação. E quais são esses nomes? – Erasmo Dias, Bandeira Tribuzi, Fernando Viana, Domingos Vieira Filho, Paulo Nascimento Moraes, Bernardo Almeida, Wolney Milhomem e Valdelino Cécio.

Não há respostas para os nomes chamados. Não há possibilidade de nenhum desses poetas responder com um simples “presente”. Todos já estão falecidos e habitam as recordações de um eu lírico que aproveita o vácuo das ausências para tecer alguns comentários sobre a vida e a obra das personalidades nominadas ao longo do texto. E é nesse aparente silenciamento que se desdobram os espaços para as pesquisas. A partir das dicas deixadas por Mario Luna Filho, uma pessoa interessada na produção literária maranhense a partir da década de 1940 pode ampliar o levantamento inicial e realizar estudos sobre algum dos autores citados, sobre os livros mencionados, sobre o período como um todo, sobre os grupos poéticos que se formaram até a década de 1990 ou até mesmo sobre as ausências, pois a lista se fecha nas preferências leitoras e afetivas do poeta.

Para exemplificar, abaixo está reproduzida a estrofe no qual o poeta remete à figura de Bandeira Tribuzi, poeta que, para muitos pesquisadores, foi o responsável por trazer a estética modernista para o Maranhão. Sobre ele, Mário Luna escreveu:

 – Bandeira Tribuzi?

Agora concreto armado,

ponte sobre o mundo

desmemoriado.

Da “SAFRA” de sonhos

autofágicos

apenas sobrou “PELE E OSSO”

para nossa gente

lamentavelmente, para sempre, ausente.  (pág. 193)

Conforme pode ser visto no trecho acima, o autor tece suas leituras com títulos, estilos e referências sobre a vida e a obra de Bandeira Tribuzi, inclusive remetendo à ideia de que hoje o poeta do Breve memorial do longo tempo é mais lembrado por emprestar seu nome a uma ponte do que por sua vasta e importante obra.

Em cada uma das estrofes do poema é possível encontrar motes para variados estudos relacionados com as letras maranhenses – tanto em prosa quanto em verso. Inclusive o próprio poema em si pode ser estudado por seus aspectos intertextuais, históricos e/ou metafóricos. Trata-se de um poema riquíssimo no qual as imagens se multiplicam e as ausências se tornam presentes a partir da leitura de uma chamada sem respostas, das vozes silenciadas pela morte, mas ainda altissonantes por uma produção que imortalizou cada um desses poetas. No final do poema, o silêncio toma conta da página, da sala e da própria literatura, como pode ser visto a seguir:

Vazia,

a sala apenas

espera a noite.

Definitivamente

silêncio

neste lugar. (pág. 197)

O que não falta quando o assunto é a Literatura Maranhense (e a de todos os Estados) são obras e autores para estudar. Então parodiando a frase final de muitas crônicas de Ivan Sarney, que sempre dizia “É preciso amar a cidade”, pode-se dizer que é preciso ler a Literatura Maranhense.

5 respostas

  1. Mais uma perfeita reflexão sua, amigo Neres, sobre o que, de fato, acontece com a nossa Literatura maranhense. Precisamos torná-la protagonista, pois rica ela foi, é e sempre será.

  2. Excelente texto e por assim dizer, sobre o nosso querido amigo confrade poeta escritor Dr. Luna. E a ênfase na preocupação de ser estudado as obras e autores da arte literária maranhense. Mesmo sendo estudado timidamente por alguns estudantes em graduação na sua conclusão de curso nos seus TCC,S. Acredito que terá uma ascensão neste sentido nos anos subsequentes. Vejo que a nossa literatura está caminhando em passos largos para um futuro melhor de produção e divulgação.

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