sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

ARTIGO DE SEGUNDA #19 – NO BALANÇAR DAS REDES

Publicado em 1 de janeiro de 2024, às 10:30
Fonte: José Neres – Professor. Membro da AML, ALL, APB e da Sobrames-MA
Imagem cedida pelo autor.

Seguramente, você está lendo este texto a partir do ano de 2024. Mas eu estou a escrevê-lo no último dia de 2023. Um ano complicado, com todos os outros, aliás, pois faz parte de nossa natureza reclamar do ano que passou e esperar que o próximo seja melhor. Nem sempre dá certo!

Tenho certeza de que poucos são os assuntos que despertarão o interesse de alguém neste primeiro dia de janeiro – quando este texto será postado no site da Região Tocantina, onde gentilmente o amigo e quase irmão Marcos Fábio Belo Matos, permite que eu ocupe uma coluna às segundas-feiras. Hoje não irei falar de uma obra, não irei escrever um conto, não irei mergulhar no mundo das artes. Decidi. Vou falar do que escrevi e postei nas redes sociais e de que provavelmente ninguém mais se lembra – confesso que talvez nem eu mesmo me recorde do que escrevi.

Como tenho fama de reclamar de tudo, às vezes uso as redes sociais para expressar minha insatisfação – na quase certeza de que não serei lido e, dessa forma, o problema continuará existindo (se é que existe algum problema – pode ser tudo fruto de minha imaginação, já que o restante das pessoas não parece indignada) e eu ficarei com a sensação de haver feito algo.

Lembro-me que justamente na virada de 2022 para 2023, resolvi iniciar no Twitter uma série de microcontos. O primeiro deles foi o seguinte:

VIRADA DE ANO

Pobre, doente, certo de que havia ferrado a própria vida, João se ajoelha e pede aos céus mais alguns anos…

Precisava de tempo para ferrar a vida de outras pessoas.

A partir daí vieram outros vinte e tantos microcontos, quase sempre temperados com a acidez da ironia. Alguns foram aplaudidos. Outros levantaram polêmica. Todos caíram no esquecimento (ainda bem!).

Outras vezes, usei as redes para colocar pequenas listas de eventos, pessoas, filmes, músicas etc. que me agradaram em determinando momento da vida. Eis um exemplo:

Cinco filmes brasileiros bem interessantes:

Cidade de Deus

Central do Brasil

Cronicamente inviável

Estômago

Uma onda no ar

Claro que cada pessoa pode ter a sua lista particular. Isso é bom. Dá direito para que eu também tenha as minhas listas.

Em outros momentos, peguei textos antigos e os trouxe de volta, como é o caso do Trístico 1 – que foi muito elogiado por meu saudoso amigo Carvalho Junior – e que me fez receber diversas mensagens de pessoas (principalmente mulheres) que se sentiram contempladas nessas três linhas que reproduzo abaixo.

MÉNAGE

Na cama, éramos sempre três:

Eu, você e a solidão.

Cada um esperando sua vez.

Em alguns momentos, uma ou outra frase ouvida, lida ou uma daquelas que a voz de um “anjo sussurrou no meu ouvido”, trouxe-me a ideia de escrever algum texto. Interessante é que grande parte de minhas ideias aparece quando estou fazendo minhas caminhadas matinais ou enquanto estou no trânsito aproveitando minha (im)própria companhia. Foi o caso dos versinhos abaixo, que vieram de chofre (queexpressão antiga!!!) enquanto eu me divertia em um engarrafamento no bairro do Anil e um senhor se arriscou a atravessar a pista na frente de um caminhão. Felizmente conseguiu…

A Vida é uma senhora

De palavra absoluta

Decide se a próxima hora

Será de luto ou de luta.

Certo final de tarde, voltando para o trabalho, sintonizei em uma rádio local e ouvi uma longa e enfadonha entrevista na qual o interesse maior da “autoridade” ali presente não era prestar contas aos ouvintes sobre sua pasta na administração pública, mas sim repetir à exaustão o nome de seu imediato superior. Lembrei-me de que essa mesma pessoa, anos antes, elogiava efusivamente um político que hoje se recolheu aos bastidores do jogo de poder. Então, quando cheguei a minha casa, escrevi o seguinte comentário.

O rosto do bajulador de hoje é o mesmo do bajulador de ontem. Eles trocam de casaca mal ouvem o sino e o tilintar das moedas. Quem estiver no poder não pode se encantar com afagos, sorrisos e aplausos. Quem aplaude hoje, vaia amanhã.

Claro que o cidadão não leu minhas palavras e talvez nunca as ouvirá, mas não tem problema.

Mas o que mais tenho feito ao longo dos anos – dentro e fora das redes – é lamentar os descasos por que passa a Educação em nosso país. Fico triste ao ver um aluno terminar um ano letivo sem haver aprendido o básico e sem ter um diferencial que o coloque em pé de igualdade no feroz e implacável jogo da vida. Provavelmente já devo ter escrito mais duas centenas de postagens sobre o assunto. Mas o que pode fazer um pobre professor diante de uma multidão que se sente satisfeita com as migalhas recebidas? Muitas vezes, apenas lamentar. E, todos os dias, fazer o melhor possível para que alguém possa perceber que a sala de aula é um caminho digno para se conquistar melhores condições de vida. As múltiplas derrotas diárias não podem tirar a esperança do professor e nem minar suas forças. A luta é cotidiana e cada pequena vitória é motivo de alegria. Eis uma das postagens que escrevi sobre o assunto:

Em educação, parece que estamos sempre marcando passo e nunca indo adiante. Professores e alunos são tratados como cobaias. Não deu certo, chama novas cobaias, pois os “sábios de gabinete” precisam testar outra teoria. Educação mereceria mais respeito.

Contudo, além de reclamar muito, o que mais fiz durante o ano foi indicar livros. Tentar convencer pessoas a lerem nem mesmo que fosse apenas uma página por dia. Eis aí um resultado que nunca terei. Mas tenho observado que, dia após dia, há menos pessoas com um livro nas mãos. Vejo muitos alunos e alunas levando em suas mochilas jogos de cartas, dominós, fones de ouvido etc. Na menor oportunidade, quando há um horário vago, a pergunta é: “posso jogar?”, “Posso ouvir música?”, “Posso dormir?”, “Posso gravar um vídeo” (Devemos agradecer aos educados que ainda pedem)… Claro que pode. Só não pode é, no futuro, reclamar da falta de oportunidade neste presente em que estamos tão ausentes e distantes de nós mesmos.

Feliz 2024… 2025… 2026… 2027… 2028… 2029… 2030… 2031… 2032… para todos nós! As redes sociais continuarão armadas, para embalar sonhos e enrolar futuros… E eu, se tudo der certo, estarei por lá, como discreto observador das possíveis realidades que se apresentam pelo mundo.

Uma resposta

  1. Excelente!
    “Eu, você e a solidão” é simplesmente único. Não sei se vou falar besteiras, se falar corrijam. Assim aprendo mais rápido. Mas essa citação me transpôs ao livro “Crime e Castigo”, de Fyodor Dostoevsky, que explora a solidão e a moralidade.
    No verso de Neres, também há uma dinâmica complexa nas relações interpessoais. Só que ele imaginou algo forte e reflexivo: “a cama, como símbolo de conflito e isolamento”.
    Acredito que quando José Neres menciona ‘a solidão’ como um terceiro elemento na cama, posso imaginar sendo isso, um sentimento persistente de isolamento ou vazio emocional, mesmo na presença de outra pessoa.
    Por isso que, em “Cada um esperando sua vez”, tal fato pode refletir a ideia de que cada pessoa envolvida na relação está ansiando por algo que não está sendo satisfeito.
    Portanto, amigo Neres, simplesmente único esse texto, seja microconto ou poesia existencial. É único!
    MHL

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