sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

FORMAS ARTICULADAS E INARTICULADAS NA ARTE, NO SONHO, NA FANTASIA E NO MITO

Publicado em 24 de dezembro de 2023, às 10:45
Fonte: Nertan Dias Silva Maia – Professor Doutor do Curso de Licenciatura em Ciências Naturais do CCIm
Imagem: Formas inarticuladas. Aquarela/nanquim s/ papel casca de ovo, 21x29,7cm. @nertansilvamaia, 2020.

Este texto aborda um aspecto já bastante discutido pela teoria psicanalítica, porém pouco compreendido pelo público em geral. Trata-se, como diz Anton Ehrenzweig, em sua obra Psicanálise da percepção artística (1977), dos “elementos inarticulados ocultos na estrutura inconsciente de uma obra de arte ou – o que vem a ser a mesma coisa – da estrutura inconsciente dos processos da percepção através dos quais nós ativamente criamos ou passivamente desfrutamos estes elementos inconscientes da forma” (EHRENZWEIG, 1977, p. 33). Apesar de na citação acima o autor não se referir diretamente os sonhos, as fantasias e os mitos, estes estão presentes nesta abordagem, uma vez que constituem formas simbólicas e inarticuladas de expressar ou explicitar os dados do inconsciente em nossas experiências sensíveis.

Segundo o citado autor, para ser possível notar estas “formas inarticuladas” é preciso adotarmos uma postura mental correlata àquela praticada pelos psicanalistas quando analisam os conteúdos inconscientes dos gestos, falas, sentimentos e percepções de seus pacientes; ou seja, quando centram sua atenção em aspectos difusos e imperceptíveis à realidade ordinária que encobre o verdadeiro sentido dos signos e significados daquilo que fazemos, falamos, sentimos e percebemos.       

Os elementos que compõem as formas inarticuladas geralmente fogem à nossa atenção devido ao fato de não se adaptarem aos princípios que ordenam nossa percepção consciente da realidade. Isso ocorre porque nosso conjunto sensorial está muito mais programado para receber informações concretas e simplificadas do que para perceber e interpretar os conteúdos ocultos ao mundo material. Estes conteúdos, apesar de imperceptíveis em um primeiro plano, têm o potencial de concentrar em si informações inconscientes de fundamental importância para a compreensão dos fenômenos artísticos, oníricos, imaginativos e míticos, que, por sua vez, podem nos revelar significados mais abrangentes da vida.

Exemplos destas formas inarticuladas na arte podem estar nas pinceladas de Van Gogh ou de Heitor dos Prazeres e nos glissandos e vibratos das melodias de Mozart ou de Billie Holiday; podem aparecer nas imagens aparentemente desordenadas de nossos mais singelos sonhos, assim como podem estar nas sensações que experimentamos diante daquilo que consideramos sublime ou divino. Podemos encontrar formas inarticuladas também nas fantasias, que são encenações imaginárias que produzimos como forma de mecanismos de defesa ou de ideação de desejos conscientes ou inconscientes, podendo se relacionar ainda com uma atividade criadora cujo resultado é uma produção ilusória de certa realidade inalcançada.  

Mesmo imperceptíveis à nossa consciência, que as categoriza geralmente como supérfluas e acidentais, as formas inarticuladas são muito significativas para nosso inconsciente, pois é lá onde elas repousam como conteúdos formadores de nosso caráter, nosso temperamento, nossos desejos, medos, crenças, isto é, nosso “eu” mais abrangente.

Como nossa tendência geral é a de descartar as formas aparentemente indefinidas para eleger em seu lugar as formas simples e concretas como necessárias para o viver, nossa existência vem sendo determinada ao longo da trajetória humana por uma perspectiva materialista que pouco ou nada absorve do que está no fundo de nosso inconsciente. Vivemos dessa forma provavelmente por razões de adaptação, sem as quais talvez não teríamos sobrevivido como espécie, tampouco teríamos desenvolvido nossa capacidade de idealizarmos nossa própria existência.

A participação do caráter mítico-estético nessa idealização foi fundamental para o desenvolvimento da espécie, uma vez que representa um dos meios basilares para explicar ou exprimir a finalidade do homem. Essa tendência à articulação, que recebeu o nome de Gestalt, ocorre nas camadas superficiais da mente e tem como função simplificar as formas para dar ordem e coerência ao mundo. Entretanto, para além dessa simplificação e ordenação do mundo, a mente humana também opera com dados perceptivos profundos, na base dos quais estão os princípios estéticos e míticos que proporcionam explicações mais elaboradas para a realidade. A arte, os sonhos, as fantasias e os mitos, portanto, emprestam seus significados ocultos para servir de meios para o homem construir narrativas acerca de sua finalidade. Em suma, se por um lado precisamos das formas articuladas para a construção da realidade, por outro, necessitamos dos elementos inarticulados para conceber nossa ideia de eternidade a partir de nossos desejos inconscientes.

Nesse contexto, o artista talvez seja aquele que mais operações mentais precisa fazer para imprimir em sua obra – ainda que inconscientemente – o nexo entre os elementos articulados e inarticulados, pois seu trabalho é realizado em um campo mental fronteiriço entre o consciente e o inconsciente, entre o imanente e o transcendente. Quando opera conscientemente, ele não tem o total controle do que faz do ponto de vista simbólico, pois seu foco está prioritariamente nos campos técnico e formal. Por outro lado, na esfera inconsciente o artista deixa transparecer, mediante uma linguagem simbólica inarticulada e repleta de conteúdos, sentidos e significados que ele próprio desconhece, mas que fazem parte de sua existência enquanto ser biopolítico, e que desvelam mensagens profundas acerca de seu eu e dos afetos que recebe e empresta ao mundo. O resultado de sua obra sempre lhe será inesperado e sempre trará algo de misterioso e imponderável que fugirá à lógica da contingência, mas que em seu conjunto se mostrará a um só tempo consciente e inconsciente, ou seja, dialeticamente articulado e inarticulado.

Fonte:

EHRENZWEIG, Anton. Psicanálise da percepção artística: uma introdução à teoria da percepção inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1977.

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