sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

LITERATURA MARANHENSE – O CASARÃO

Publicado em 11 de dezembro de 2023, às 19:05
Fonte: Maria Clara Correa Almeida – Estudante de Letras da UFMA e escritora
Imagem: https://r.search.yahoo.com/_ylt=AwrFFb1ch3dlY0MGexj.6Qt.;_ylu=c2VjA2ZwLWF0dHJpYgRzbGsDcnVybA--/RV=2/RE=1702361052/RO=11/RU=https%3a%2f%2fmaranhaonocongressoslcentrohistorico.blogspot.com

O calor atravessava a janela e batia contra o meu rosto à medida que o carro estacionava na Rua do Sol, em frente a um dos maiores casarões do centro de São Luís. As mãos de Gustavo roçavam levemente na minha calça jeans, nervosas por mim.
Nunca pensei que pudesse odiar tanto alguém quanto odiava meu professor de Tópicos Especiais de História: São Luís do Século XIX: Uma Cidade Por sua Toponímia. Ele queria que encontrássemos um lugar histórico da cidade e fizéssemos um artigo sobre ele, para depois apresentarmos em forma de seminário. E nem ao menos era em grupo. Teria que fazer tudo sozinha.
— Te pego mais tarde, tá? — perguntou Gustavo, atraindo minha atenção para seu rosto. — Prometo que vou estar aqui assim que meu turno acabar. Você vai se sair bem, Lila.
Olhei para ele e assenti com a cabeça, e então nossos lábios se encontraram brevemente por um instante. Sorri de forma branda, abrindo a porta do passageiro e o observando ir embora.
Comecei a ler incessantemente sobre o Casarão Serejo algumas semanas atrás. Sempre soube da minha ligação com aquele lugar, mas nunca dei muita importância. Repleto de um jardim extraordinário, cheio de flores, grama e até mesmo uma árvore, é uma das habitações mais bonitas da Rua do Sol. Foi fundado em 1756 pela família Serejo após sua mudança de Portugal para o Maranhão, e foi o lar de muitas gerações que vieram em seguida. No estilo colonial português, contava com dois andares, grandes salas de estar e de jantar, escritório, sala de piano, assoalho de madeira, paredes escuras, carpetes e por toda parte mais quartos do que posso contar. Aquele lugar era realmente um patrimônio histórico.
Não fazia ideia se o local que escolhi seria interessante o bastante para agradar meu professor. O Sr. Paulo Cardoso era conhecido por sua rigorosidade e apreço por detalhes. Verificava todas as fontes e referências, sabia reconhecer um trabalho preguiçoso no mesmo instante em que o encontrava e tinha zero tolerância para alunos que não se esforçavam. Ele me dava medo.
— O último casal a morar aqui antes do incêndio foram Frederico e Carlota Serejo — disse André, meu guia e o responsável por manter o local. Ele estava repassando comigo algumas informações importantes. — O filho mais velho deles, Benjamin, foi quem reconstruiu o casarão, tentando deixar o mais parecido possível com o original.
Continuei a segui-lo pela escadaria até o segundo andar, anotando aquelas informações no meu caderno.
— E como era a relação da Carlota e do Frederico?
— Pelos poucos registros que temos, aparentava ser boa. Muito melhor do que muitos casamentos da época. Frederico trabalhava para o imperador, então ficava em casa por pouquíssimo tempo.
— E quem fazia companhia para Carlota quando o marido estava viajando?
— Na verdade, senhorita Ser…
— Pode me chamar de Camila. Ou Lila.
Ele pareceu não me escutar.
— … a senhora Carlota ficava bastante sozinha. Era uma mulher ranzinza, de poucos amigos e com um temperamento muito complicado. Sua única amiga próxima era Cecília Braga, mas as duas tiveram uma relação bastante difícil durante toda a vida.
Franzi as sobrancelhas.
— E por quê?
André me olhou como se eu fosse alguma nova espécie de pessoa burra.
— Ora, porque a Cecília estava apaixonada pelo marido da dona Carlota! Escreveu vários poemas sobre infidelidade e sobre este casarão.
— Mas ela os escrevia sob um pseudônimo, não era?
— Sim, certamente. Apesar de ser da alta sociedade, assim como dona Carlota, ela ainda era uma mulher, e aquele tipo de coisa não era bem-vista. Acredito que já tenha lido Cecília Braga.
Me segurei para não revirar os olhos.
— Claro que já.
Passávamos pelos corredores com suas grandes janelas de mosaicos, candelabros por toda parte, e pinturas que deviam valer mais que minha própria vida. Nosso tour terminou no antigo escritório de Frederico.
— Como você não é uma visitante qualquer, vou deixar que fique aqui por um tempinho — André avisou, seu rosto corado muito sério. — Não toque nem quebre nada, entendido?
— Entendido.
Me lançando um último olhar ameaçador, André me deixou sozinha no escritório. Descumpri minha promessa no momento em que ouvi seus passos se afastando. O escritório de Frederico contava com um vasto acervo de livros de todos os tipos e em sua escrivaninha havia um tinteiro velho e desgastado. Foi um dos poucos lugares que o incêndio não atingiu.
No início de 1963, o último Serejo a morar ali vendeu o casarão e, mais tarde, o lugar foi tombado pela prefeitura. Começou a ficar aberto para a visitação. Todo mundo que passava por ali dizia que o casarão estava repleto de energias ruins. Talvez por marcar o lugar da morte de Carlota e Frederico, que foram consumidos pelas chamas.
Andando pelo chão de madeira, senti uma tábua ranger. Com as sobrancelhas franzidas, me abaixei e puxei a tábua, revelando um esconderijo. Havia ali um livro vermelho de camurça, sem nenhum título na capa. Comecei a folheá-lo.
Era um diário. E não de qualquer pessoa.
Era o diário da Carlota.
Passando para o português atual, as anotações ficariam mais ou menos assim:
“23 de setembro de 1876
São Luís, Maranhão
Meu Deus, meu Deus, meu Deus. Por que fazes isso comigo?
Tira esta praga da minha vida. Eu não me reconheço mais. Que tormentos são estes que me fazes passar?
A comida não tem mais o mesmo gosto. As músicas já não são mais as mesmas sem a presença desse alguém que me ama e me beija, que me salva e me condena.
À Ti sou sempre grata, uma serve imaculada.
Mas quero me entregar, quero pecar.
Meu Deus, meu Deus, meu Deus.
Quero pecar.”
Fiquei olhando intrigada para o papel, me perguntando sobre o que Carlota dizia. Ela foi infiel?
“04 de julho de 1878
São Luís, Maranhão
Hoje, na missa da Igreja do Carmo, minha igreja favorita nesta cidade, acompanhada de meu marido e de minha amiga Cecília, escutei com atenção o que o padre Roberto quis dizer no sermão. E já sabia que iria para o inferno. Não havia nada que pudesse fazer para salvar minha alma.
As tentações da carne são assim. Elas chegam sem avisar, tomando tudo o que podem e vão embora antes que você consiga entender o que aconteceu. Deixam você sem nada.
Eu gosto de encontrá-lo em nossos esconderijos secretos. Quando ninguém está olhando e apenas o nosso mundinho particular merece atenção. Quando trocamos olhares em uma sala cheia de pessoas, ouvindo a melodia do piano e sorrindo sem motivo. Gosto de acompanhá-lo ao Teatro São Luiz, aos jantares e passeios à cavalo, ou nas vezes em que conversamos na minha sala de estar tomando o vinho ou conhaque do meu marido. Seria um escândalo se soubessem. Gosto quando suas mãos me tocam em cima do colchão e seguram meus braços na rua. Gosto do seu cheiro, do seu sabor, da sua risada, da forma como puxa e me repuxa sem precisar de esforço.
Acho que estou apaixonada.
Se Frederico soubesse, ele queimaria esta casa até o chão.
Comecei a escrever aqui porque me sentia muito sozinha. Não gosto da maioria das pessoas. A maioria das pessoas também não gosta de mim.
Mas ele gosta.
Meu doce Ciça.
Desde bem nova, sabia que deveria me casar com Frederico. Sua família era rica, influente e não só muito importante em nossa cidade, mas também em nosso país. Frederico também era muito bonito. Tinha olhos de matar. Nos damos bem. Afinal, não nos é disponibilizado nenhum tempo para sequer brigar. Não há conexão, só estamos cumprindo uma obrigação. E tem sido assim pelos últimos dez anos.
Mas, então, encontrei alguém cujo toque é fatal. Me inspira e me derrete, seu fogo incandescente me tem como refém. Um toque amaldiçoado, errado, mágico, trágico. Vou me guiando pela fé — mas que fé? A fé dos vivos? A fé dos mortos? A fé daqueles que sabem como amar?
Não sou prosadora, sou apenas uma esposa. Este é o meu papel.
Mas já criamos raízes, e agora somos como erva daninha no jardim.
Fadadas à terrível dor da rejeição.
Se todos se esquecessem de mim, ele ainda iria lembrar.
Se não conseguisse ver, ou ouvir, ou sentir, ele ainda assim iria me reconhecer.
Se eu morresse amanhã, ele seria o único a levar flores ao meu túmulo.
E eu ao dele.
Ele é o único que conseguiu chegar até o coração que, antes, eu nem sabia que tinha.”
Fiquei surpresa com tudo o que li. Já estava quase terminando o diário, avançando pelos anos. Acho que nem mesmo André, que estudou tanto sobre os Serejo, sabia que Carlota teve um caso. Ou apenas fingia muito bem.
As páginas terminam sem nenhuma conclusão. A última coisa que Carlota escreveu foi sobre uma ida para tomar chá com Cecília, a amiga que nunca se casou e que escrevia sob um pseudônimo. Não sei o que aconteceu com seu amante. Será que ainda estavam juntos quando ela morreu?
Nunca se soube ao certo como o incêndio no Casarão Serejo teve início. Tudo o que sabemos é que Cecília Braga foi a primeira pessoa a chegar aqui no dia seguinte ao acidente, já que não estava na cidade quando aconteceu, foi a que mais chorou no enterro dos Serejo e nunca conseguiu superar a morte de Frederico. Sua poesia se tornou extremamente melancólica após 1889, até mesmo sombria. Ela queria se juntar ao seu amado, queria encontrar um ceifador e pedir para que ele a levasse também, ou trouxesse seu amor de volta. Em uma de suas obras, Cecília diz que faria de tudo, que trocaria sua alma, apenas para ter mais um minuto ao lado de seu grande amor.
A paixão é trágica.
Deixando o diário de lado, procurei por mais coisas que pudessem me levar a investigar a fundo aquelas pessoas. Nenhum dos envolvidos estava vivo, então tudo o que eu tinha eram aqueles pequenos registros. Para uma futura historiadora, aquilo era algo com que eu estava acostumada a lidar.
Depois de tanto fuxicar, acabei encontrando algumas cartas. Cartas comprometedoras e que não deveriam sequer estar ali, no escritório de Frederico.
“Meu doce Ciça
Como é a capital? Tão linda quanto dizem por aí?
Este tem sido um ano estranho. Nosso imperador, Dom Pedro II, acabou de ser deposto. Frederico vem esperneando pela casa, fumando mais charutos que o normal e perdendo mais cabelo do que em dez anos trabalhando na corte. Meu marido não apoia o governo republicano. Diz que não dará certo e que nosso país ficará estagnado no tempo, que nos tornaremos chacota nacional. Não sei se é verdade. Na verdade, não faço a mínima ideia do que pensar. Não me importo com nada disso. A política não me importa, nem os negócios, nem o futuro incerto para o qual estamos caminhando, um futuro onde eu provavelmente não estarei. Nada disso me interessa. Tudo o que me importa, tudo o que me interessa, é você, meu doce, doce Ciça.
Com muito, muito amor,
Carlota”
E uma do tal Ciça para ela.
“Minha querida Lotti,
Há muito tempo venho querendo lhe dizer estas palavras: eu a amo. Eu a amo com toda a minha alma, com cada fibra de meu corpo e cada fio de cabelo. Se houverem outras vidas, procurarei você em todas elas. Só um corpo é pouco demais para amá-la, Carlota. Meus poemas são todos seus, assim como meus dias, minhas horas e meus minutos.
Esses meses longe de você têm sido uma tortura, querida. Sinto falta de nossas conversas inteligentes, da sua risada melódica quando digo algo que consideras engraçado, dos nossos longos chás de fim de tarde. Os biscoitos de acompanhamento são meus preferidos, mas não há nada nesse mundo que eu adore mais do que você, minha Lotti, querida.
Gostou do colar de rubis que lhe enviei? É apenas um pequeno souvenir para que sempre se lembre de mim. E do nosso amor.
Eternamente seu,
Ciça Batista”
Com a boca seca, guardei as cartas dentro do diário de Carlota e o recoloquei no esconderijo. Como um amor proibido tão intenso quanto aquele conseguiu passar anos despercebido?
Peguei minha bolsa, me despedi de André completamente atordoada e saí do casarão. Já era noite. O carro do Gustavo estava estacionado na frente.
— Como foi? — questionou ele, depois de me cumprimentar com um beijo.
Toquei o colar de rubis ao redor do pescoço, uma herança de família que veio da Lotti. Minha ancestral.
Olhei para o casarão outra vez.
— Foi… intenso.
O amante de Carlota não era um homem.
Cecília não era apaixonada por Frederico.
Porque Ciça Batista era o pseudônimo usado por Cecília Braga.

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