sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Artigo de segunda #14: DOIS ANOS SEM ASSIS BRASIL

Publicado em 27 de novembro de 2023, às 4:59
Fonte: José Neres – Professor. Membro da AML, ALL, APB e da Sobrames-MA
Imagem cedida pelo autor,

Sou de um tempo em que uma das formas mais práticas e baratas de comprar um livro era recorrer aos catálogos da Ediouro (Tecnoprint), preencher um cupom de reembolso postal colocando o código do livro desejado e a quantidade de exemplares. Depois disso, íamos a uma agência dos Correios e depositávamos o cartão-resposta em um dos setores de coleta. Restava, a partir daí, esperar para saber quando (e se) a encomenda chegaria…

Foi em uma dessas aventuras de proletário interessando preencher tempo e estante com livros que, em 1991, resolvi comprar um livro de um escritor que nunca havia ouvido falar. A apresentação/sinopse no encarte da Ediouro era interessante e dizia o seguinte: “Beira Rio Beira Vida – maior prêmio literário do Brasil: “Prêmio Nacional Walmap” – Retrata a vida das prostitutas do cais do rio Parnaíba. Sua técnica é uma verdadeira novidade na literatura nacional”. Semanas depois, recebi o comunicado e fui à agência dos Correios – Outeiro da Cruz – fazer o pagamento e retirar os produtos solicitados.

Está anotado em meu exemplar – 22 de outubro de 1991 – o dia do meu primeiro contato com a obra de Assis Brasil. Confesso que Beira Rio Beira Vida foi uma leitura desafiadora. Mas, depois vieram muitos outros contatos com a obra desse autor piauiense nascido em 1929 e que, quando faleceu, no dia 28 de novembro de 2021, aos 92 anos de idade, deixou para a eternidade mais de uma centena de livros em diversos gêneros.

Depois de Beira Rio Beira vida (1965), li muitos outros livros de Assis Brasil: O Salto do cavalo cobridor (1968), A filha do Meio-Quilo (1966), Pacamão (1969), A Rebelião dos órfãos (1975), Os que bebem como os cães (1975), Os crocodilos (1980), Deus, o sol, Shakespeare (1978), Aventura no Mar (1955), A volta do herói (1974), O velho feiticeiro (1980) Zé Carrapeta, o guia de cegos (1984), Mensagem às estrelas (1983) e Os esqueletos das Amazonas (1991), entre tantos outros que chegaram às minha mãos.

Além das obras de ficção, outras facetas de Assis Brasil foram essenciais para a minha formação: ele era um excelente ensaísta e crítico literário, além de ocupar-se com a elaboração de obras de cunho teórico e didático. Foi então que entrei em contato com seu Vocabulário técnico de literatura (1979), com o Dicionário prático de literatura brasileira (1978), Estilos e meios de comunicação (1978), Graciliano Ramos (1969), Teoria e prática da crítica literária (1995) e A poesia maranhense do século XX (1994), livros que diversas vezes citei em meus trabalhos nos áureos tempos de universidade.

Assis Brasil era um escritor que dominava diversas técnicas narrativas, desde as que podem ser consideradas tradicionalistas até as mais inovadoras e com teor experimentalista. Isso faz com que seus livros sejam sempre impregnados de surpresas, tanto do ponto de vista temático quanto na esfera da forma de escrever e na construção de suas personagens, que geralmente estão imersas e/ou vivenciam as diversas fraturas sociais sofridas ao longo dos tempos, são insatisfeitas e lutam contra complexas situações que vão da privação de liberdade à prostituição, passando por dramas psicológicos, questões existenciais, traumas, tradições locais, violências de todos os tipos e questionamentos…

A ficção escrita por Assis Brasil não tem como objetivo apenas narrar um fato e despertar o senso lúdico e estético no olhar do leitor. Suas obras querem também denunciar circunstâncias sociais às vezes invisibilizadas pela História, ou questionar situações e personagens que trazem por trás de si todo um painel social que precisa ser esmiuçado, revisitado, revisto e até mesmo desconstruído, para que o olhar crítico dos leitores possa penetrar nas frestas e nas ranhuras de versões consolidadas pelo tempo, mas que talvez não resistam ao confronto direto de novas insinuações e de inusitadas angulações prismáticas.

Os livros de Assis Brasil nunca deixaram de ter um destaque especial em minhas estantes, mas, infelizmente, nem sempre tive oportunidade de falar sobre eles. Lembro-me de bons diálogos com os amigos e colegas Natan Campos e Júlio César Ferreira Filho. Recentemente, no entanto, durante uma breve passagem pela cidade de Itapecuru-Mirim (durante a VI Festa do Livro de Itapecuru-Mirim), tive a honra de conhecer a professora doutora Francigelda Ribeiro, que dedicou parte de sua vida aos estudos da obra do autor de Pacamão e que fala sobre o autor com intenso brilho nos olhos. Conversamos por alguns minutos, mas o suficiente para colocá-la no rol de pessoas admiráveis que conheço. Foi para mim um momento de muito aprendizado.

No início da semana passada, o professor e acadêmico Dilson Lages Monteiro enviou-me um artigo de sua autoria sobre a trajetória literária de Assis Brasil e a aproximação da data que marca os dois anos de ausência terrena do grande ficcionista e crítico piauiense. Li o texto entremeando cada parágrafo com as recordações dos livros que havia lido. Das páginas desse autor tirei inúmeros momentos de entretenimento e de aprendizagem. Acredito que sem ter entrado em contato com os livros de Assis Brasil, minha trajetória de vida acadêmica seria diferente. Um dia comento sobre isso.

Amanhã, 28 de novembro, faz dois anos que o mestre Assis Brasil partiu rumo à eternidade. Não tive a honra de conhecê-lo pessoalmente. Mas quem disse que precisamos estar perto de alguém para admirar seus trabalhos e para aprender com essa pessoa que não mais está fisicamente entre nós, mas que continua ensinando e abrindo caminhos para as novas gerações? Sua obra é eterna!

2 respostas

  1. Excepcional artigo, professor José Neres.

    Também fui cliente da Ediouro e adquiri, pelo reembolso postal, o excelente “Vocabulário Técnico de Literatura”, uma das poucas obras da época que preservei, devidamente reencadernada em capa dura.

    Sou-lhe grato pela estimulante leitura e a saudável recordação de tempos d’outrora.

    1. Obrigado, Tasso. Até hoje guardo com carinho e sempre releio os livros que adquiri na Ediouro. Só quem viveu naquela época conhece a emoção de receber a notícia de que a encomenda havia chegado a agência dos Correios.

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