sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

ARTIGO DE SEGUNDA # 12 – O PODER DA CALCINHA

Publicado em 13 de novembro de 2023, às 20:32
Fonte: José Neres – Professor. Membro da AML, ALL, APB e da Sobrames-MA
Imagem elaborada por aplicativo de IA.

Ela espalhava mal humor por onde passava.

Seus documentos indicavam que ela estava prestes a completar 42 anos. Porém sua aparência aceitava o acréscimo de pelo menos cinco anos mais.

Chegava de cabeça baixa, não respondia ao boa noite do professor e nem mesmo das poucas colegas de classe que ainda tinha paciência para tentar cumprimentá-la. Era possível sentir até um certo alívio da turma nos raros momentos em que ela faltava às aulas noturnas do curso de Pedagogia naquela faculdade particular.

Mesmo quando quase toda a turma sorria de algo, ela permanecia séria e compenetrada. Nos trabalhos em equipe, sempre falava por último em uma voz quase inaudível. Era quando ficava mais exposta. Suas roupas demonstravam claramente que ela, a moda e a vaidade não há muito tempo não trilhavam os mesmos caminhos.

Mas, naquela noite, todos se surpreenderam…

Ela chegou e soltou um sonoro boa noite. Sua voz estava tranquila e sua pisada firme era de uma mulher decidida. Os trajes eram os de sempre, mas ali dentro estava uma outra mulher. Um sorriso de felicidade e o brilho nos olhos devolviam-lhe a idade que estava nos documentos e talvez ainda lhe aliviasse de alguns anos.

Não e disse: “Muito bem. Quanta alegria! Divida conosco o motivo de tanta felicidade!

Era ainda bastante cedo. A maioria dos alunos ainda não haviam chegado. Ela acomodou na carteira algumas sacolas que trazia nas mãos, levantou a cabeça, olhou para a todos e respondeu orgulhosa:

– É que eu comprei uma calcinha, professor.

Depois de breves segundos de espanto, a gargalhada foi geral. Ela ria mais que os demais. Depois pediu silencio e explicou:

– Parece bobagem, mas para mim não é. Comprei uma calcinha.

Todos ficaram em silêncio e aguardaram o que ela ensaiava falar:

– Casei cedo. Não pude estudar no tempo certo. Tive quatro filhos. E sempre fui humilhada, primeiro por meus pais, depois por meu companheiro. Jamais ganhei um centavo na vida. Dependia dele para tudo. Até mesmo para comprar calcinha. Muitas vezes tive que ouvir: “Tu não faz nada e ainda me pede dinheiro para comprar calcinha, que absurdo”. “Pra quê você que calcinha de novo? Usa as velhas mesmo, ninguém vai ficar sabendo”… Era muita humilhação na minha vida. O senhor, entende, professor, uma mulher que tem que se humilhar para comprar uma calcinha não tem mais dignidade, não tem como sorrir, não tem como ser feliz…

Fez uma pausa. A voz embargada contrastava com uma faísca de felicidade que saía de seus olhos.

– Lá em casa foi uma briga quando decidi estudar. Se não recebia dinheiro para calcinha que dirá para cadernos, canetas, lápis, livros, cópias. Tive que roubar material de meus filhos para não passar mais vergonha ainda. Sentar ao lado de cada um de vocês aqui na sala sempre foi para mim um ato libertador. Mas eu tinha que voltar para casa, arrumar e engolir cada humilhação em silêncio. Ele nunca me deixou trabalhar nem mesmo de doméstica ou de babá. Na volta do mercado, tenho que devolver até o último centavo de troco. Nunca passei fome, é verdade, mas comida não é tudo.

Todos na sala estavam paralisados. Duas ou três pessoas havia chegado durante o depoimento e nem mesmo conseguiam sentar-se diante daquela história inusitada.

– Mas, pessoal, vocês lembram que surgiu aquela notícia de estágio remunerado naquela escola lá do centro? Pois é, fui com a cara e a coragem. Enfrentei meu medo, meu nervosismo, minhas dificuldades e um monte de candidatos daqui e de outras faculdades. Fui bem na entrevista e, mês passado, comecei a estagiar. Foi difícil. Tenho convivido com a cara amarrada do marido e com a cada de deboche de meus filhos.

Ela se levantou de onde estava. Veio até a frente da sala e, após respirar bem fundo, disse calmamente:

– Hoje saiu o pagamento do estágio. Antes de vir para cá, passei em uma loja e comprei uma calcinha. A primeira em toda a minha vida que comprei com meu dinheiro. Vocês nem imaginam como estou me sentindo hoje. Sou outra mulher. Sou outra pessoa. Professor, na hora da chamada, diga meu nome bem devagar. Estou descobrindo quem realmente sou.

Todos os rostos da sala estavam banhados em lágrimas. Aplausos. Abraços…

Era hora de iniciar a aula. No momento da chamada, todos os olhares se dirigiram para aquela nova e poderosa aluna. No silêncio da sala, ela se levantou, correu os olhos por cada fileira e, de seus lábios, ecoaram um potente grito de liberdade:

– Presente!

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