No turno noturno, o ar era de maturidade. Parte dos alunos era composta de jovens maiores de dezoito anos que já trabalhavam durante o dia, ou seja, tinham responsabilidades de vida adulta. Muitos professores, naquela época, desejavam alcançar o posto de servidor daquela renomada instituição. Os muros, tingidos de azul e vermelho da bandeira estadual, impunham um tom de seriedade. Porém, demorou pouco para a mestra recém-formada descobrir que o Ensino Médio noturno era repleto de imprevisibilidades e riscos que ela teria que enfrentar.
Enquanto os alunos lutavam contra o sono, tentando manter a atenção na aula de Variações Linguísticas, a professora listava no quadro branco exemplos de variações regionais. O entusiasmo da jovem professora, recentemente aprovada em seu primeiro concurso público, foi abruptamente substituído pelo choque com a realidade nos minutos seguintes.
Era abril de 2006, numa terça-feira. Clara, uma aluna nem destacada nem indisciplinada, sentava-se nas cadeiras da frente. Quieta e com poucos amigos, foi surpreendida pelo súbito mal-estar que interrompeu a monotonia da aula. “Professora, a menina está passando mal”, gritaram, enquanto o corpo de Clara convulsionava e palavras ininteligíveis eram misturadas à saliva que escorria de sua boca. Aquela cena tumultuou a sala, revelando a todos, inclusive à professora, o quão desafiador e inesperado o ato de educar poderia ser.
A noite foi tomada por murmúrios e conjecturas nos corredores da escola. Todos questionavam o que teria acontecido com Clara. Após ser levada ao hospital, a suspeita de ingestão de algo letal confirmou-se, deixando a todos atônitos e preocupados.
Na escola, a ausência de enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais é a realidade que se mantém até hoje. Quase todas as demandas, burocracias e responsabilidades recaem sobre o professor, esse super-herói capaz de resolver todas as questões, desde as acadêmicas até as pessoais dos alunos.
Essa experiência, nada fictícia, marcou meu primeiro ano como professora do Ensino Médio. Me fez perceber que ser professor vai além da transmissão de conhecimento; é estar pronto para lidar com as incertezas e desafios humanos que surgem inesperadamente.
Ser professor, especialmente na educação básica, é uma jornada de altos e baixos. Exige não apenas habilidades técnicas, mas também emocionais, muitas vezes pegando os educadores de surpresa. Estamos realmente preparados para corresponder a todas essas expectativas e demandas? Nós somos mesmo capazes de corresponder a todas as competências que nos são cobradas nesse mundo em constante transformação?
Atualmente, a profissão docente é marcada por um crescente mal-estar, uma sensação de esgotamento físico e mental que parece estar em consonância com as rápidas transformações do mundo atual. Diariamente, lutamos para preencher lacunas deixadas por outros setores da sociedade, nos tornando profissionais sobrecarregados física e emocionalmente pelo complexo papel que exercemos na profissão. Mas será que estamos cuidando de nós mesmos com o mesmo empenho? Ou estamos expostos ao que vem se consolidando na literatura como burnout docente?
Essa reflexão é essencial. Precisamos nos questionar se estamos mantendo nosso bem-estar em equilíbrio com as demandas profissionais, ou se estamos, silenciosamente, sendo consumidos pela exaustão e pelo estresse, comprometendo não só nossa saúde, mas também a qualidade da educação que oferecemos. É preciso cuidar para que, no mês de outubro, continuemos recebendo homenagens “ao mestre com carinho” em vez de recebermos “ao mestre com burnout”.