sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Escrita como prática do cuidado de si

Publicado em 14 de setembro de 2023, às 10:00
Fonte: Cristiane de Magalhães – poeta, professora de Língua Portuguesa.

Cuidar de si mesmo é uma necessidade cada vez mais evidente em nossos dias. Vivemos apressados, atendendo a demandas e batendo metas. E isso é ótimo para nosso desenvolvimento pessoal e profissional. No entanto, é necessário dar aquela parada no meio da semana para repensar algumas coisas ou para, simplesmente, não pensar em nada. Um momento para apenas estar. Será que conseguimos?

Sabe quando limpamos a memória cache do celular e percebemos que ele passou a funcionar melhor e até mais rápido? Cuidar de nós mesmos é parecido. Às vezes, precisamos fazer “limpezas” mentais. Algumas pessoas fazem isso por meio da meditação, outras leem ou fazem atividade física e outras pessoas escrevem.  Eu, particularmente, tenho aderido a esta última. Escrever é uma técnica poderosa de limpeza da nossa “memória cache”, bem como de correção de alguns “bugs” mentais.

Tecnologia de resistência ao biopoder. É essa nomenclatura sofisticada que alguns autores utilizam para se referirem à possibilidade de sobreviver e, melhor ainda, bem viver, por meio da escrita de si. Embora tenha sido “escavada” dos antigos gregos, essa técnica continua atual e eficaz como prática do cuidado de si. Quiçá, o melhor antídoto para lidar com a falta de contemplação reinante na atual conjuntura.

Atualmente, jogamos o jogo neoliberal de estarmos sempre produzindo, produzindo e produzindo. Então, é preciso saber-se jogando e usar essa informação a nosso favor. Só assim saberemos a hora de descansar. Nesse descanso-trabalho que é a escrita de si, nos conectamos com nossas emoções, processamos nossas experiências cotidianas e aprendemos mais sobre nós mesmos. Trata-se de uma ferramenta de higiene mental que nos habilita a interagirmos melhor com os outros e a superar desafios na família, no trabalho e em todos os âmbitos da vida.

Vez ou outra, quando estou escrevendo no meu caderno – que chamo Caderno de Autoanálise – me vem à memória o dia que, na minha adolescência, me livrei de um rato. Nesse dia, eu estava no meu quarto estudando para uma prova e ele desceu do teto para se esconder atrás de um móvel que eu usava como penteadeira. Peguei uma sacola grande, dobrei as bordas para fora no intuito de deixá-la firmemente aberta e coloquei-a de um dos lados do móvel. Do outro lado, fiz barulho com uma vassoura para que o rato se movesse.

A sorte me ajudou, confesso. Ele disparou em direção ao fundo da sacola e eu, prontamente, amarrei-lhe a boca para que ele não escapasse. Um bicho que sempre me embrulhou o estômago e eu consegui vencê-lo apenas com um pouco de paciência, estratégia e sorte. A primeira vez que escrevi sobre esse episódio do rato, identifiquei pensamentos, emoções e até comportamentos que se repetiam na minha vida nos dias atuais. Essa capacidade de elaborar sentimentos é o que mais me fascina na escrita como cuidado de si.                      

Falando assim, até parece mágica, ou seja, escrevemos sobre um evento traumático e tudo passa a fazer sentido na vida. Mas não é bem assim. Escrever nos ajuda a tomar melhores decisões e a resolver conflitos de forma ética, mesmo, mas os problemas e desafios continuarão existindo. É recomendado, então, que essa seja uma prática constante. Não apenas no setembro amarelo ou quando a ansiedade/depressão já estiver em níveis estratosféricos. Encontrar um lugar tranquilo, delimitar um tempo para escrever regularmente sobre os entraves do dia a dia, sem medo de ser vulnerável, não é frescura ou coisa de adolescente. É exercício reflexivo. É técnica de sobrevivência.

Assim como a vida, a escrita também é processo. Esse caráter movente, processual, se contrapõe a fixidez e diz muito sobre a possibilidade de se criar novas existências éticas. Pelas mãos de quem escreve, acontece um belo movimento de transformação, pois aquele que pinga o ponto final não é mais o mesmo que escreveu o primeiro parágrafo.

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