sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

O pé que faz sombra: o poder do livro-reportagem para a construção da identidade local

Publicado em 3 de agosto de 2023, às 9:01
Fonte: Joao Marcos – Jornalista e escritor. Membro da Academia de Ciências, Letras e Artes de João Lisboa-MA (ACLAJOL)
Imagem cedida pelo autor.

Você conhece a sua história? Sabe onde estão fincadas as raízes de sua família? E no local onde você reside, tem uma bagagem histórica e cultural para ser compartilhada? Por quase sessenta anos, a cidade de João Lisboa, no estado do Maranhão, ficou sem nenhuma referência, no qual estivessem registradas as vozes de sua própria história. Me desafiei, ainda quando cursava Comunicação Social/Jornalismo na Universidade Federal do Maranhão (UFMA-Imperatriz) a colocar em prática as questões que eram debatidas em sala de aula na feitura de um livro-reportagem que contasse a história da antiga Gameleira.

Antes, vamos a uma definição importante. Em seu livro “Páginas Ampliadas” (2009), de Edvaldo Pereira Lima, define o livro-reportagem como um veículo de comunicação que tem como objetivo ampliar as informações sobre os fatos, tendo este uma relevância social. Ele se configura como o produto ideal para o debate da memória. Exige uma forma diferente do fazer jornalístico, o que permite exercitar um olhar mais aprofundado e desdobrar múltiplos fatos e acontecimentos, algo mais raro no contexto das rotinas engessadas do jornalismo do dia a dia. E diante disso, me surgiu o questionamento: em que livro está registrada a história da minha cidade, João Lisboa?

A verdade era que não estava em lugar nenhum. O livro-reportagem “À Sombra da Gameleira: histórias e memórias da cidade de João Lisboa”, que foi meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), veio para mudar esta situação. Entre os anos de 2019 e 2021 mergulhei de forma profunda na história deste lugar no Maranhão e fiz isso ouvindo seus moradores. Durante as primeiras fases da minha pesquisa, me deparei com uma senhora de 92 anos, dona Josina Barbosa, que era uma das poucas remanescentes da época em que a cidade era um povoado denominado Gameleira – uma referência a uma grande árvore que existia próximo a um riacho, ambos não existem mais – que colocou em xeque a versão da história mais conhecida sobre a fundação da cidade.

Me encantei com o relato e voltei a campo para encontrar as respostas para as perguntas que ela colocou em minha cabeça. Mal sabia eu que estava fazendo uma peregrinação para descobrir a minha própria identidade como joão-lisboense. Cresci aqui e sabia muito pouco. Estava familiarizado com os cocais, os banhos no riacho Marajuba (ou Morajuba?), a existência de povoados com nomes peculiares e ruas com nomes de políticos falecidos. Porém, nem eu e nem diversas pessoas, que eu conheceria depois da publicação do livro, sabiam das nuances históricas que nos atravessavam como fantasmas, as casas e ruas da cidade.

O essencial havia sido esquecido. Corrijo: o essencial estava morrendo com as pessoas, os mais velhos, os homens e mulheres que fizeram o que hoje é a cidade que seus netos conhecem. O meu trabalho nesse sentido foi intenso, visto que durante o processo eu enfrentei uma pandemia que arrancou do nosso meio personalidades importantes para este trabalho. Revirei atas, conversei com pessoas de diversas classes sociais, descobri tramas familiares, me surpreendi com a amor e com os erros de diversas pessoas, que até então, permaneciam intocáveis na memória das pessoas.

A sombra de uma árvore histórica permanece viva quando se é registrada no papel. Neste momento, o “pé”, que assim são chamadas as árvores frutíferas, está plantada no imaginário local, que mesmo depois de tantos anos, João Lisboa ainda é carinhosamente chamada pelo seu nome primeiro nome. Posso dizer que, depois do lançamento do livro em dezembro de 2021 por meio da Lei Aldir Blanc, eu tenho um senso de identidade mais apurado sobre o local onde moro e os relatos que recebi após a publicação confirmam isso. E o mais satisfatório deles é: “quando eu li seu livro, me senti naquela época” ou “revivi a minha infância nestas páginas”. Por isso, afirmo que o “pé de gameleira” continua dando sombra e assim permitindo que os seus moradores, por meio do livro, se enxerguem como parte de um mundo, de um contexto e se sintam valorizados por quem são.

Uma resposta

  1. Muito bonito esse retorno que você fez as suas origens. Reconstruir um caminho pisado por aqueles que vieram antes de você e prepararam essa terra para que você caminhasse por ela, sentasse à sombra desta árvore, fortalecesse suas raízes e, colhesse frutos! Olhar para essa árvore-cidade, e ver sua imagem identificada nela.

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