quinta-feira, 11 de agosto de 2022

ENTREVISTA: DINO CAVALCANTE – “Nunca se produziu tanta literatura maranhense como nestas duas últimas décadas”

Publicado em 26 de maio de 2022, às 7:56
O Professor do Curso de Letras e do Mestrado em Letras da UFMA, Dino Cavalcante, faz um preciso mapeamento da história e do panorama da literatura maranhense, pontuando seus momentos de efervescência, seus cânones, e apontando para o futuro. Fundador e coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Literatura Maranhense (GELMA), ele também analisa o papel da nossa literatura no século XXI. Vale a leitura!
Fonte: Da Redação
Imagem fornecida pelo entrevistado.

Região Tocantina – Qual é o valor histórico da Literatura Maranhense?

Dino Cavalcante – A Literatura Maranhense faz parte do nosso maior bem imaterial: a nossa cultura, grandiosa desde a primeira metade do século XIX. José Veríssimo e Sílvio Romero, dois dos maiores críticos literários do Século XIX, dedicaram importantes páginas de suas obras para comentar e analisar autores maranhenses, como Gonçalves Dias, Odorico Mendes, Joao Lisboa, entre outros. 

Região Tocantina – Depois de São Luís Atenas Brasileira, na metade do século XIX, que outro grande momento a Literatura Maranhense viveu?

Dino Cavalcante –  A Literatura Maranhense viveu momentos de intensa produção, como no início do Século XX, com a Oficina dos Novos, com a Fundação da Academia Maranhense de Letras, em 1908. Na Poesia, com Maranhão Sobrinho e Corrêa de Araújo; no conto, com Viriato Corrêa, Astolfo Marques e Alfredo de Assis; na novela, com Clodoaldo Freitas; no romance, com Nascimento Moraes; na historiografia e análise literária, com Antônio Lobo; enfim… As duas primeiras décadas do Século XX foram de muita produção, como jamais se havia visto no Estado. Depois, a partir do final dos anos 40, com a criação do Centro Cultural Gonçalves Dias, liderado por Nascimento Morais Filho, e do Grupo da Movelaria Guanabara, liderado por Bandeira Tribuzi. Entre os anos 40 e 50, muitos livros foram publicados em São Luís do Maranhão. Depois, nos anos 70 e 80, com o apoio do SIOGE, houve uma intensa edição e reedição de livros, tanto de ficção, como não-ficção (pesquisas literárias, biografias, monografias, estudos, etc.). Por fim, nestas duas décadas do lumiar do Século XXI, pode-se dizer que nunca se produziu tanta literatura e se escreveu tanto sobre os textos literários maranhenses como agora. São dezenas de artigos científicos, de monografias, de dissertações de mestrado, de teses de doutorado que se produziram nos últimos vinte anos. Ao mesmo tempo, centenas de livros de novos autores foram lançados em São Luís e muitas outras cidades maranhenses.

Região Tocantina – Há, atualmente, um mapeamento amplo da literatura feita no Maranhão?

Dino Cavalcante –  Nosso Grupo de Pesquisa, o GELMA, e outros Grupos, de Letras de Bacabal, da UEMA de São Luís, de Caxias, de Imperatriz, entre outros, além das pesquisas feitas por mestrandos dos Programas de Pós-Graduação em Letras da UFMA (São Luís e Bacabal) e da UEMA, vêm mapeando a produção literária do Século XIX, com o Grupo Maranhense, ao Século XXI, com os novos autores que se lançam todos os anos no cenário estadual e nacional. É um trabalho que ainda está sendo construído, porque, ao mesmo tempo (em) que precisamos resgatar autores e livros mergulhados no ostracismo da nossa história, temos de acompanhar os lançamentos de autores novos, e, sem exagero, mais de 100 livros novos são lançados todos os anos no Maranhão.    

Região Tocantina – Qual é a ação feita no seu grupo de pesquisa?

Dino Cavalcante –  Nosso Grupo de Pesquisa tem atuado em várias frentes: a) Reavaliar os clássicos, autores que foram canonizados na historiografia literária, para analisar novos aspectos em suas obras; b) Conhecer e analisar a produção literária dos autores que, mesmo com uma produção relevante, não adentraram o seleto grupo dos autores canonizados; c) Conhecer e analisar a produção literária dos novos autores, aqueles que estão ainda construindo a sua obra, na poesia, no teatro e na narrativa; d) Divulgar aos estudantes, professores e leitores de modo geral a rica Literatura Maranhense.    

Região Tocantina – Estamos vivendo o centenário da Semana de 22. Houve alguma contribuição maranhense nesta iniciativa?

Dino Cavalcante – Os mais pessimistas costumam dizer que, enquanto os jovens paulistas estavam debatendo os novos rumos para a literatura nacional no teatro Municipal, os maranhenses estavam produzindo e lendo sonetos parnasianos. Mas, ao observamos melhor o que se passou em relação à contribuição maranhense, podemos destacar três pontos relevantes: a) foi o maranhense Graça Aranha um dos palestrantes da Semana de Arte Moderna, além de ter se empenhado pessoalmente para liberar o suntuoso Teatro Municipal de São Paulo para a realização do evento; b) foi o maranhense Coelho Neto um referencial que os modernistas tomaram como parâmetro de uma literatura que deveria sucumbir em prol de uma nova, que examinasse as nossas próprias identidades, mais propícia aos novos ares do Século XX; c) duas produções literárias podem ser reexaminadas à luz de uma modernidade: o romance-crônica de nascimento Morais, Vencidos e Degenerados, publicado em 1915, que aponta para novos aspectos sociais, como vai aparecer mais fortemente nos romances de Jorge Amado, como Cacau, por exemplo; e Por Onde Deus não Andou, de Godofredo Viana, publicado muito tempo depois, já na década de 40, mas que traz à tona todos os problemas inseridos nos principais romances regionalistas de 30. Além disso, nos anos 40, ecoaram em São Luís os ventos da modernidade literária, com amplo debate sobre a nova feição da literatura. Esse debate teve a liderança de Bandeira Tribuzi e de Nascimento Morais Filho.

Região Tocantina – Como o senhor avalia, hoje, o que é feito no estado em termos de literatura?

Dino Cavalcante – Desde 2001, já neste novo século, temos experimentado, em quase todo o Estado do Maranhão, um boom na literatura, tanto em produção de poemas, contos, minicontos, crônicas, romances, teatro, literatura infantil, etc., como nas pesquisas e produção de material sobre a literatura, sejam como artigos, livros, biografias, monografias, dissertações de mestrado e teses de doutorado. Vivemos um período de grande efervescência em nossa literatura, com a criação de academias em várias cidades, com concursos literários, com eventos, com lançamentos de livros, entrevistas, etc.

Região Tocantina – Por fim, qual o senhor acha que será o cenário da literatura maranhense no século XXI?

Dino Cavalcante – O que foi plantado lá atrás parece que está dando bons frutos agora. Como já foi dito, nunca se produziu tanta literatura como nestas últimas duas décadas. No entanto, é necessário ver esse cenário com cautela. Mesmo com esse crescimento todo, com essa celebração, inclusive com um dia estadual para a Literatura Maranhense, o 10 de agosto, precisamos lutar muito ainda. Temos no Estado um cenário de escolas sem bibliotecas, sem livros e praticamente sem leitura de obras maranhenses. Professores e alunos precisam descobrir quão rica é a arte de Maria Firmina dos Reis e Gonçalves Dias. Não se muda essa realidade em dois, três, quatro anos. Precisamos de mais tempo, com muito trabalho, com o apoio decisivo da sociedade (academias de letras, etc.) e do poder público (governo, prefeituras, etc.), para transformar nossa escola, com professores leitores e pesquisadores. Porque ninguém ama o que não conhece. Primeiramente os professores e alunos precisam conhecer e vivenciar a rica literatura, patrimônio dos maranhenses, para fazê-la rainha, como disse o poeta Casimiro de Abreu sobre sua terra:

“Todos cantam sua terra

Também vou cantar a minha

Nas débeis cordas da lira

Hei de fazê-la rainha.”

Que a Literatura Maranhense seja amada e transformada em rainha nos quatro cantos desta rica e amada terra.

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