terça-feira, 17 de maio de 2022

De contos, causos e oralidades – Um mundo “bárbaro”

Publicado em 14 de maio de 2022, às 10:58
Helena Frenzel – romanista, especialista em Literatura e professora de Espanhol e Português Brasileiro como línguas estrangeiras.
Imagem: Freepik

Após uma tarde de notícias intranquilas, nossa passivronista, que assim se chama porque tão pouco de ativa tem, como verão – sucumbiu ao intenso cansaço que sentia e caiu no abismo do sono, ou do tempo, onde se viu na seguinte situação: se achou num corredor sujo e malcheiroso, de um prédio velho piririco, onde cuecas com manchas marrons e calcinhas com fundilho amarelo pendiam dos varais, estendidos para todos os lados que a vista pudesse alcançar.

O sol se via lá fora, fazendo crer que ainda era dia. Ela notou que estava encolhida contra uma parede, num canto que exalava um terrível cheiro e a parede da frente estava cheia, até o teto, de manchas – ou seriam gravuras? – feitas de uma paleta que cobria todas as combinações de cores de dejetos humanos.

E ela se perguntou imediatamente o que ali fazia, e maior ainda foi o seu espanto quando tentou levantar-se, e nem um dos músculos de seu corpo obedeceu. Era como se ela estivesse fisicamente paralisada, não sentia braços, não sentia pernas, não sentia pés, a única coisa que conseguia mover eram os olhos, nem a boca ela controlava, por isso não sabia se estava aberta expressando o asco que a sufocava. E ao se dar conta disso ela tentou controlar o pânico para entender o que estava se passando. E depois de algum tempo vivendo em estado de guerra, dominar o pânico é algo que uma pessoa tem que aprender, quer queira ou não.

Ela não podia se mexer, mas seus ouvidos captavam gritos em forma de palavras. Eles diziam: “Fi duma égua, tu ainda num deu um jeito na pissirica desse motor? O ladrão, fi de rato, quer o bicho pra ontem, ou vai dobrar o preço da pensão. A égua da tua mãe não tem mais nem o que vender, de tão acabada que tá de lavar roupa! Tu é um vagabundo! Fica o dia todín aí enchendo o rabo com esses livro, não faz nada que preste, só sabe que “tô estudando, tô estudando…”. E pra quê estudo? A rapariga da tua mãe, não tendo o que fazer, veio com essa história de te mandar pra faculdade… Tinha era que tá como eu, na lida! Pois que isso, sim, é coisa de hômi! Tu é qualira, é? Tô desconfiado que sim, e se tu for um fresco desavergonhado, te prepara, que pra mim é melhor um filho morto que um filho viado!”

E um outro grito veio: “Ih, qualé, véi sacana? E se for, num é da tua conta! Tu que é um cachaceiro vagabundo! Até brocha sei que tu é! E só por isso já tinha razão de ser corno, mas sei que eu não sou filho de puta! Não vem mexer comigo não, que eu te dou é uma voadora!”.

E o véi gritou: “Ora, ma rapaz, cadê o respeito?!”

E o diálogo, ou melhor, a gritaria entre as vozes foi assim se enrolando. Em algum momento, escutou ela uma terceira voz, que também diziam impropérios: “Seus ban di fi duma égua! Eu também tenho direito à tal da liberdade de expressão. Agora eu vou falar! Quem aqui tem moral pra falar em respeito, heim? Respeito é um velho que já morreu há muito tempo! Desde que criaram a tal da lei de “livre expressão irrestrita”, nem sei como é que se fala o diabo dessa palavra! Tem que perguntar pro pastor ladrão, que gosta de barras de ouro puro e só conhece a palavra “dízimo”. E ainda se diz “santo”, o fi do diabo! Todo mundo agora pode dizer o que quiser e eu quero é ver quem vai ter coragem de vir aqui me enfrentar, aqui tá a minha peixeira, ó!”

Nossa personagem, não conseguindo crer no que estava ali vivendo, se pôs a pensar no que acontece quando um amontado de gente se junta para destruir todas as bases que sustentam o que até então se chamava “civilização”, principalmente o tal do respeito, que quando o matam, não tem ninguém nem nada no mundo que se salve! Êpa, mas não tem ninguém mesmo?

Nesse momento entrou na gritaria uma voz mais grossa, mais alta, e cheia de autoridade: “Como é que o motor não tá pronto? Ban di parasita imprestávi! Por isso é que eu tenho nojo de pobre! Eu que sou coroné, dono de tudo, exijo respeito! O primeiro que ousar aqui abrir a boca pra dar um pio, que se prepare pra morrer no xilindró, onde só tem gente que já engoliu a língua! Meus soldado tão tudo aí na porta. O que eu tenho é poder, vice, poder! Liberdade de expressão pruceis uma ova! Só se eu não fosse coroné e num tivesse essa arma…”

A testemunha tentou fechar os olhos, mas as pálpebras não obedeceram. Desejou ser surda, pra não ter que continuar ouvindo toda aquela violência em forma de gritos disfarçados de “liberdade de expressão irrestrita”. Ela não tinha como evitar ver toda aquela decadência. Assim sendo, buscou um ponto na parede da frente, cheia de desenhos de bosta, e tratou de olhar tão fixo para eles, até um ponto que tivesse a sensação de ter sido transportada para um outro lugar, longe daquele inferno, onde ainda existisse o mínimo que fosse de “civilidade”.

Ela não ousava imaginar como tudo aquilo iria acabar, pois se sentia amarrada, só podia ficar ali quietinha, observando o rumo fétido que as coisas estavam tomando. Pior mesmo seria se dar conta que um mundo com civilidade, respeito, educação, gentileza e tolerância, não passasse de um sonho. Ela fixou os olhos nos desenhos de bosta, já que aquilo, sim, era a realidade, e tentou respirar fundo, sem aspirar o fedor, pelo menos os pulmões ainda funcionavam. Pelo visto, o pesadelo só começara, e embora não tivesse se transformado em barata, se transformara numa massa sem voz, num cortiço daquele mundo “bárbaro”.

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