terça-feira, 17 de maio de 2022

ENTREVISTA: JOSEANE MARIA DE SOUZA E SOUZA – JOSUÉ MONTELLO: VIDA, OBRA E AMPLITUDE

Publicado em 12 de maio de 2022, às 8:20
O escritor Josué Montello, falecido em 2006, deixou uma obra vultosa, diversificada e que é considerada um patrimônio da cultura maranhense. Seu acervo e sua memória são preservados pelas ações da Casa de Cultura Josué Montello (CCJM). A sua diretora, Joseane Maria de Souza e Souza, bibliotecária atuando há 15 anos da gestão da CCJM, explica nesta entrevista a importância e o papel do escritor para a literatura maranhense e brasileira e detalha as ações da Casa para a preservação da obra montelliana. Leia.
Fonte: Da Redação
Joseane Souza e Souza está à frente da CCJM há 15 anos.

Região Tocantina – Qual a importância de Josué Montello para a literatura maranhense e brasileira?

Joseane Maria de Souza e Souza – Josué Montello (1917-2006) foi um ícone para a literatura maranhense, através de sua vasta produção literária, levou o nome do Maranhão para o Brasil e para o mundo com sua obra romanesca, especialmente em 15 romances, considerado como a Saga Maranhense, que possui características regionalistas servindo de veículo de divulgação e de preservação da memória cultural maranhense. Montello, a partir de sua experiência como leitor, produziu uma extensa obra literária que se eleva a 160 títulos, distribuídos em vários gêneros, e algumas traduzidas para vários idiomas, além de ter ocupado vários cargos públicos, fundou universidades, criou museus, realizou ações em prol da cultura e da educação brasileira, foi eleito aos 37 anos para ocupar a cadeira de número 29 da ABL, chegando a ocupar a presidência nos anos de 94 e 95. Teve toda sua vida voltada para a literatura, está entre os grandes escritores Brasileiros.

Região Tocantina – É possível destacar alguns aspectos que tornam singular a prosa montelliana na literatura?

Joseane Maria  – O amor por São Luís, que fez com que grande parte de sua produção tomasse a cidade como cenário e inspiração para seus romances. O processo de buscar a identidade maranhense, através das lembranças e da memória coletiva, é responsável por delinear sua narrativa, num exercício constante de resgate de lugares, pessoas, costumes e acontecimentos que, misturados à imaginação criadora, vão construindo a realidade romanesca.

Região Tocantina – Como está sendo o projeto de reedição de algumas obras de Josué Montello?

Joseane Maria – O processo tem acontecido a partir de parcerias que possibilitem o retorno ao mercado editorial, a vasta obra do escritor, que desde seu falecimento, em 2006, estavam esgotadas. Reeditar as obras de Montello tem sido uma das ações da CCJM (Casa de Cultura Josué Montello) e uma necessidade para o desenvolvimento dos trabalhos realizados em torno da divulgação da obra junto às novas gerações, bem como atender à demanda de leitores e fãs do escritor. A escolha das obras passa por alguns critérios, como os romances mais conhecidos e procurados pelo público e data da publicação. A intenção é reeditar todos os romances. Ao longo de 13 anos, já reeditamos os romances Janelas fechadas, Cais da Sagração, Os Tambores de São Luís, Noite sobre Alcântara; editamos as Crônicas Areia do Tempo; Escritores maranhenses (1955-1965) v.1 e v.2 (1966 a 1993) e reeditamos o primeiro livro infantil, O tesouro de D. José.

Maior obra de Josué Montello.

Região Tocantina – Como funciona a Casa de Cultura Josué Montello nas ações de preservação da literatura deste escritor?

Joseane Maria – A CCJM possui, em seu acervo bibliográfico, quase tudo que foi produzido pelo escritor ao longo de sua vida literária, que são os livros que estão inseridos na seção Montelliana. É a única instituição que possui o arquivo pessoal do escritor, constituído por documentos pessoais, fotos, manuscritos, recortes de jornais e correspondências acerca de sua vida e obra, que serve de fonte de pesquisa para quem está produzindo sobre a vida e obra do escritor; e um Museu Literário constituído de objetos pessoais, peças de vestuário, numismática, livros, troféus, estátuas, iconografia, material audiovisual, utensílios de decoração e mobília do antigo apartamento que servia de acomodação ao escritor e esposa quando vinham a São Luís. É um órgão público ligado à Secretaria de Estado da Cultura.

Região Tocantina – Para um leitor que quer começar a ler Josué, que dicas você daria?

Joseane Maria  – A obra do escritor é muito extensa e percorre vários gêneros literários, dentre eles o romance, no qual o escritor se destacou com uma produção de 26 livros que abordam várias temáticas. Minha dica seria começar pelo primeiro romance “Janelas fechadas” e seguir a ordem cronológica. Para conhecer melhor o escritor, a dica é ler os diários. Outra dica, se gostar de narrativas curtas, é ler os contos e novelas para depois enveredar pelos romances.

Região Tocantina – Como fazer para a obra de Josué Montello ganhar mais amplitude?

Joseane Maria – Através da produção de trabalhos como artigos, ensaios, dissertações de mestrado e teses de doutorados acerca da fortuna crítica de Josué Montello; a introdução da literatura maranhense nas escolas do ensino médio e novas edições de sua obra, para que novos leitores possam entrar em contato com as narrativas e estudos desse grande escritor.

Região Tocantina – Josué Montello era um autor só para adultos?

Joseane Maria – Não, ele se destacou na literatura como um grande romancista, mas produziu também para o público infanto-juvenil. Escreveu dez livros desse gênero, que foram: O tesouro de Dom José (1944), As aventuras do Calunga (1945), O bicho do circo (1945), A viagem fantástica (1946), Conversa do Tio Juca (1947 a 1948), A cabeça de ouro (1949), As três carruagens e outras histórias (1979), Fofão, Antena e o Vira-Lata inteligente (1980), O carrasco que era santo (1994), A formiguinha que aprendeu a dançar (1997).

Região Tocantina – Podemos dizer que as obras de Montello são clássicos da literatura? Por quê?

Joseane Maria – Sim, a obra, para se tornar um clássico, ao longo do tempo, acaba por se tornar um referencial para a literatura, tanto em termos locais ou universais. Assim, foi com a pena de Montello, que possui uma escrita original, equilibrada e de acabamento, capaz de expressar o real em obra de arte, que permite transcender no seu próprio tempo histórico, onde cada nova leitura continua a provocar discussões e reflexões sobre o mundo e o indivíduo.  Entre seus 26 romances publicados, podemos citar o romance “Os Tambores de São Luís”, que é considerado a obra-prima do escritor, sendo “o romance da escravidão na segunda metade do século XIX e, sendo romance histórico, é também romance de costumes da sociedade escravocrata, no Maranhão e no Brasil” como falou o crítico literário Wilson Martins. O romance “Os Tambores de São Luís” foi considerado pela Unesco como um dos patrimônios culturais da humanidade. Montello é um dos mais importantes prosadores brasileiros do século XX, sendo considerado um mestre do romance de língua portuguesa.

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