terça-feira, 28 de junho de 2022

Mural das Minas #02: ANNA LIZ: literatura com argúcia e sensibilidade

Publicado em 20 de fevereiro de 2022, às 11:50
Anna Liz é de Santa Luzia, Maranhão. Poeta, cronista e professora. Tem participação em quase 100 antologias lançadas no Brasil e em diversos outros países, além de já ter publicado oito livros solo. Organizou duas antologias com obras de 25 escritoras maranhenses. Ao longo de sua trajetória, recebeu vários prêmios de Literatura de entidades relevantes no campo literário no Brasil e em outros países. Faz parte de algumas Academias e Núcleos Acadêmicos de Letras e Artes no Brasil, Chile, Argentina e Portugal, é membro correspondente da Academia Ludovicense de Letras. Atualmente, é presidente/coordenadora da Associação de Jornalistas e Escritoras Brasileiras, coordenadoria Maranhão/AJEB-MA. Em 2021, ficou em 3º lugar no Prêmio Alejandro Cabassa, 3º, categoria crônica, da União Brasileira de Escritores- RJ.
Imagem cedida pela autora

QUANDO A ESCRITA CHAMA

Ela desperta, abre a porta e as janelas, ouve os bem-te-vis e rouxinóis, percebe as folhas das árvores movendo-se, aspira as flores, respira a manhã, enquanto toma um café.
Pensa na caneta e no papel, sente necessidade de escrever, mas os afazeres do lar a prendem. E ela, quase que mecanicamente, reproduz os velhos e degastados hábitos. Mas a caneta e papel a chamam – o tempo é urgente.
Como que por espanto, ela se senta e se dá conta de que precisa renovar os propósitos da alma. É tomada, então, por uma felicidade pueril e começa a brincadeira com seus fiéis companheiros, desliza-se pelos caminhos da escrita. Ela pega a caneta e deita sobre o papel em branco os recados de sua alma inquieta e compõe seus versos com calma, musicando a essência de suas angústias e individualidade poética.

OLHAR E VER

Hoje pela manhã, fiz uma caminhada solitária no campo – árvores, flores, igarapés, canto de pássaros –, nenhuma dessas belezas ficou registrada no córtex; a retina não captou. Todo meu pensamento era sobre você: o sorriso tímido e claro, os olhos de mistério, as mãos sedentas do encontro, um corpo quente que me absorvia como ímã, o descontrole de minha respiração quando seu olhar encontrava o meu. Essas cenas tomam minha imaginação poderosamente. E eis que penso que o meu fado para sempre é ser o cenário das lembranças sobre você.

CRÔNICA DA ALFORRIA

Ella se deitou na grama e contemplou as estrelas. Desejou ser uma estrela, ter outras a sua volta, queria sentir-se livre também, longe de tentáculos. Queria estar junto a outras, mas dispensava a opressão, a vigilância, a cobrança; queria apenas companhia. Pensou que poderia correr descalça pela praia, sentir a brisa em seus cabelos e na pele, sentir o sol ofuscando-lhe a vista, lambuzar-se de sorvete e sorrir com a alma.
Fechou os olhos e respirou liberdade.
Sabia que tinha brilho; um brilho tímido, mas o tinha.
Um dia seria uma estrela

LIBERTA

Até ontem, Ella era apenas a mulher que cuidava da casa e da família, muito resignada. Mas, hoje, ela fugiu sem trégua, sedenta, faminta. Surgiu como quem sai do fosso, deixando para trás toda a sua apatia. Olhava a sua volta com olhar abundante e ambicionava novas experiências. Apertava com força entre as suas pernas todo o desejo reprimido e do rosto saltavam-lhe luzes em forma de lágrimas aliviadas.
Nas ruas, as pessoas a olhavam com admiração e abriam-lhe passagem com reverência e ela renascia, como uma deusa.

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