quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Você não vai para o céu

Publicado em 6 de fevereiro de 2022, às 5:55
Cristiane de Magalhães – poeta, professora de Língua Portuguesa.
Imagem: Freepik

Não há nada mais assustador para o imaginário de uma criança de oito anos do que dizer que ela não vai para o céu. A essa altura eu já estava no catecismo na turma da “Perserverança”, pois já havia feito a Primeira Comunhão, já sabia ler há 2 anos e havia pulado de série na escola, após passar num teste de leitura. Próxima etapa no catecismo seria o Crisma, para o qual eu me preparava ansiosa. Mas só poderia acontecer aos quinze. Na doutrina Católica, é uma espécie de confirmação do Batismo.

Foi nesse contexto que a irmã Adelaide (nome fictício) me disse que eu não iria para o céu. Ela era nossa vizinha na Baixada, Ribeirãozinho – MA. Evangélica assembleiana, nora de uma grande amiga da minha mãe. Cabelo e saia conservadoramente longos. Se não me falha a memória, ela tinha um ralo bigode e sobrancelhas grossas e espalhadas. Quase uma Frida Kahlo.

Segundo ela, meu pecado era adorar imagens. “Está condenado quem coloca cruz no pescoço, reza pra santo e beija estátua”, pregava ela. Eu fiquei horrorizada. Do nada, Deus não gostava mais de mim, uma menina de oito anos. Logo eu, que fazia de tudo para ser uma menina do bem e filha obediente. Como sempre, corri para a maior devota de Nossa Senhora das Graças que eu conheço. “Quem não vai para o céu é ela, minha filha”, me absolveu da ameaça inquisitória minha piedosa mãe.

Ainda lembro da minha Bíblia para crianças. Vermelha com um Jesus e as ovelhinhas na capa. O Jesus Bom Pastor, manso e humilde de coração, sempre agradou aquela criança fofa que eu era.  Naquela Bíblia, tinha algumas passagens emblemáticas do Antigo Testamento também, mas eu sempre preferi o Deus do Novo Testamento.  Quando fui estudar para o Crisma, sacramento da maturidade, como dizia a missionária franciscana que me catequizara, o senso crítico já estava se aguçando. A adolescente revoltada se identificou na hora com o Jesus “revolts” descendo o chicote nos vendilhões do templo e alfinetando os hipócritas.  Foi amor à primeira vista.

Se aos oito anos, que eu era boa menina e inocente, eu já não ia para o céu, imagina hoje, que eu mal consigo levar uma fechada no trânsito sem xingar o próximo!  Que tenho turmas superlotadas de anjinhos adolescentes, para lecionar! Tenho amigos espíritas e eles me dizem que conquistar um coração manso e humilde requer paciência. Mansidão, humildade e paciência? Os três assim juntinhos, talvez só na próxima encarnação mesmo. De qualquer forma, um certo alívio na minha autocobrança.

Fico me perguntando onde andará irmã Adelaide. Nunca mais a vi. Será que já está no céu? E se ainda está aqui na Terra, comendo arroz com feijão igual a mim, que tipo de evangélica terá se tornado? Dessas modernas que usam calça jeans, cabelo curto, maquiagem e que se vangloriam por “se cuidarem” e serem femininas? Se hoje a intenção é se diferenciar das feministas que, supostamente, não se depilam, então, acredito que irmã Adelaide, a essa altura anda postando suas axilas superlisas no Instagram.  Será que ela já entendeu que mudando o contexto histórico-social, a cultura, as intenções políticas e as necessidades humanas, os discursos e comportamentos também mudam? E que se em trinta anos os “pecados” mudaram tanto, imagina em três mil anos? Qual é mesmo a idade do livro do Êxodo, o qual condena o uso de imagens?

De qualquer forma, fico feliz em ver o ecumenismo das igrejas cristãs de hoje. Na véspera das eleições, em 2018, ouvi uma vizinha evangélica dizer que o importante é ser cristão, não importa se católico, espírita ou evangélico. Se não me engano incluiu até religiões de matriz africana, que ainda hoje sofrem com a intolerância religiosa. Parece que as coisas mudaram. Considero um avanço, tendo em vista que eu, católica, não ia para o céu trinta anos atrás, segundo irmã Adelaide.

Aos dezesseis anos, fui a uma Missa Afro no encerramento de um congresso da Pastoral da Juventude aqui em Imperatriz-MA.  Os hinos tinham nomes de Orixás. No ministério de música tinha tambores, afoxés e roupas coloridas. Me apaixonei. Meu santo bateu com aquela mistura. Nem sei se é assim que se diz nas religiões de matriz africana, mas o fato é que achei lindo demais. Aos vinte e poucos anos fui a um culto de uma denominação evangélica e a cerimônia era muito parecida com a católica. Tinha até hino exaltando o domingo como dia do Senhor (Dominus Dei) e tal. Me senti em casa.

Pelo visto, existem pontos de união e beleza em todas as religiões. E claro, nas não-cristãs também. Há tantas formas de se chegar a Deus, não é mesmo?! Onde estiver a irmã Adelaide, rezo para que esteja em paz e que os anjos, santos, irmãos desencarnados e orixás derramem sobre ela todas as bênçãos de Deus. Amém! Assim seja! Oxalá!

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