terça-feira, 17 de maio de 2022

APRENDIZAGEM INVENTIVA: O SABER COMO CRIAÇÃO

Publicado em 20 de janeiro de 2022, às 16:24
Nertan Dias Silva Maia – Professor Adjunto da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Doutor em Filosofia pelo PPGFIL/UERJ; Mestre em Educação pelo PPGE/UECE; Graduado em Música e em Pedagogia (UECE); Jornalista com registro profissional n. 0001832/MA. E-mail: nertandias@gmail.com.
Título: Aprendizagem inventiva. Nanquim e aquarela s/ papel casca de ovo, 21x29,7cm. @nertansilvamaia, 2022

Parte I

Em sua obra Diferença e Repetição (1968), o filósofo francês Gilles Deleuze deixa ver que a aprendizagem não é um processo sólido, constituído de estágios previsíveis e conduzidos por um método científico que encaminhe o conhecimento do não-saber ao saber. Ao contrário, a aprendizagem é entendida como uma invenção de problemas, não se balizando na recognição, ou seja, na retenção de memória sintetizada com sensações convergindo em mero reconhecimento territorial. Para Deleuze, a aprendizagem vai além disso, pois surge concomitantemente com o sujeito e o objeto no instante em que se confrontam na problematização. Assim, a aprendizagem passa a ser um efeito da experiência entre o desconhecido e o apreendido, ao invés de estagnar-se numa simples solução de um dado problema apartado do sujeito.

Para se construir a aprendizagem é necessário, antes de tudo, o afastamento territorial de todo o contexto conceitual recognitivo para dar vazão à sensibilidade e, assim, evitar a associação com os dados da memória. Daí, o aprendizado pela problematização se dá a partir da reconstrução do mundo e de si mesmo por meio da captação de novas semióticas, do estranhamento diante do objeto e não com base numa mera operação mental de reminiscência. Interagindo com os signos emitidos dessa relação problematizadora entre sujeito e objeto, saímos do convencional (território) e o destruímos (desterritorialização), para finalmente inventarmos o aprendizado (reterritorialização) numa constante (re)criação do saber. O resultado desse processo de aprendizagem inventiva é de caráter imprevisível, portanto, incompatível com as leis cientificistas e psicologistas que buscam dissociar o aprender e o inventar no campo da subjetividade.

É importante ressaltar que, para Deleuze, o signo é tudo aquilo que exerce uma ação direta sobre a subjetividade, independente da interferência da representação. Ainda segundo nosso autor, apesar de os signos serem emitidos por formas, objetos e pessoas, não constituem necessariamente tais entes. Na verdade, eles consistem em uma espécie de qualidade que remete a uma diferença específica inerente à matéria que o emite, a qual não se restringe somente à matéria linguística, mas estende-se a toda e qualquer matéria.

É do confronto do sujeito com a matéria e os signos dela emitidos que é possível pensar na possibilidade de uma aprendizagem inventiva, a qual não está presente nas teorias clássicas da Psicologia, que invariavelmente dissociam aprendizagem da invenção, como é o caso das abordagens behaviorista e gestaltista, por exemplo.

Se, de um modo geral, para estas abordagens nossas ações cotidianas formam nossos hábitos, sendo estes um comportamento que promove “aprendizados”, para Deleuze, o hábito é uma contração gerada da repetição de casos, de instantes consecutivos e autônomos que só levam à aprendizagem mediante uma ação inventiva, criativa. Nesse sentido, pelo fato de serem constantes e concretos, os hábitos são armazenados de acordo com sua sequência material, segundo uma ordem de acontecimentos. São, portanto, responsáveis pela preservação temporal do presente, que é, ao mesmo tempo, a consequência do passado imediato e a construção para o futuro. Quando ocorrem mudanças na sucessão desses casos ou instantes surgem espaços para a experiência subjetiva, instante em que o hábito dá lugar à invenção. O hábito, segundo Deleuze, move a ação, cria a atitude, que, por sua vez, engendra a problematização na constituição da aprendizagem. O que permite e dá origem a esse processo é a sensibilidade e não a mobilidade do hábito.

Nesse sentido, o sujeito é formado pelo hábito de acordo com a condição em que ele (o hábito) se faça surgir, pois sua contração independe da vontade do sujeito. Os hábitos ganham autonomia na medida em que nos impõem as ações e nossa relação temporal com elas para que possam acontecer. Somos orientados pelas indicativas dos hábitos quando destruímos nossos territórios, que são nada menos que nossas representações de ordem e perfeição do mundo. Tais representações são desestabilizadas tão logo a experiência problematizadora obrigue nossas faculdades sensíveis, reminiscentes e imaginativas a agirem autônoma e divergentemente entre si, viabilizando, assim, a invenção de novos aprendizados. Desse modo, a aprendizagem inventiva se utiliza do hábito como condicionante para a experiência problematizadora no processo de aprender a aprender.

Entretanto, esse caráter condicionante do hábito é, por si só, condicionado por aquilo que produz em termos de criação no âmbito da repetição de casos que levam a novas ações e aprendizados. Este dito caráter é ao mesmo tempo condicionante e condicionado, pois se trata de um processo de retroação de condições concretas e não subjetivas, que levam o sujeito a desterritorializar hábitos ou conhecimentos para, mediante a aprendizagem inventiva, reterritorializá-los sob novas perspectivas. Nesse sentido, ocorre a contração dos hábitos, o que leva também à contração da subjetividade e de todas as ações realizadas com vistas a atingir futuros aprendizados e experiências. Trata-se, portanto, de um aprender a aprender dado por um processo cíclico, criativo e indeterminado entre sujeito e objeto, problema e solução.

Referências:

DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. (Tradução de L. Orlandi e R. Machado). Rio de Janeiro: Graal, 1988 [1968].

KASTRUP, Virgínia. “Aprendizagem, arte e invenção”. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 6, n. 1, p. 17-27, jan./jun. 2001.

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