terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Raoní: a onça, o cacique e o caboquinho

Publicado em 6 de dezembro de 2021, às 14:14
Fabio Cardias – Psicólogo, Doutor em Educação e professor do Curso de Enfermagem do CCSST (Ufma Imperatriz).
Imagem cedida pelo autor.

Meu amor por crianças é o melhor de mim, minha melhor expressão da prática do Dharma, um outro nome pra Deus, Deusa ou Deuses, tanto faz o nome do Mistério. Ao ver um bebezinho na rua me derreto todo, parece uma visão do paraíso cristão, do nirvana budista ou do orum do candomblé. O cheirinho de bebê com talco, pura graça funcional biopsicossocial, típica da espécie mamífera caracterizada pela necessidade vital de cuidado, de afeto, de amor. O olhar ingênuo de um neném para o mundo novo que se cria diante dele, parte da primeira infância primordial.

Desde minha adolescência a pulsão para ser pai foi se intensificando até culminar em obsessão na metanóia, ou seja, da metade da vida, aos 40 anos. Uma pessoa, uma mulher, uma jovem bonita apareceu no caminho. Harmoniosa, bela e formosa, ela seria a mãe. Engravidou de um menino, prenha de medo. O ano era 2013. Esse menino se chamará Raoní. Fui eu quem escolhi o nome. Sem titubear, a escolha homenagearia o meu herói nacional, o qual conheci na década de 80.

Nasço como pai a partir da intenção, do desejo, da vontade, do arrebatamento que me tomou. Talvez o fato de ter sido abandonado pelo pai, ainda na infância, tenha me traumatizado com um vazio do significado ser pai. O que é ser pai? É o mesmo que ser mãe? Não, não deve ser o mesmo, nunca saberei tal intersecção. Mas ser pai eu poderei saber o que é. O que é o amor de pai? Nunca o tive. Saberei dar a outrem? O medo…ai, ai, ai, que vontade de parir dentro de mim um pai-eu. Que felicidade…o menino grande, o recém-nascido GG, nasceu Raoní em 25 de maio de 2013, mesmo mês e dois anos depois do falecimento da vó Lindoca, a Clarinda do texto passado. Estava eu completo, pleno e iluminado como um Buda ditoso…

Raoní passa a ter, então, três significados: a força do sexo da onça, a onça mesma e um particular dado por mim que é Amor filial. Meu filho Raoní, nome esse fruto da corruptela do nome original em língua ancestral e milenar Jê: Rop´ni, a onça. Homenagem ao grande líder conhecido como Cacique Raoni dos Mebêngôkre (Kayapó), da aldeia Kraimopry-yaka, no nordeste do Estado de Mato Grosso, Amazônia.

Quanto ao primeiro significado: a força do sexo da onça, não há referência segura. Tanto entre os povos Gaviões e os Krikatí aqui da nossa região tocantina não existe tal interpretação. De qualquer forma, soa forte tal significado porque a força do sexo entre esses predadores despende muita energia física entre o macho e a fêmea dessa espécie, ou seja, aponta para a noção de força, força da cópula. A onça é conhecida como jaguar nos Andes ou jaguaretê em guarani, herda uma linhagem filogenética de um ancestral comum ao leão e o tigre. Raoní é o meu rei leãozinho, meu filho forte, meu menino-homem como se diz por aqui.

Em relação ao segundo significado, parentes Timbiras confirmaram: a onça mesma. Se entre os Kayapós onça é Rop´ni, entre os Krikatí é Rop´te, variações da riquíssima língua Jê. Tal como a onça, o cacique luta para manter seu território, seu povo e sua re-existência, num mundo desumano dominado pela ganância, pela violência e pela ignorância da sociedade dita moderna. Já Raoní, o meu filho oncinha, é também o cacique do meu coração, herdeiro do amor da cacica vó.

Raoní é, ainda, um caboquinho imperatrizence, filho de um caboclo belenense com uma negra santa-luziense. Quando olho nos olhos de Raoní vejo a força da onça, vislumbro também a potência de um cacique do bem e vivo a docilidade eternizada nos instantes de entreolhares fera nossos preenchidos de Amor devorante. Um caboquinho massa, gentil e apaixonante. Pai e filho, filho e pai em diástole e sístole da polaridade do amor parental-filial pulsante. Raoní, minha oncinha braba e cacique meu!

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