terça-feira, 30 de novembro de 2021

Clarinda: uma visão clara e linda

Publicado em 17 de novembro de 2021, às 7:08
Fabio Cardias – Psicólogo, Doutor em Educação e professor do Curso de Enfermagem do CCSST (Ufma Imperatriz).
Clarinda, *Perimirim/MA-São Carlos/SP+ (1926-2011)

Sim! A partir de agora colaboro com o querido e grande professor Marcos Fabio Belo Matos neste site sobre ou de pessoas que estão na região Tocantina, com textos curtos e originais, de temas livres. E, aproveitando essa liberdade de oralitura, literatura e escritura, o meu primeiro tema de estréia é especial. Não poderia deixar de sê-lo, pois o título é o primeiro nome da minha amada avó materna, a saudosa Clarinda Castro Cardias. Portanto, uma homenagem e uma lembrança saudosa, dolorosa, prazerosa.

Partindo de uma lembrança pessoal forte, potente e amorosa, talvez desemboque numa bacia semântica universal, que é a busca pela iluminação e a beleza no olhar, num mundo muitas vezes hostil, duro e injusto.

Ela nunca me explicou quando lhe perguntei sobre seu nome: Vó, o seu nome quem deu e por quê? Mas menino, eu nem lembro direito, acho que foi minha mãe, que era carinhosa. Pequeno que era fiquei a pensar em desmembrá-lo, daí cheguei a clara e linda. Então, passei a associá-lo a ela mesma, que a vozinha tinha a pele muito clara, era muito branca, e que eu a achava linda. Depois recordei que em outro momento ela havia contado histórias de família, como por exemplo as que se passaram na sua juventude primeira no interior do Maranhão, em uma cidade que se chamava Macapazinho, município de Pinheiro, na baixada maranhense, atual município de Peri-mirim. Dentre algumas histórias, ela lembrava que entre suas irmãs negras, mestiças, ela era a única branca.

Seu pai era caboclo e trabalhava para a família Castro, rica na época, e sua mãe era branca tão quanto ela era, de origem portuguesa. Ambos analfabetos, pobres e humildes. Produtor de toadas de boi, seu pai, o seu Manoel, ou o seu Papai Maneco, ganhava a vida como boiadeiro na fazenda dos Castros, e na condição de mulher, a mãe Dulce cuidava da casa. Herança do analfabetismo feminino, recebeu Clarinda a maldição de não aprender a ler para não namorar. Cresceu sabendo fazer somente, e malmente, o próprio nome, com dificuldade e feia caligrafia.

As penas desse analfabetismo foram pagas depois, na capital São Luís, e mais tarde na capital paraense, Belém, quando se viu viúva do militar seu Benedito, ainda jovem, e com seis crianças para alimentar, abrigar e proteger, sozinha. Eram Dulce, em homenagem à mãe afetuosa, César, Maria de Nazaré, Maria de Fátima e Henrique Tadeu. Havia ainda um filho mais velho, fruto de um relacionamento misterioso e proibido da juventude, albino, o mais velho Manoel, ou Manequinho. Entretano, do papai Maneco ao Manequinho, recém-falecido, existe um tempo onde se teceu muito amor, superação das dificuldades materiais e uma herança de afeto profundo que atingiu os netos, no caso o mais velho como eu.

Como viúva e sem outro parceiro de vida, decidiu criar e formar os filhos nas marés de dificuldades da existência humana. Dizia que tirava essa força da sua fé em Deus, cristã que era, porém decepcionada com as hipocrisias da igreja católica. Um olho no padre e outro na missa, repetia sempre.

Esse amor e sabedoria que a fez atravessar as tempestades dos seres sencientes eu tive a honra e o prazer de receber ao longo da minha infância e juventude. Preocupada que era comigo, o primeiro neto, quando vim assumir o meu posto público federal no Maranhão, como servidor-professor, ela sabia que suas preces haviam sido atendidas. Assim, enquanto eu assumia um trabalho digno, ela se despedia dessa vida no mesmo instante. Penso eu que ela partiu com o senso de dever cumprido, de felicidade, de ciclo iniciado e terminado, dando lugar ao outro.

Bem, eu sempre duvidei da fé dela. A universidade fez isso comigo, duvidar da fé dos outros, pois a fé não é algo científico. Ainda mais, desde a adolescência decepcionado com os cânones católica, desemboquei no budismo, no qual atualmente me aprofundo na busca de iluminação e beleza, de samadhi à satori. Porém, sinto aqui e agora um sentimento de saudade profunda, de amor e gratidão a quem me deu os fundamentos de uma busca sincera, honesta e verdaderia. Essa base é a lembrança de ter sido amado de verdade, sem preço, incondicionalmente, pela avó Clarinda, de quem herdei o tesouro de uma visão de vida que deságua num poço-coração, um poço azul-vermelho, claro e lindo! Boto fé…

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