domingo, 17 de outubro de 2021

De contos, causos e oralidades – O universo e seus plops

Publicado em 20 de abril de 2021, às 17:00
Helena Frenzel – romanista, especialista em Literatura e professora de Espanhol e Português Brasileiro como línguas estrangeiras.
Imagem: Uol Brasil Escola

Coisas que a princípio se mostram super complexas, em realidade podem ser bastante simples. A dificuldade, ao que tudo indica, está na arte da explicação. Não sei você, mas muitas vezes já me senti “asna” quando tentavam me explicar algo complexo e eu, por mais que me esforçasse, não conseguia de jeito e maneira visualizar o cenário.

Mas quando temos a sorte de encontrar pessoas que realmente entendem de um assunto, e de quebra ainda têm o dom de saber transmitir as coisas de maneira clara, logo percebemos que a sensação de incapacidade não passa mesmo só de uma sensação – falsa.

Vejamos o caso de pessoas que dedicam a vida tentando encontrar formas de ouvir o universo. Sim, o verbo é este mesmo: ouvir, pois o universo também produz sons que, segundo Einstein e demais especialistas, chegariam até nós em forma de ondas gravitacionais após muitos anos-luz de viagem.

Bem, antes de seguir, um aviso: se você é especialista em Física, favor corrigir eventuais erros e considerar que o objetivo aqui é contar o causo dos sons do universo para um público muito vasto, tomando distância o mais possível do rigor exigido em ambientes formais. A ideia é pensar, de modo bastante relaxado, sobre os plops que o universo dá.

Pois foi o famoso físico Albert Einstein quem, em seus escritos, sugeriu a existência do que se conhece como ondas gravitacionais. Imagine que quando se joga uma pedra num lago se pode ver, na água, os círculos ou as ondas que a queda da pedra causa. Pois no “tecido” do universo, segundo especialistas, aconteceria a mesma coisa. Durante muito tempo, porém, não se teve ideia de como medir essas ondas, se é que elas de fato existiam como Einstein previu. Dizem, nos bastidores, que até o fim da vida ele duvidou várias vezes da existência dessas ondas, pra ver como ele era cientista mesmo, porque cientistas são pessoas que têm muito mais dúvidas que certezas e vão testando suas hipóteses até que possam afirmar ou negar algo com certo grau de certeza, como o fato de que a Terra não é plana, por exemplo, ou de que o aquecimento global não é fábula, e sim algo que vem sendo produzido pela espécie humana neste planeta.

Sim, mas quanto às ondas gravitacionais, um belo dia, um jovem pesquisador de um instituto muito famoso lá nos States, tomou para si a tarefa de pensar numa forma de medir essas ondas. Curiosamente, ele teve a ideia de construir um treco com a forma mais ou menos de uma letra L gigante deitada no chão, uma construção que pudesse ser instalada em vários pontos da Terra. Como ele chegou a ter essa ideia do L continua sendo um mistério fascinante para mim, mas o fato é que dentro desse L gigante se criaria um vácuo e um laser poderia então ficar indo e voltando sem interrupção. A passagem de uma onda gravitacional sobre a construção geraria uma alteração no laser, fazendo com que as extremidades do L dessem uma leve esticadinha ou sacudida, mais ou menos como funcionam os aparelhos que detectam terremotos, creio eu.

A intensidade da esticada ou sacudida do L poderia então ser transformada em dados, e daí se poderia extrair mais informações sobre o sinal que causou a alteração. Caso você queira saber mais sobre esse L gigante, pesquise no google sobre o projeto LIGO, que mesmo que nada tenha a ver com ligação, me faz lembrar daquela famosa cena do filme do Spielberg, em que o Etezinho aponta o dedão luminoso para o céu e diz: “Minha casa, telefone…”, coisas da infância que a gente nunca deve esquecer, ainda mais em momentos tão difíceis como esse de pandemia e loucura coletiva, quando a gente só quer dizer: “E.T., me leve com você, pra sua casa… pra ontem!”.

A primeira onda gravitacional da história foi detectada em 2015, e se referia, segundo especialistas, à colisão de dois buracos negros que ocorreu em algum lugar no espaço e num tempo que estaria entre o nosso tempo aqui na Terra e o tempo em que houve a grande explosão, o big bang, que teria dado origem ao próprio universo. Interessante, não? Mais interessante ainda é saber que quando dois buracos negros enormes colidem no espaço a colisão faz um “Plop!”, ou algo parecido a quando se desentope uma pia. Gente, a ciência é uma coisa linda!

A ideia que serviu de base para o funcionamento do L gigante foi tão importante para a ciência que rendeu o Premio Nobel de Física de 2017 aos cientistas que a desenvolveram. E graças a quem implementou essa ideia, cada vez mais se pode ouvir com maior nitidez aquilo que o universo tem a nos dizer.

O sonho dos especialistas que dedicam a vida à escuta do universo é um dia poder ouvir o ruído gerado pela explosão inicial, mas se algum dia conseguiremos isso, aí já é outra história. Eu, de minha parte, fico aqui me perguntando que tipo de ruído terá sido esse: se um plap, se um plop ou se um plump. Vai ver que foi mesmo um “Kabummm!”, bem ao estilo dos quadrinhos Marvel.

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