sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Entrevista: Roseane Arcanjo Pinheiro

Publicado em 7 de dezembro de 2020, às 15:47
Roseane Arcanjo: a imprensa em Imperatriz remonta aos anos 1930.

A MEMÓRIA DO JORNALISMO AJUDA A PENSAR O PRESENTE

Desde que chegou a Imperatriz, a professora doutora Roseane Arcanjo Pinheiro se dedica a preservar e a refletir sobre o papel da imprensa e do jornalismo na região tocantina. Por meio das atividades do grupo de pesquisa que coordena, o Joimp (Grupo de Pesquisa Jornalismo, Mídia e Memória), que em 2021 completa 5 anos, ela vem executando a digitalização de jornais, construindo panoramas histórico-reflexivos sobre a importância dessas publicações e analisando a função do jornalismo em suas interfaces com a história e a memória, tanto na graduação quanto no mestrado em Comunicação Contemporânea, do qual é docente efetiva. Nesta entrevista, ela apresenta um pouco do seu trabalho e suas reflexões. Confira.

Região Tocantina – Qual é a importância do jornalismo como elemento da memória de uma sociedade?

Roseane Pinheiro – O jornalismo é uma forma de conhecimento, uma representação sobre a realidade imediata. O aspecto principal do jornalismo é explicar ou orientar sobre a vida pública, a dimensão coletiva na qual todos estamos vivendo. Os estudos em jornalismo já não entendem esse campo como uma prática afastada dos dilemas e embates sociais, pelo contrário, as notícias trazem recortes sobre os projetos e anseios gerados pelos ordenamentos sociais. Uso o termo campo, do pesquisador Pierre Bourdieu, porque nos remete a vários participantes, interesses, hierarquias e embates no processo de fazer notícia. Portanto, o jornalismo é uma importante referência sobre o debate público: os temas em discussão, os grupos que discutem, os impasses, os silêncios, as contradições etc. E se consideramos a memória como o acesso a um certo passado, o jornalismo é uma das portas de acesso, uma forma de levantar elementos sobre as ocorrências. E deve ser questionado e problematizado, como qualquer forma de conhecimento: Quem fez? Por que fez? Em quais contextos socioculturais o material jornalístico foi produzido? Outro eixo para apreendemos o campo jornalístico é que faz parte da natureza dele a construção de uma experiência no tempo presente, como assinala o pesquisador Carlos Franciscato: há um tempo de produzir, circular e apreender as notícias. Elas, depois de consumidas, viram passado, um passado que interessa. Estudo na UFMA, especialmente no Grupo de Pesquisa Jornalismo, Mídia e Memória (JOIMP), as notícias antigas que são reorganizadas, curtidas e consumidas. É um passado que pulsa. Também reitero outra perspectiva, dessa vez de Pierre Bourdieu, o jornalismo é atravessado pelo campo político, o campo que organiza o nosso modo de vida. O campo jornalístico é disputado porque as representações que divulga podem ajudar a acomodar as pessoas a certa estrutura social ou pode fazer com que as pessoas questionem suas sociedades.

Região Tocantina – Pode-se dizer que a história de uma cidade como Imperatriz está contada nos jornais?

Roseane Pinheiro – Podemos dizer que há pegadas dessa história, em suas vertentes social, cultural, política e econômica nas páginas desses jornais impressos. São referências sobre a vida política, os contextos sociais, as práticas esportivas, os projetos econômicos etc. Digamos que a vantagem do jornalismo é sua linguagem, que começou a flertar com a linguagem coloquial, da vida cotidiana, no século XIX. Os primeiros jornais eram ruins, com um palavreado difícil, não abordavam o tempo presente, não tinham as notícias do dia. Essa mudança, para um jornalismo sobre a atualidade, ocorreu por causa de uma mudança econômica: os jornais se transformaram em fonte de lucro, com todas as contradições que isso trouxe: notícia é um direito ou é um negócio? Falar do dia a dia, com um leque dos acontecimentos que teriam tido mais relevância social, também atendeu a uma nova ordem social, a urbanização das cidades, a mudança dos papéis sociais, do surgimento de outras classes sociais, que precisam conhecer uma vida organizada nas cidades: a regras, as posturas, os direitos etc. Então, os jornais de Imperatriz, que tem impressos desde os anos 30 do século XX, trazem esse cotidiano, seus personagens, os interesses comerciais, as propostas políticas. Enfim, há várias cidades nessas páginas, conforme o jogo de forças e a reorganização de projetos e interesse em disputa, desde os anos 30 até o século XXI.

Região Tocantina – Houve uma grande atividade da imprensa na região tocantina, ou ela ficou restrita a Imperatriz?

Roseane Pinheiro –  Quanto abordamos o tema memória, sabemos que o passado que conseguimos visualizar é um certo passado que podemos contar. Não é todo o passado. Durante as pesquisas, desde o mestrado, principalmente, percebemos que há muitas cidades maranhenses sem registro de jornais. Isso pode ter ocorrido por vários motivos, pela ausência deles ou pela não preservação dos acervos. Em outras encontramos vários títulos circulando. Na região tocantina, há um número crescente de impressos desde os anos 70 do século XX, como nos aponta a pesquisadora Thays Assunção na obra “História da imprensa em Imperatriz-MA: 1930 a 2010”. Isso aconteceu especialmente em Imperatriz, onde o debate público começou a ser muito disputado. Se há muitos títulos de jornais, podemos compreender também que há muito grupos e sujeitos que desejam ser ouvidos para ter mais poder para organizar a cidade. Ou seja, querem dominar o debate público. Podem ser muitos jornais alinhados à mesma proposta e outros com outras perspectivas, dependerá de quais projetos políticos e econômicos foram organizando a cidade.  Podemos afirmar sim que Imperatriz, dadas as escolhas econômicas dos grupos que a dominaram, se tornou uma referência para a região tocantina, e isso também se estendeu ao jornalismo. Há registros de jornais impressos em outros locais, como Açailândia, Balsas e Carolina, cidades importantes, porém a maior parte está registrada em Imperatriz.

Região Tocantina – Qual foi o período áureo da imprensa desta região sul do estado?

Roseane Pinheiro –  Podemos afirmar que a região sul teve seus primeiros jornais ainda no final dos anos 1800, em função da ocupação com o gado e da exploração dos rios. Há registros de impressos em Balsas, Carolina e Loreto. Mas é nos anos 1900, especialmente nas décadas de 80 e 90, que há vários títulos circulando, especialmente em Imperatriz e Açailândia, há novas forças políticas e econômicas na região: projetos ligados à mineração, à exploração dos recursos naturais, à pecuária, surgimento de universidades etc. Esses jornais expressam olhares sobre os acontecimentos, as disputas e as mudanças. Tomam partido, defendem causas. Porque é importante também interpretarmos o campo jornalístico, como uma instituição, uma organização que age, que pode colaborar para as transformações da sociedade. Não podemos achar que o jornalismo decide tudo, mas tem sua importância na mudança social, através dos recortes que produz sobre a atualidade. Parte desses jornais locais podem ser consultada no acervo digital que organizamos através das atividades do JOIMP. Alguns podem ser acessados e lidos  no link:  http://www.joimp.ufma.br/acervodigital

Região Tocantina – Como funciona o trabalho do seu grupo de pesquisa?

Roseane Pinheiro –  O Grupo de Pesquisa Jornalismo Mídia e Memória fará 5 anos em 2021. Foi criado quando concorremos a um edital da FAPEMA sobre acervos públicos. Nosso projeto organizou o início da digitalização de jornais da região que foram doados ao Curso de Jornalismo da UFMA Imperatriz.  Essas doações mostraram o interesse da comunidade em não se desfazer desses jornais e sim preservá-los. A universidade, então, trabalhou para isso, através da captação de recursos e da compra de equipamentos. Desde lá, nosso grupo, formado por estudantes de graduação, mestrado e doutorado, produzem pesquisas sobre esses veículos e sobre a temática do jornalismo e da memória coletiva. Temos reuniões, seminários internos e os estudantes apresentam resultados desses trabalhos em eventos científicos e submetem os mesmos às revistas científicas. Já lançamos dois livros sobre a imprensa na região tocantina. Podemos ser acessados no site da Editora da UFMA, a EDUFMA:

http://www.edufma.ufma.br/index.php/produto/comunicacao-jornalismo-e-memoria-estudos-regionais-v-1/
http://www.edufma.ufma.br/index.php/produto/jornalismo-midia-e-sociedade-as-experiencias-na-regiao-tocantina/

Região Tocantina – Quando começou a história da imprensa em Imperatriz?

Roseane Pinheiro –  É interessante que o início da imprensa na cidade acontece de forma manuscrita. Sim, as notícias começaram a circular sem a tecnologia da imprensa, que permite que sejam feitas dezenas ou milhares de exemplares. Em Imperatriz, o primeiro jornal foi O Alicate, de 1932, que saiu das mãos do tabelião Antonio José Marinho. Efetivamente, o primeiro impresso foi A Luz, um semanário, com assinatura anual e venda avulsa, em 1936.  Esse começo nos faz pensar que a necessidade de informar, de expressar pontos de vista não precisa esperar pelo avanço tecnológico, é uma necessidade dos agrupamentos, de se organizarem, que pensarem seus modos de vida.  Em Imperatriz não foi diferente.  O mesmo aconteceu, com o primeiro jornal do Maranhão, O Conciliador do Maranhão, em 1821, de São Luís, que depois circulou já impresso. Essas questões integram um livro da professora Marialva Barbosa sobre os jornais manuscritos no Brasil, com excelentes reflexões sobre a temática e com diversos casos em todo o país.

Região Tocantina – Para a senhora, para onde vai a imprensa do século XXI?

Roseane Pinheiro –  Podemos pensar na imprensa como um conjunto de mídias por onde circula o jornalismo. Estamos, então, em um momento de renovação do jornalismo, que migrou para a internet, com novos modos de produção, leitura e consumo. Há desafios como a sustentação das iniciativas jornalísticas que não são comerciais, a articulação com a velhas mídias e a participação ativa do público. É mais um momento de reinvenção do jornalismo, ao estudar o campo jornalístico temos vários momentos de mudança na linguagem, nas práticas do jornalista e nas possibilidades de circulação. Lembro da utilização das entrevistas na apuração no final dos anos 1800 e começo dos 1900, do início dos programas jornalísticos no rádio e TV entre os anos 30 e 60 do século XX, da chegada da fotografia, da criação das editorias com coberturas de economia e política, da segmentação das revistas etc. São momentos que resultam em mais profissionalismo, porque há maior exigência pela sociedade por reportagens melhor apuradas, mais ética, mais compromisso com o interesse público. A sociedade quer participar  das decisões das empresas jornalísticas, o público é coprodutor, quer opinar, quer criticar etc. Isso faz parte do jogo democrático, dos avanços políticos, do amadurecimento das sociedades.

Região Tocantina – Quais pesquisas sobre história e memória da imprensa estão hoje sendo desenvolvidas no Curso de Jornalismo de Imperatriz?

Roseane Pinheiro –  No caso do Grupo de Pesquisa Jornalismo, Mídia e Memória continuamos com o projeto de digitalização dos jornais, que permanecerá enquanto projeto para a comunidade, estudantes e interessados. Outra frente hoje são as investigações sobre jornalismo, memória e redes sociais, como esses temas se articulam nos ambientes digitais, onde o jornalismo se refaz em outras propostas que conjugam interatividade, linguagens diversas, tecnologias e maior participação do público. O ciberjornalismo, como alguns autores preferem nomear pela integração entre a comunicação e os aparatos tecnológicos, é uma instância plena de possibilidades, de produção jornalística, de trabalho multidisciplinar, de muitos desafios para todos os profissionais. O que nos chama a atenção, além dos acervos de impressos que estão na internet, é o interesse pelas velhas notícias, por programas jornalísticos antigos, isso nos faz pensar como o ambiente virtual, reorganiza as temporalidades e funde presente e passado num processo que parece não ter fim. E o jornalismo potencializa isso ao trazer o presente através das notícias e ser também uma forma de entrar em contato com as décadas passadas. 

Região Tocantina – Qual a sua avaliação sobre o campo da imprensa da região tocantina hoje?

Roseane Pinheiro –  Acredito que há demanda por mais jornalismo na região tocantina. É necessário projetos que potencializem as notícias nas rádios, TVs, portais de notícias, nos ambientes digitais etc. Acredito que um dos desafios na região é renovar as práticas jornalísticas, melhorar o que já vem sendo feito, propor alternativas criativas e ousadas, que valorizem a participação maior da sociedade. Sem o jornalismo local, as pessoas terão menos condições de compreender a realidade imediata, terão menos referenciais para tomar decisões, de construir uma visão crítica. O jornalista é um profissional que realiza um serviço para a sociedade, assim como o médico, o arquiteto, o professor. Cada um tem padrões, valores e compromissos profissionais. O jornalismo, enquanto uma forma de conhecimento sobre a realidade, traz informações necessárias ao cidadão. Sem o trabalho do repórter, a comunidade não saberia de muitas ocorrências e pontos de vistas. E cada vez mais, o leitor, o internauta ou o ouvinte, quer aprofundamento, qualidade, compromisso com o relato verdadeiro.  É necessário vencer os “desertos” de notícias, ou seja, cidades sem mídias, que ficam à mercê de falsas informações que circulam nos aplicativos e que prejudicam a tomada de decisão do cidadão. É preciso persistência, trabalho profissional, valorização da democracia e inovação. A história do jornalismo mostra que essas são algumas das saídas em tempo de reestruturação da área. 

2 respostas em “Entrevista: Roseane Arcanjo Pinheiro”

Haveria MUITO o que comentar… Inclusive como, ex-colaborador (“colunista”) em jornais locais.
Também como doador de coleções de jornais para o Curso de Jornalismo, logo que fui “compulsoriado” na UFMA-C II´´
Mas apenas registro ter achado n mínimo curioso (…) nada ter sido dito sobre O Progresso.. já passando de meio século de presença, na cidade de Imperatriz e região…

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