domingo, 17 de outubro de 2021

Admirável Mundo Novo (em que não vivemos)

Publicado em 4 de dezembro de 2020, às 17:24
Imagem: Unsplash

João Marcos dos Santos Silva – estudante de Jornalismo e escritor

(Estudante de Jornalismo – UFMA e escritor)

O sonho de viver em uma sociedade melhor não vem de hoje. As inúmeras tentativas de se pensar em um local de paz, prosperidade e justiça social, começaram em sociedades primitivas. O livro “Admirável Mundo Novo” (1932) de Aldous Huxley, mesmo com quase um século desde que foi publicado, nos apresenta uma sociedade um tanto que peculiar, mas bem atual. É a tentativa de uma utopia, conceito esse que nos foi apresentado no livro “A Utopia” de Thomas More, publicado em 1516. More imaginou uma ilha diferente de tudo em que ele havia vivido. Era um sonho, uma utopia, que vem do grego, que quer dizer “um lugar bom” ou “lugar que não existe”.

As ideais mostradas no livro são quase que proféticas. As inovações tecnológicas chagaram ao seu ápice. Tudo é possível nessa utopia. Existe uma divisão de castas, em que cada um desempenha uma função naquele mundo. Ter filhos não é mais uma opção: todos são gerados em cápsulas, em laboratórios, a ideia de maternidade é uma obscenidade. Vida social? Faça exatamente aquilo que você quiser, desde que nunca se esqueça de tomar a famosa e obrigatória “soma”, que mais é do que um comprimido que causa a sensação de prazer e te livra de “pensar demais”.

O personagem Bernard Marx parece ter vindo com defeito. Em um momento, em sua vida, ele questiona se é realmente livre. Suas palavras soam como uma blasfêmia para a sua atual companhia, chamada Lenina, que defende com suas forças tudo o que aquela sociedade proporcionava para ela.

“ – Você não queria ser livre, Lenina?

– Não sei o que você quer dizer. Eu sou livre. Livre para me divertir à vontade. Agora todos são livres.

Ele riu: – Sim, agora todos são felizes. Começamos a dar isso (soma) às crianças de cinco. Mas você não gostaria de ser livre de outro modo, Lenina? Do modo que você quisesse, por exemplo; não igual a todos os outros. (p.119)  

No decorrer da narrativa, Bernard faz uma viagem para longe dessa sociedade e lá encontra um extremo: um mundo não tão feliz como o que ele imaginava, algo que tentaram esconder dele por todos esses anos. O que nos faz realmente encarar a perspectiva dele como correta, de que eles estão realmente presos.

Pensar em desigualdades e uma em vida que não seja a “boa”, que estamos vivendo, é fechar os olhos para o que acontece no mundo real. Entre a utopia e o mundo “primitivo”, existe um abismo transponível, mas que nos é negado atravessar. O filosofo coreano Byung-Chul Han chama o que estamos vivendo e também projetando para o futuro, uma sociedade do cansaço, em que nela não se pode pensar em negatividades, em que o ter é maior que o ser e em que a vida corre em um ritmo de busca pelo desempenho e sucesso de uma forma não saudável. Estão vendendo algo que nunca poderemos comprar, um estilo de vida inalcançável.

Como para Lenina, refletir sobre injustiças, doenças e dificuldades que são inerentes aos seres humanos é uma blasfêmia e preciso estar sempre anestesiando a mente com a “soma”, para negar a realidade ou simplesmente maquiá-la. Esse parece ser o momento em que somente o belo tem vez.

Trazendo um pouco mais para nossas vidas, as redes sociais têm desempenhado esse papel de “soma”. São pílulas diárias, sem começo ou fim, nos entorpecendo em cada curtida, pintando o mundo com uma estética de risos, felicidade e riqueza, que não existem e, quando existe, é acessível apenas para algumas pessoas. É estranho e assustador pensar além do que do nos é apresentado, além da tela do celular. Viver no século XXI tem seus perigos e a fábula de Huxley falava muito bem sobre isso.

Nos encontramos, finalmente, em um mundo não tão admirável. Se existia alguma perspectiva de mudança social, agora é que ficou ainda mais distante. A política continua a mesma. O abismo se torna cada vez maior. As desigualdades em tempos de crise política, econômica e sanitária, em que vivemos, nos assusta. A diferença entre o controlador e o controlado se torna nítida, mas por muitas das vezes não é combatida. O sonho da utopia morre a cada “soma” ingerida. Porque hoje, em um mundo onde tudo é liquido, a verdade social se dissolve em uma curtida.

Referências

HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo Novo. São Paulo: Abril Cultural, 1981.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2015.

MORE, Thomas. A Utopia. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2004.

Uma resposta em “Admirável Mundo Novo (em que não vivemos)”

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