terça-feira, 26 de outubro de 2021

Racismo reverso não existe

Publicado em 10 de outubro de 2020, às 18:16

Hyana Reis – jornalista

Foi com perplexidade, mas sem nenhuma surpresa, que acompanhei a revolta contra o Magazine Luiza, porque a empresa decidiu que, este ano, seu programa de trainee seria voltado exclusivamente para candidatos negros.

A justificativa: apesar de 53% dos colaboradores da empresa serem negros e pardos, menos de 16% ocupam cargos de chefia. “O alerta despertado por essa baixa participação fez com que o Magalu decidisse atuar, oferecendo oportunidades para quem ainda está começando a carreira”, disse o comunicado. Foi então que acusações de “racismo reverso” começaram a pipocar nos perfis da empresa e na internet, trazendo à tona novamente essa discussão.

É incrível, mas extremamente previsível, que no Brasil o fato de diversos programas de trainee só conterem candidatos brancos não gera nenhuma revolta, pois os que creem em racismo reverso acreditam que ou o negro não mereceu ocupar tal cargo, ou só está lá por cota.

Um exemplo que costumo citar sobre isso é o Oscar. Em 2015, artistas e profissionais do cinema iniciaram o movimento #OscarSoWhite (Oscar muito branco, em livre tradução) pois atores, roteiristas, diretores e produtores negros não constavam na lista de indicações da maioria das categorias.

Na época, muitos justificaram que, se nenhuma pessoa negra estava lá, é porque não mereceu. E se os negros queriam estar lá, deviam mostrar talento. No ano seguinte, vimos “Moonlight”, um filme com um elenco, produção e direção predominantemente negra, vencer as principais categorias.

Anos mais tarde, também vimos Pantera Negra se consagrando como o filme de herói com mais indicações ao Oscar, incluindo um inédito: melhor filme. Nunca um filme blockbuster de herói tinha ocupado aquele espaço. E ali estava uma história que se passa na África, com elenco predominantemente negro, a levar estatuetas para casa.

Mas isso nem chegou perto de ser visto como merecimento. Não, os negros não mereceram ocupar aquele lugar, segundo os que acreditam em racismo reverso. Ali estava estampado novamente o preconceito contra o oprimido homem branco (ironia). Afinal, eles só tinham levado tantas estatuetas por cotas, por tentativa de lacrar, o Oscar tentando se redimir da falta de negros em anos anteriores. A ideia de merecimento por talento, esforço e muita luta é raramente creditada aos negros.

Mas, mesmo ocupando a parte considerável do mercado de trabalho, dos cargos de chefia, do cinema, da cultura, da moda, dos padrões de beleza, ainda há quem acredite no mito de que o branco sofre racismo. E lhe dói ver o negro ocupando os lugares onde ele está, mesmo que minimante.

O racismo reverso não existe. E posso falar com propriedade. Venho de uma família miscigenada, como a maioria dos brasileiros. Tenho ancestrais negros, indios e brancos. O resultado são familiares completamente diferentes uns dos outros, como a minha irmã, que nasceu com a pele branca.

Tivemos exatamente a mesma criação, estudamos nas mesmas escolas, e sim, ela sofreu preconceito por ter pai e irmão negros, passou a vida ouvindo comentários maldosos, além de constantes perguntas se ela não seria adotada ou teria sido trocada no hospital.

Porém, mesmo tendo os mesmos ancestrais e criação que eu, minha irmã nunca vai sofrer racismo. Ela nunca foi acusada de roubo, seguida em loja, pedida para revistar a bolsa, ou impedida de entrar em algum lugar. Diferente de mais da metade da nossa família. Por quê? Porque racismo reverso não existe.

E quanto mais cedo as pessoas aceitarem que vivemos em um país racista, e terem noção dos seus privilégios, mais perto estaremos de começar a pensar em um pouco de igualdade e reparação histórica. Porque o caminho é longo, e no momento parece que estamos andando de ré.

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