domingo, 18 de outubro de 2026

UM CONTO AOS DOMINGOS #86 – Zoológico ou Atenção, animais humanos! (Marcus Custódio)

Publicado em 17 de outubro de 2026, às 10:46

[traduzido do idioma kailasês oficial]

Aqui em Kailasa foi inaugurado o primeiro zoológico contendo terráqueos, os melhores animais do planeta que colapsou por obra dos seus próprios habitantes – melhor deixar claro, antes que ponham culpa em um meteoro. Nossos kailasianos tiveram certo trabalho para montar as coleções, mas temos orgulho do feito: assim que souberam que a Terra estava por um fio, correram para capturar alguns espécimes de lá. À força, sim, mas os humanos não podem se queixar de métodos de violência que eles mesmos criaram. 

Agora vou visitar a ala mais popular do zoo, que ainda não conheço. É de uma região que, segundo os nossos historiadores, vivia uma fartura de terras, mas que foi, pouco a pouco, substituída por pasto. Pasto, segundo o guia, é comida de boi. Boi, segundo o guia, é um bicho parecido ao nosso oxx. Essa região era conhecida como Brasil, palavra que no nosso idioma é difícil de pronunciar e acabou virando Parasitil nas conversas, nome de um remédio para vermes kailasianos. Nessa parte do zoológico, existem exemplares de diversos estratos sociais, conservados vivos graças à nossa tecnologia. Me disseram que os bichos são muito diversificados, bem diferente da ala dos países nórdicos, de onde acabo de vir. Lá todos os bichos têm a mesma cor, a mesma altura, os mesmos olhos superiores.

Os brasileiros também são mamíferos, iguais aos animais de outras seções, pelo que lemos nas placas informativas abaixo ou ao lado das jaulas. Depois de crescidos, podiam se tornar onívoros, estritamente herbívoros ou carnívoros. Mas leio que grande parte da população era anívora, ou seja, não comia nada. Uma placa já me adianta a explicação que eu pediria: antes da sua destruição, a riqueza (financeira) dessa exuberante região estava concentrada em um por cento da população, de um total de trezentos e cinquenta milhões de criaturas. O guia está empolgado hoje, vai falando, explicando: desde que saíram das savanas, os humanos trocaram a busca da comida pela busca do dinheiro, que, nessa região do globo chamava-se ‘real’ à época do colapso. E completa, rindo: e pior que não tinha nada de real, estava mais para bobo da corte.

Os biólogos especialistas em Terra decidiram dividir a coleção brasileira por cores: a primeira é a cor branca, e representa os descendentes do povo do continente conhecido como Europa; estes chegaram ao Brasil por caravelas (nota informando que caravela é um tipo de embarcação; nota informando o que é uma embarcação) e dali se apossaram das terras nativas. Por muito tempo, brancura foi sinônimo de beleza no Brasil. Nós, kailasanos, que somos todos azuis escuros, arregalamos os olhos diante dessa informação. Na minha frente, há uma jaula contendo alguns desses humanos, basta dar um play para ver os animais em ação, falando, se locomovendo, gesticulando: é, esse aeroporto está parecendo uma rodoviária, cada vez mais cheia de gente pobre. A legenda informa: ‘aeroporto’ – lugar onde aviões, meio de transporte aéreo, pousavam e decolavam para as mais diversas partes do globo. Uma espécie de nave, portanto, porém mais precária. A legenda ainda informa: ‘pobre’ é o indivíduo cujos recursos financeiros eram escassos; o contrário de rico.

Seriam os noventa e nove por cento da população, incluindo os anívoros?, pergunto ao guia.

Os bichos humanos precisam repetir uma frase a cada vez que um visitante aperta esse botão verde; em sua língua nativa, mas o fone a traduz em poucos segundos. Conforme os nossos registros, são as frases que costumavam falar antes de serem sequestrados. Vamos ouvir mais uma cena, play: Agora em todo lugar que a gente vai é um negócio de racismo; preto pra lá, preto pra cá, não tem mais espaço pra gente; é uma vantagem ser preto hoje em dia. Eu vejo e revejo essa cena, sem entender. Play, play, play. O guia me explica: nos últimos dias da Terra, os humanos pretos começaram a questionar a hierarquia social quase fixa daquele país, e os exemplares brancos se sentiam acuados.

Ah, essa seção é mesmo fascinante: tem alguns boxes de várias regiões, é impressionante como a jaula dos brancos é arrumada, tem umas com vista para um mar fictício, outras que são fazendas imensas; os móveis tão diferentes dos nossos, ainda assim não deixam dúvidas quanto a serem de excelente qualidade. As mulheres de salto alto, elegantes, pelos da cabeça lisos; os homens de terno, com cara de donos de alguma coisa. Fascinante, uma ala mais irretocável que a outra. E eles dizem coisas que não entendo direito, como essa frase aqui, a minha preferida até agora, play: a gente não pode falar mais nada, tudo é ofensivo. Ah, como eu queria entender de que situação eles estão falando, acho que o guia está mentindo e não sabe de nada. Dou tchau para esses animais e paro de apertar o botão da última jaula dos brancos. Eles acenam de volta, simpáticos, talvez porque um funcionário foi se aproximando, trazendo na mão um saco de petiscos. Bons garotos, bons garotos, o funcionário afaga a cabeça dos bichos.

Chego à parte ‘vermelha’ do setor, que representa o nativo das terras brasileiras quando ainda nem se chamavam Brasil. No entanto, só vejo estátuas de cera. O guia revela o motivo: havia raríssimos exemplares vivos de nativos quando a Terra entrou em colapso. Os curadores do zoológico se esforçaram para conseguir um, mas falharam, então se contentaram em reconstruí-los a partir de figuras de livros. Será mesmo que andavam seminus e tinham essa cor mais acobreada, olhos puxados, cabelo pretíssimo, e dançavam como a estátua nos provoca a acreditar? Lástima mesmo, nessa ala não posso dar play em nenhuma cena, não posso ouvir o que diziam sobre o mundo deles antes da destruição de seu planeta. O guia continua: a substituição gradual da flora nativa por pastos foi tornando essa espécie rara de se encontrar. Mas essa informação não aplaca a decepção na minha cara.

Então chegamos à seção da cor preta, a que contém o maior número de jaulas. E nesta há gente de cor escura, a legenda diz que por conta de uma substância chamada de melanina, um pigmento da pele semelhante em estrutura química ao pigmento que me deixa azul. Tem uns mais escuros, outros menos. O interessante é que as celas aqui são bem distintas das que visitei primeiro. Noto uma arrumação simples, improvisada, uma vista para nada ou lugar nenhum, às vezes para um morro lotado de cabaninhas quase desabando, como se seguram em pé? Esses são os pobres que estão se transportando de avião e incomodando os ricos?, pergunto, mas o guia parece não ter me escutado. Cela após cela, paisagens semelhantes.

Ah, mas aqui encontro uma exceção, nessa vejo uma fêmea em pé, segurando um objeto fininho e comprido, e um macho agachado no jardim, parecem muito ricos, devem ser ricos, olha o luxo da jaula, uma cópia das que existem na parte branca. Vou dar play na cena, e a humana diz: a patroa tá mandando eu varrer o chão de novo, ai meu Deus. Dou o play e ouço: ai meu Deus, vou ainda pegar mais três conduções pra chegar em casa; tô tão cansada, o salário mal dá pra pagar as contas. Me aproximo, o humano está com a cara tão triste que destoa do jardim florido onde escava a terra. Vou apertar o play e ver o que me diz: acabaram de matar meu filho, meu filho de doze anos, ele tava brincando na rua, só brincando, e eu trabalhando. É uma seção que poderia ser rebatizada de ‘não aguentamos mais’.

O guia me explica: o contraste entre os setores branco e preto se dá pela herança da escravidão. Africanos (me diz que ainda conheceremos essa ala) foram arrancados de sua pátria e escravizados na América, para trabalhar na casa dos senhores endinheirados. Eu pergunto: ah, então naquela jaula que acabamos de passar, a humana era uma escrava? Não, a escravidão em certo momento acabou no Parasitil. Aquela fêmea que vimos na jaula luxuosa era uma empregada doméstica. Doméstica?, me assusto com o termo. E qual a diferença entre uma escrava e uma doméstica? O guia, sempre prestativo e com a maior naturalidade, esclarece a diferença: um salário mínimo. E com esse tal de mínimo dava pra viver?, insisto. Ele não me responde, mas aponta na direção das celas.

Chegamos ao fim da exposição: é fascinante, não concorda? Grave bem tudo isso. Nós agora vamos conhecer outras partes do real zoológico terráqueo de Kailasa, mas quando nos dirigirmos à “América do Norte – ou seja, Estados Unidos”, você vai perceber que os ambientes também são divididos por cores. Vamos? Hesito um pouco, mas sigo, e me despeço dos últimos seres humanos brasileiros. Eles sorriem para mim, claro, quando são simpáticos com os visitantes ganham biscoitos. Pelo menos aqui em Kailasa têm a sorte de ganharem mimos, todos, igualmente. Confesso ao guia o meu incômodo depois de visitar a coleção do Brasil, não sei o que meus amigos viram de tão sensacional. Mas ele debocha: está reclamando da ordem? Logo vemos que você não é mesmo um terráqueo parasitileiro.

E eu penso: ainda bem.

SOBRE O AUTOR – Marcos J. Custódio nasceu no Maranhão, em 1991, mudou-se para fazer pós-graduação em São Paulo (2015-2019) e retornou ao MA, onde vive atualmente. Seu principal interesse na literatura é escrever o insólito com temáticas contemporâneas. Possui contos selecionados em várias coletâneas. Foi um dos contemplados no Prêmio Barueri de Literatura 2022 (2º lugar), e recebeu uma menção honrosa no 21º prêmio literário Paulo Setúbal. É um dos destaques na antologia de contos OFF Flip 2024. É autor de “Os teus olhos estarão sobre mim” (Romance – Editora Mondru, 2024).

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