
A cultura Alimentar é o conjunto de saberes, práticas, gostos e significados que um povo ou uma comunidade constrói em torno da comida. O conceito abarca o que se come, com quem, onde, quando e por que, além de olhar também para como se planta, se colhe, se prepara e se partilha o alimento.
Lígia Amparo da Silva Santos, pesquisadora da Universidade Federal da Bahia (UFBA) no campo da antropologia da alimentação, nos diz que a “Comida envolve cultura, afetos, cuidado, os múltiplos sentidos, a relação com o território e entre as pessoas”. A Cultura Alimentar abrange desde os ingredientes e receitas às memórias afetivas e à relação com o território.
Sendo a região tocantina maranhense uma área de fronteira, Martins (2009; 5), afirma ser um espaço de encontro de sociedades e culturas entre si diferentes: a sociedade indígena e a sociedade não indígena. Assim, a fronteira se manifesta como lugar da indefinição e do conflito, mas também da ressignificação da cultura em sua dinâmica.
Ao degustar alimentos de afeto nossa memória vai buscar longe as lembranças das nossas raízes. Os gostos, os cheiros nos fazem voltar ao tempo dos nossos ancestrais. O que nos instiga neste texto é relação da cultura alimentar local e seus modos e técnicas de fazer. Dessa forma, a preparação dos alimentos se inicia com a escolha dos utensílios para o preparo dos produtos alimentícios; o pilão, uma boa paçoca precisa ser feita nele; a urupema, para peneirar a goma e preparar o beiju; a cuia, pra tomar a sembereba do buriti; a folha da bananeira, para enrolar a massa do bolo de puba ou de macaxeira.

As comidas designadas de quebra jejum, ou desjejum, da linguagem sertaneja da região, palavra essa substituída por café da manhã, trazem uma lista de iguarias. Essa primeira refeição, feita pela manhã, é composta por uma quantidade variada de comidas, feitas de tapioca, araruta, arroz ou milho, essas massas eram e são o carro chefe da alimentação: delas se faz o beiju, o bolo cacete, de puba, bolo de roda, mangulão, bolo podre, a broa, o bolinho frito de arroz (orelha de macaco) e o cuscuz de arroz ou milho no pano. Não podemos esquecer do famoso cuscuz imperial que ainda hoje encontramos vendedores oferecendo o produto em vários bairros da cidade de Imperatriz. Esses pratos encontramos hoje nos vários cafés que existem na cidade e região do entorno.
O aproveitamento dos frutos nativos, o buriti, a Jussara/açaí, pequi, caju, cajuí, araçá, bacuri, o puçá sempre foi um privilégio da nossa região, rica em uma variedade alimentar. Especificamente, a bacaba e a mangaba, ainda as encontramos nas terras indígenas de amarante e Montes Altos e compõem a lista dessas iguarias. Todos esses frutos sazonais são fonte de nutrientes de inúmeros grupos sociais do cerrado maranhense. Podemos considerar comidas líquidas que vêm das frutas. As comunidades camponesas chamavam de tiquara, sembereba ou vinho, as frutas do buriti, bacaba ou açaí maceradas e prontas para tomar.
Também não podemos esquecer os óleos, azeites e leite extraído do babaçu, piaçaba ou de outras amêndoas. São cocos manipulados de forma artesanal para fazer diversas receitas de cozidos de carnes de carneiro, de caças e peixes.
Uma preocupação que nos aflige é o avanço do agronegócio sobre áreas imensas de florestas do cerrado. Junto com a ânsia pelo lucro desenfreado vem destruíndo lamentavelmente toda a floresta que alimentou e alimenta gerações de populações sertanejas e indígenas. O resto de mata que ainda temos está dentro das terras indígenas, comprovando que esses povos são os verdadeiros guardiões da fauna e flora.
A variedade de alimentação vinda das fontes de proteínas do gado, que foi um dos produtos principais na época da criação extensiva na primeira ocupação não indígena na região, originou uma cultura alimentar peculiar. Nesse cardápio vasto, também se come a coalhada escorrida, o requeijão, a nata com farinha e o queijo coalho. Nesta lista não podemos esquecer a paçoca de amendoim e de gergelim, alimento rico em proteínas, para dar sustância ao trabalhador e trabalhadora do campo.
No almoço, a buchada, o chambari, a panelada, que se somam também às misturas dessas carnes com o feijão ou fava. A carne seca é transformada em paçoca, o bofe assado (o pulmão do gado desidratado) não falta nos açougues da região. Esses alimentos são muito apreciados pela população, se constituindo em patrimônio cultural alimentar sertanejo maranhense. Gonçalves (2009) reforça que culinária, festas, religiões, formas de medicina popular, música, dança, técnicas de saber fazer de sociedades tradicionais são inerentes ao patrimônio imaterial.
Perceber esse caleidoscópio cultural no âmbito da diversidade alimentar do povo sul-maranhense denota saberes culturais socialmente construídos com os grupos que aqui estavam e os que migraram para essa região. Destaque na produção literária e cultural de Carvalho (2000), Cabral (1992 ), Franklim e Carvalho (2007), Ferraz (1998), Lima (2021). Assim, esses estudos dialogam sobre a cultura dos povos indígenas, das comunidades camponesas, das quebradeiras de coco babaçu e sobre, em resumo, a cultura sertaneja maranhense.
Referências:
CARVALHO, Carlota. O sertão: subsídio para a história e a geografia do Brasil. Imperatriz: Ética editora, 2000.
CABRAL, Maria do Socorro Coelho. Caminhos do gado. São Luís: Siorge, 1992.
FRANKLIN A.; CARVALHO, Joao Renôr F. Francisco de Paula Ribeiro: Desbravador dos Sertões de Pastos Bons: A base geográfica e humana do sul do Maranhão. Imperatriz –MA. Editora Etica, 2007.
FERRAZ, S. O movimento camponês no Bico do Papagaio: Sete Barracas em busca de um elo. Imperatriz-MA: Ética editora, 1998.
GONÇALVES J.R Santos. O patrimônio como categoria de pensamento. . In: ABREU, Regina; CHAGAS, Mário (Orgs.). Memória e Patrimônio: ensaios contemporâneos. Rio de Janeiro: Lamparina, 2009.
LIMA, Regina Célia Costa. Por caminhos de terra e de tinta: a trajetória de Carlota Carvalho, uma escritora nos sertões maranhenses (séculos XIX e XX). 2021. Tese (Doutorado em História) – Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo, 2021. Disponível em: http://www.repositorio.jesuita.org.br/handle/UNISINOS/9850. Acesso em: 11 de fev. de 2025.
MARTINS, J.S. Fronteira: a degradação do outro nos confins do humano. Sao Paulo: Contexto, 2009.
SANTOS, Lígia Amparo da Silva Sobre a reinvenção da comida, da alimentação e dos alimentos. In: O corpo, o comer e a comida: um estudo sobre as práticas corporais alimentares cotidianas a partir da cidade de Salvador. Salvador: BA, editora: EDUFBA, 2008.
SOBRE AS AUTORAS:

Carmem Barroso Ramos é Socióloga, com Doutorado em História pela Universidade Vale do Rio dos Sinos (Unisinos); vinculada na linha de pesquisa sobre Estudos históricos Latino-americanos; com Mestrado em Desenvolvimento Socioespacial e Regional. É Professora Adjunta da Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão – UEMASUL. Atua nas áreas: Sociologia e cultura; Comunidades tradicionais; Memória e identidade; Movimentos Sociais e Sindicais. É diretora regional do Sindicato dos Professores do Ensino Superior do Estado do Maranhão (SINDUEMA). É Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Imperatriz – IHGI.

Dayse Lima Cavalcante possui graduação em Psicologia pela União das Escolas Superiores do Pará-Unespa (1992/Hoje Unama). Atualmente é Professora Assistente IV da Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão – Uemasul; Analista Judiciária – Psicóloga do Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão; Psicóloga Clínica do Espaço Saúde do Corpo. Gestora do Santé-Espaço Corpo e Mente. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Psicologia do Ensino e da Aprendizagem e Saúde Mental, Psicologia Clínica e Jurídica. Possui Pós-Graduação em Psicopedagogia; Saúde Mental. Mestrado em Ciências da Educação e Formação básica em Psicanálise.