domingo, 20 de setembro de 2026

UM CONTO AOS DOMINGOS #084 – O BÊBADO DA RUA DO GIZ (Janete Carvalho)

Publicado em 19 de setembro de 2026, às 19:28

A Rua do Giz está localizada na parte central do Centro Histórico da cidade de São Luís, assim denominada pelo fato de que, no século passado, devido a algumas crenças populares, a maioria dos casarões existentes deste domínio apresenta em suas fachadas um tipo de argila branca muito comum, do período da sua construção, precisamente no século XVII. Tal aspecto determinou o fator que consagrou o nome desta tão charmosa via em pedras de cantarias e paralelepípedos. Além da presença de uma bela escadaria na esquina com a rua de Nazaré, posicionada no começo desta tão célebre localidade, formando, pois, o magnífico ‘‘design’’ deste local, contendo os 35 degraus em pedra de cantaria e onde ao seu lado pode-se visualizar todos os conjuntos de casarios em arquitetura original colonial portuguesa.

Tudo aconteceu quando, em um dia ensolarado de domingo no centro da cidade de São Luís – Maranhão, os casarões todos, com suas janelas fechadas, não havia a presença de nenhum morador nas janelas e nem tão pouco transitando pela ladeira em paralelepípedo, então, precisamente na Rua do Giz, via deste meio imagístico onde se pode visualizar um local atraente com os belos casarios que lá se encontram, surge um certo senhor, conhecido por seu Anastasio. No momento exato em que subia esta ladeira, de forma quase que se arrastando, para direcionar-se a sua morada, que ficava bem do outro lado desta preciosa localidade; ele era um homem esbelto, de aproximadamente 1m e 52 de altura, rosto desfigurado do tempo, cabelos caracolados e cor de pele branca, porém, apresentava-se muito embriagado, imagine-se que ele deveria ter tomado algumas pingas no boteco do centro histórico, pois se apresentava quase sem poder andar direito. Porém, caminhava tão vagarosamente, despreocupado e, ainda assim, cantava com uma voz muito engraçada, por conta da sua embriaguez; era uma música do bumba meu boi, dança típica da cultura popular local, cuja letra era deste jeito: “quando eu me lembro daquela bela mocidade com a tua pele bronzeada eu começava a cantar (…)”.

E, assim, seguia em passos pequenos, às vezes ia à frente e voltava para trás, a rua de pedras e longa estava totalmente deserta, mas nada o incomodava de fazer a caminhada lenta, exercida por este senhor de aproximadamente 54 anos. Neste percurso, foi direcionando-se até o trecho mais íngreme daquela rua que ele parou descansando de pouquinho a pouquinho, pois era um espaço bem difícil de subir. Enfim, depois de aproximadamente 40 minutos, ele conseguiu chegar até próximo à sua casa, mesmo tendo muita dificuldade, seguiu tranquilamente e disposto.

Foi uma caminhada bem cansativa e excessivamente difícil para seu Anastasio pelo fato de estar totalmente embriagado, pela extensão desta sinuosa rua enladeirada e com piso em paralelepípedos. E, quando estava quase próximo da sua residência, foi caindo no chão de forma lenta, nem imaginava que alguém poderia surgir e estender as mãos para lhe ajudar, pois aparentemente a rua estava deserta, na realidade ele não sabia mais de nada de tão bêbado que estava.

Apareceu outra pessoa, de aproximadamente 37 anos, alto, esbelto, de cor preta, correu imediatamente até o homem caído e começou a tentar reanimá-lo, perguntando assim:

– Senhor, tem algo que eu poderia fazer para lhe ajudar? Posso chamar alguém da sua família?’.

Ora o bêbado não conseguia responder nada, ora ele respondia de forma bem fraca. Depois de tentar acordá-lo várias vezes, sem sucesso, foi buscar ajuda de outras pessoas. Então, ocorreu que, depois do esforço de três pessoas, conseguiram levantar este homem bêbado e seguir ainda na Rua do Giz para encontrar a sua residência.

Com muito esforço, chegaram até o número 40, que correspondia à casa dele, era uma casa colorida, mas muito simples e com o modelo dos prédios coloniais localizados nesta área. Uma senhora de aproximadamente 64 anos, com uma aparência bem distinta, ou seja, simpática foi recebê-lo e, muito apreensiva, sem entender o que estava acontecendo, assim falou:

– Oh, meu Deus! O que aconteceu com o meu velho desta vez? Espero que ele não tenha sido agredido e possa sarar logo. Vai entrando gente, a casa é simples, mas tem lugar para todos. Coloque-o aqui neste sofá.

As pessoas tiveram todo o cuidado com ele e alojaram-no em um local definido pela senhora. Porém, o bêbado ainda se encontrava bem atordoado, sem falar nada certo, até que a senhora compreendeu o que tinha acontecido com ele. E falou assim:

– Homem do céu, você tomou foi uma pinga!!

E logo tentou buscar uma bacia com água e um pano para molhá-lo um pouco, com o intuito de despertá-lo.

Enfim, com alguns esforços, o bêbado foi voltando a si, mas ainda falando as coisas bem diferentes. A senhora, chamada de Antonieta, já estava preocupada com o estado dele, até porque ele nunca tinha chegado em casa nesta maneira. Foi tudo bem rápido, resolveram dar um banho no homem para que ele ficasse bem. E os outros dois senhores que ainda estavam lá também tentando reanimá-lo.

Momento, muito difícil para dona Antonieta, ela começou falando o seguinte:

– Por que este homem quis beber assim? Ele não deveria ter feito isto, pois aqui na nossa casa temos muitas responsabilidades para cumprir e precisamos um do outro. Amanhã, quando ele estiver mais sombrio, eu deverei ter uma conversa séria com ele, de forma que ele possa entender que esta atitude não se repita mais.

E falou para os homens que socorreram seu marido, neste tom:

– Caros senhores, agradeço a ajuda de vocês, tenham felicidades. Agora vou colocar este homem para dormir.

E, assim, despediu-se dos ajudantes.

Então, as pessoas que ajudaram o homem bêbado chegar até sua casa ainda tomaram um café com bolo e água. Pois dona Antonieta fez questão de servi-los como forma de agradecimento, e é um jeito cultural de vida destes moradores simples desta localidade.

O bêbado ainda estava muito desequilibrado, teve algumas dificuldades para se levantar e se dirigir até o seu leito. Foi uma tarefa que a senhora sua esposa teve que fazer para conseguir colocá-lo na sua cama.

No final, ele deitou-se. E, tudo se arrumou.

SOBRE A AUTORA – Janete Costa Carvalho, ludovicense, escritora e amante da poesia. Participou de mais de 20 coletâneas nacionais e internacionais. Integrante do coletivo de escritores e poetas de São Luís e do grupo denominado Mulherio das Artes, da Academia de Campos de Goytacazes RJ. Membro da Academia Maranhense de Ciências e Belas Artes de Letras; ALSPA – Academia de Letras de São Pedro da Aldeia – RJ; membro da ABARS – academia de Belas Artes do Rio Grande do Sul. Prêmio de melhor conto de 2023 pela ABARS e prêmio de menção honrosa de poesias da ALB CAMPOS-RJ 2023. Livro publicado: “As faces poéticas’’ e coautora do artigo ‘‘dialogues and look on learning and teaching: reiventing education action in times of pandemic.’’ Mestre em Língua e Cultura Estrangeira pela Universidade Lumiére LYON 2- França. Licenciada em Letras pela UEMA e bacharel em Turismo – UFMA, com pós-graduação em linguística aplicada ao ensino de línguas materna e estrangeira. Membro da comissão de assuntos diplomáticos e consulares da OAB CADC MA; tradutora e intérprete de língua francesa pelo JUCEMA-MA. Professora de Língua e Literatura nos cursos técnicos do IEMA pleno, São Luís-MA.

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