sábado, 17 de outubro de 2026

UM CONTO AOS DOMINGOS #083 – CONTOS DIVERSOS (Antonio Coutinho)

Publicado em 12 de setembro de 2026, às 17:54

FAMÍLIA METAMÓRFICA

A metamorfose foi fantástica. Inesperada, mas inevitável. Não se tinha noção do tempo. Se chovia. Se fazia sol. Ou se era noite.

A mãe, cansada, acabada, atribulada e Mãe, criou asas, encolheu devido ao calor acumulado durante anos de fogão. Virou borboleta. E começou a voar pelo teto da cozinha esperando mais mutações. Elas tinham que acontecer. E aconteceram.

O pai, faminto e apressado, sem tempo a perder virou mosca. Em voos rasantes sobre a mesa, iniciou a deglutição do alimento que estava posto.

Os filhos, dois meninos, se entreolharam abismados. Tentaram ser gatos, mas como dispensam alturas, resolveram ser ratos. Foi o máximo que conseguiram. Partiram sorrateiros para o interior do fogão.

A empregada, revoltada e organizada, resolveu ser barata. Estragou todo o alimento disponível.

Os bichos não se olhavam, nem davam atenção à vida dos outros. Fazia parte do bizarro equilíbrio doméstico animal não se importar com a liberdade manifesta dos outros. A borboleta voou o mais alto que pôde, a mosca fez o que quis, os ratos comeram tudo que apareceu na frente e a barata o mais que pôde.

Mas a realidade insistiu. A abundância de vida causou mal-estar. Era muita vida solta em tão pouco espaço. Como necessitassem de morte e do tédio diário familiar para serem aceitos, voltaram a ser gente de novo.

(Conto inédito)

FEIJÃO VERMELHO-SANGUE

A mão, trêmula de fome, tira a tampa do prato para ver o que nele tem; ele conhece o conteúdo do prato, mesmo assim quer ver; talvez tenha, na mente, a ilusão de que o almoço não é o que ele deixou em casa.

Descobre o prato e vê o monte de arroz coroado por grandes e vermelhos grãos de feijão. O estômago resiste à fome, mas ela está lá, no finzinho, esperando a hora para atacar. O suor do trabalho escorre pelo rosto enquanto tira a camisa para tomar banho ao passo que o alimento espera sossegadamente no prato.

Ele, nessa hora, odeia o feijão, tem vontade de esmurrá-lo violentamente com a colher, tem vontade de mastigá-lo só para ter o prazer de destruí-lo entre seus dentes cariados. Ele tem rancor do feijão, tem mágoa porque ele o faz sofrer, só que esse sentimento de abominação vem com um misto de agradecimento por aquele ser um alimento. Alimento pobre, repetitivo, humilhante, mas alimento seu, que mata a fome, fruto do suor do seu trabalho.

Senta-se na cadeira depois do banho na frente do prato. Olha-o vidrado sem pestanejar, indeciso. O estômago não quer aceitar o tão conhecido feijão, mas a fome, com seu poder avassalador, grita loucamente para que o almoço seja ingerido. O que lhe oprime não é o feijão, o grão, mas o que ele representa. O feijão expressa toda a miséria em que vive, a exploração salarial do trabalho mal remunerado. Trabalho em que ele é tratado como uma máquina, ele sente assim, sente que nas veias correm os grandes e vermelhos feijões.

Toma um copo d’água para limpar a mente dessas perturbações e resolve comer, logo mais irá para o trabalho, pegará o caro coletivo mal conservado com pessoas suadas como ele. Enquanto come, sente a fome do corpo ser saciada, sente as forças físicas voltarem para, em breve, serem sugadas pelo patrão. No íntimo, sua alma injustiçada quer igualdade entre os homens. A ganância do poder é grande, mesmo assim, ele faz uma silenciosa prece a Deus.

(Conto inédito)

DESENCANTO

Um dia a dona soberba

me aparece já sem nada,

pobre, desfeita, mofina,

com sua trouxa na mão.

Carlos Drummond de Andrade

Uma esmola, senhora. Rosa foi atingida pela voz que ressurgia do espinho das lembranças. Jamais a esqueceu. Os olhos da outra, a antiga superioridade de mulher. A dona de casa ficou petrificada perante o inesperado pedido, tão humilde, tão sofrido, tão verdadeiro. Nunca esperou isso dela, as deusas não desertam do altar.

Uma esmola, boa senhora. O pedido se fazendo verdade, Rosa, em espiral, ofendida, por que me joga na cara essa bondade inútil? E Elvira na calçada. Seria mesmo ela, a grande Elvira, a rainha da noite? Aquela que enchia os salões com sua voz, sereia levando os incautos marinheiros ao mergulho fatal em seu mar de volúpia. Prazer a preço de ouro. Certamente, um engano, aquela luz já sentiu o beijo da morte. Nenhuma palavra em sua memória. O esquecimento é deixar de ser. Rosa, pálida, teme os fantasmas.

A presença embalava os corações das boates. Poucos resistiam depois de ouvi-la, olhar era se encantar. Enfeitiçado o homem, os cobres, ao vento, iam para a bolsa. Maridos em queda, onde sua aliança?

Uma esmola, senhora. As pessoas não param. Branca, Rosa observa o esboço de Elvira, mesmo assim tem medo. Vontade de correr pelo calçadão. Tão perto a igreja, meu Deus me socorra, apenas uma velha, pele murcha, não adianta sol, não chove na cidade, só agora vi, até a mendiga, idosa, até ela consegue perecer sem secar. Os pés plantados no solo, raiz profunda que não busca os nutrientes da terra, chão de cimento. Difícil alcançar os pensamentos.

Senhora. Ouvira muitas vezes a voz veluda de Elvira. Escondida no escuro das boates. Envolvida, como o marido, pela luz que irradiava daquele sol noturno. Saindo antes do final, fingindo-se sonolenta, truque de esposa. Só para despertar, a vigilante, e beber a luminosidade que o homem trazia nos olhos; beijá-lo, o batom vermelho da outra, a boca que era dele, era dela. Bêbado, ela podia ser devassa, quebrados os grilhões das alças do sutiã. Passou a comprar perfumes para disfarçar seu cheiro insosso, ungia o homem para ofertá-lo, o cheiro que era dele, era dela. Impossível era não se apaixonar por Elvira. Não brigou, mas os maridos partem. Sem batom, esposa, sem beijar a mancha rubra no colarinho, mulher incolor. Saudade de quando ousava se mascarar com o ruge, pintora de olhos e cílios, aquela estranha que vinha dela exigindo uma forma diferente morava em seu peito, um outro ela; sem a voz de Elvira, a desconhecida flor murchava, de volta à prisão, deixando Rosa livre em suas correntes. Os espelhos fugiram, quem deixou abertas as janelas? Não havia mais como se beijar no vidro, nem de madrugada quando estava viçosa, pétala escarlate da meia-noite, espelho, espelho meu, existe alguém mais infeliz do que eu?

Por favor, senhora, só uma esmola. A estrela veste trapos. Outrora decotes. Rosa cosia até nos dias fatais, terças e sábados. Senhora, uma esmola. E a mim, quem vai doar alguma coisa? Não pode ser ela. Essa voz perdeu o brilho, mas guarda uma distante semelhança de timbre que desaba sobre os ouvidos sem brincos. A outra já não pede ou é a outra que já não escuta voz alheia, somente aquela que permaneceu no porão quando a julgava morta. De que valeu tudo se não afogou o incômodo viver? Ah, minha rica mendiga, você não pode imaginar a pobreza em que vivo. Tudo daria, se algo tivesse, para possuir aquela voz.

Minha boa senhora. A noite abre sua boca sobre a cidade. A esmola, quase um grito, quebra o encanto. Rosa finalmente mergulha a mão na bolsa, tira tudo o que tem: duas moedas. Deposita as sobras de si na mão enrugada da mendiga. Cara e coroa na palma. O tinido do metal soa fundo, de forma diferente, nos olhos das duas.

Deus lhe pague, dona. A voz oscilou, não pode ser ela. Lamentou não ter mais para doar. Difícil manter casa à custa de agulha. Não pode ajudá-la tanto. A boca da pedinte sem o colorido dos lábios, o amarelo dos dentes restantes, mas será ela? Como se pode apagar o sol, ai que pereço. Rosa não poderia ser reconhecida pela outra, mesmo que fosse a outra. Fechou a bolsa, o caminho à frente, rumo à igreja, Deus me ampare na solidão que ronda e dorme comigo.

Livre em seus grilhões, anda, quase corre. Na praça, os pássaros buscam o abrigo das mangueiras. Por um instante, parou, o coração aos pinotes, mas não olhou para trás. Em frente, com uma lágrima de velha suspensa no olhar. Conseguiu se abrigar na igreja antes de ver o céu. Lá, uma estrela brilhou solitária confirmando a noite. Fulgurante em sua existência milenar.

(Conto publicado no livro Osculário (lacrado) (2014))

SOBRE O AUTOR – Antonio Coutinho, nascido em Teresina (PI), mora há quarenta anos em Imperatriz, cidade banhada pelo rio Tocantins no sudoeste maranhense. Professor de Teoria Literária da Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão (Uemasul), doutor pela Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT), sendo mestre em Literatura e Crítica Literária (PUC-SP), especialista e licenciado em Letras (Uema). Participa de grupos de pesquisa e tem artigos publicados em revistas especializadas. Autor dos livros Osculário (2004, contos), Lago (2007, romance) e Osculário: lacrado (2014, contos), o qual recebeu o primeiro lugar do Prêmio da Academia Imperatrizense de Letras (2023). Em linhas gerais, sua obra, com linguagem poética, aborda questões existenciais envoltas em situações cotidianas.

Respostas de 5

  1. Texto misterioso, cheio de suspense e poesia. Prende a atenção do leitor. Uma escrita inteligente e instigante.
    Parabéns, Coutinho!
    Bravooo!
    Teka Bom-Fim

  2. Escrita cativante!! Adorei o primeiro conto. Senti que o final ambíguo longe das definições de feliz ou trágico, funciona como uma metáfora que se aproxima ao máximo da complexa condição humana (o real). Voltaram a ser ‘gente’, mas perderam suas liberdades individuais…
    Texto Genial!
    Parabéns, Professor Coutinho!

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