quinta-feira, 22 de outubro de 2026

DIÁLOGOS COM A LITERATURA MARANHENSE: ENTREVISTA COM ESCRITORES E ESCRITORAS – #08 – DAFFÉ: “A PAIXÃO PELA MÚSICA ME PEGOU CEDO”

Publicado em 5 de setembro de 2026, às 10:10

Por Paulo Rodrigues

O cantor e compositor Daffé relembra, nesta entrevista, os vários momentos da sua trajetória musical, que se consolidou com o lançamento do CD “Clareando”, em 1997, e participação em projetos como o “Som do Mará”, um misto de show e formação musical, do qual participaram nomes como Josias Sobrinho, Beto Pereira, Gerude, Ronald Pinheiro, projeto que fez história no cenário da música e da cultura do estado. Também relembra o prêmio Universidade, com o CD “É São João” e vários outros aspectos da sua bela carreira musical. Vale a leitura!.

(Texto publicado, originalmente, no site Sacada Literária)

Paulo Rodrigues – Daffé, Paul McCartney comentou certa vez: “Eu acredito que a música pode curar. As pessoas encontram paz na música”. Você encontra paz na música?

Daffé – A citação de Paul McCartney reflete uma verdade profunda que é observada em inúmeras culturas e contextos. A música tem a capacidade única de ativar áreas do cérebro ligadas às emoções, à memória e à recompensa, podendo modular o estresse, reduzir a ansiedade e até aliviar a percepção da dor. Ela oferece um refúgio, um canal para expressar e processar sentimentos, e um meio de conexão que transcende barreiras.

Com a afirmação de McCartney, entendendo que a música é, de fato, uma fonte poderosa de paz e cura para a humanidade. Isso eu sei muito bem.

 Paulo Rodrigues – Você comenta sempre nas entrevistas que ouviu muito Raimundo Soldado. Ele influenciou o compositor e cantor Daffé? E quais outros cantores chamavam sua atenção?

Daffé – A paixão pela música me pegou cedo, e a inspiração veio de gente grande. Raimundo Soldado, na época o melhor cantor da região, foi meu primeiro ídolo, um verdadeiro farol no meu caminho musical. Junto dele, nomes como João do Vale e Luiz Gonzaga acenderam ainda mais essa chama. Eu lembro que esperava, e até sonhava, com o aniversário do Armazém Paraíba, em Santa Inês. Aquela data era sagrada, a única chance de ver de perto os meus ídolos, de me sentir perto da magia que eles criavam. Aqueles shows eram mais que apresentações; eram aulas, inspiração pura que me moldou e me fez sonhar em estar no palco um dia.

Paulo Rodrigues – Como foi integrar o Grupo Som do Mará? Vocês levavam boa música para o Maranhão e as pessoas ficavam felizes. Ainda precisamos de projetos para divulgar a música do Maranhão?

  Daffé: “O som do Mará”, para mim, foi o melhor projeto que aconteceu no Maranhão em termos de música. Era mais do que simplesmente divulgar nossa arte; era uma iniciativa completa, que unia a gente através da música. Tinha palestras e cada artista tinha a oportunidade de mostrar seu trabalho em sua própria cidade, junto com outros nove artistas de São Luís. Foi incrível dividir o palco e essa experiência com Josias Sobrinho, Beto Pereira, Gerude, Ronald Pinheiro, entre outros grandes nomes que fazem a cultura do nosso Maranhão pulsar.

Paulo Rodrigues – Fale um pouco sobre o seu primeiro CD, que se chamou “CLAREANDO”.

 Daffé –  Em 1997, uma oportunidade inesperada marcou o início de uma nova fase na minha carreira. Fui convidado por Augusto Bastos, cantor e compositor,  para gravar um jingle no renomado estúdio de Seu Nonato e seu conjunto, em São Luís.

Ao final da gravação, Seu Nonato, com sua visão e generosidade, me fez uma pergunta que mudaria tudo: ele queria saber se eu já tinha algum CD gravado. Ao ouvir minha resposta negativa, ele fez uma proposta irrecusável: ofereceu o estúdio para que eu gravasse meu próprio álbum, com a condição de que eu só pagaria quando arrecadasse o dinheiro.

Não hesitei. Essa chance única resultou em um CD de 9 faixas que obteve um ótimo resultado tanto pela crítica quanto pela mídia. Com arranjos de: Edinho Bastos, Henrique Duailibe, Murilo Rego.  Dentre as músicas que mais se destacaram, a canção “Cetim”, uma parceria com Antônio José, e “Eta Pindaré”, de Becão, rapidamente caíram no gosto do público, solidificando meu nome no cenário musical maranhense.

Paulo Rodrigues – Você ganhou o Prêmio Universidade de melhor CD Folclórico de 2010. Qual foi o CD? Fale um pouco para nós sobre a importância dessa honraria.

Daffé – Verdade, em 2010, lancei o CD “É São João”, um trabalho com 10 faixas que marcou um momento especial na minha carreira. Este álbum foi agraciado com o Prêmio Universidade nas categorias de Melhor Música por “Bailarino das Areias” – uma parceria que muito me orgulha com Antônio José – e também como Melhor CD. Todo o projeto foi gravado no estúdio do meu amigo Arlindo Pipiu, com a excelente produção de Ronald Santos e Rui Mário, com Design gráfico de Jesiel Sales Pontes, um time que fez toda a diferença para esse reconhecimento.

Paulo Rodrigues – Como foi a experiência como secretário de cultura de Santa Inês? Você desenvolveu vários projetos culturais importantes. Para muitos foi o melhor secretário de cultura do Maranhão. Qual projeto destacaria para nós? 

Daffé – Apoio irrestrito à produção artística local: nós criamos programas de fomento e editais transparentes que alcançaram  artistas de todos os segmentos, desde os mais tradicionais aos mais experimentais, garantindo que a riqueza cultural de Santa Inês Maranhão fosse plenamente reconhecida e incentivada.

Valorização das tradições: valorizamos o Bumba-Meu-Boi, o Tambor de Crioula, a culinária, o artesanato – todas essas manifestações foram  pilares de uma gestão que buscou preservar e projetar a identidade maranhense, promovendo a transmissão de saberes para as novas gerações.

Inclusão e acessibilidade: trabalhamos os espaços culturais da cidade: Espaço Dona Zima, Praça da Saudade, Viva Lobato… para garantir que eventos e espaços culturais fossem acessíveis a todos, com programações diversas que atenderam a diferentes públicos e necessidades, incluindo pessoas com deficiência e comunidades em situação de vulnerabilidade.

Fomento à educação cultural: investimos em projetos e levamos a arte e a cultura  nas escolas, formando novos públicos e descobrindo talentos desde cedo.

Diálogo constante: foi fundamental manter um canal aberto com artistas, produtores, comunidades e a população em geral, garantindo que as políticas culturais fossem construídas de forma participativa e alinhada com as reais demandas da sociedade.

Festivais – fizemos dois festivais de toadas, valorizando os cantadores de Bumba-meu-boi do estado, um festival aberto pra todos os cantadores no Espaço Viva Lobato.

Um grande Projeto – acredito que um dos melhores projetos do Maranhão, em termos de intercambio cultural, “Santa Inês Recebe”, o projeto valorizou o artista local a o mais conhecido musicalmente. Foram oito meses levando um artista renomado do Maranhão e um de Santa Inês, com patrocínio da equatorial. Projeto em parceria com o cantor e compositor Josias Sobrinho.

Paulo Rodrigues – A música “Bailarino das Areias” é uma das mais tocadas no São João do Maranhão. Conte um pouco da história dessa composição.

Daffé –  A música “Bailarino das Areias”, Música do Boizinho Incantado, hoje um verdadeiro ícone do nosso São João maranhense, alcançou seu status graças, em grande parte, a uma divulgação maciça do Boi de Nina Rodrigues. A verdade é que, atualmente, nem mesmo o Boizinho Incantado toca essa toada com a mesma frequência e intensidade que o Boi de Nina Rodrigues, que a abraçou como um hino.

Originalmente, “Bailarino das Areias” foi o título do segundo CD do Boizinho Incantado. Nós já cantávamos essa toada nos terreiros, e a ideia de gravá-la nos levou ao estúdio de Seu Nonato e seu conjunto, sob a produção de Roberto Ricci. No entanto, durante o processo de gravação, houve uma pausa. Nesse meio tempo, fui para Santa Inês e mostrei a toada para o meu grande parceiro, Antônio José. Ele, então, achou a letra muito curta e, com sua genialidade, adicionou a estrofe final que se tornou um marco: “Dança vem menina, flor divina do cordão, te amarra na minha barra, me guarda no coração”.

Essa é a parte que meu grande parceiro, Antônio José, colocou em “Bailarino das Areias”. Curiosamente, Roberto Ricci, na época, foi totalmente contra essa adição, alegando que toada tinha que ser pequena. Mas a história provou o contrário: a música hoje é um sucesso estrondoso, um clássico que transcendeu expectativas.

Para sentir a magia de “Bailarino das Areias”, veja como era a música antes da estrofe de Antônio José no YouTube: https://youtu.be/Nf7cFGvlm28?si=Hc-zQAN0GVXecDSp.

Paulo Rodrigues – Daffé, como foi dividir o palco com Chico César no Projeto MPB Petrobrás?

Daffé – Marco importante na minha trajetória, e para mim, esse show  foi sem dúvida um divisor de águas. Tive o privilégio de fazer três aberturas de shows do Chico César, e uma delas ficou gravada de forma especial. Foi justamente em 2010, quando eu estava lançando o meu  CD “Canções para Solar”. A energia daquele palco, “MultiCenter Sebrae” a expectativa do público… e o detalhe que tornava tudo ainda mais intenso: na semana seguinte, eu lançaria “O canções para Solar”, no prestigiado Teatro Arthur Azevedo.

Essa experiência foi fantástica, um verdadeiro trampolim que deu uma alavancada significativa na minha carreira. Lembro com carinho que aquela foi a primeira vez que fiz um show no Teatro Arthur Azevedo, e a produção impecável ficou a cargo do talentoso Mário Jorge, com o cenário do talentoso Ruber. Foi um momento lindo, foi maravilhoso, uma noite que selou um novo capítulo e reafirmou minha paixão pela música.

Paulo Rodrigues – Quais são os novos projetos do Daffé?

Daffé – Após um período desafiador na saúde,  estou de volta com novos e inspiradores projetos musicais. Afinal, a música foi meu maior alicerce e processo de cura durante a recuperação,  “A música cura, é o que está me sustentando até hoje.”

Com essa paixão renovada, tenho várias músicas inéditas e planejo  gravá-las para lançar nas redes sociais, garantindo que a minha  arte e mensagem de superação alcancem um público ainda maior. Além do lançamento digital,  pretendo levar minha música e minha  história de resiliência para shows em diversas cidades do Maranhão, reconectando-me com meu  público e inspirando muitos com letras e melodias.

SOBRE O ENTREVISTADOR – Paulo Rodrigues é graduado em Letras e Filosofia. Professor de língua materna e literatura da rede estadual de ensino. Foi secretário de educação de Santa Inês e gerente regional de educação do Vale do Pindaré. É poeta, prosador, ensaísta e jornalista. Autor de, entre outros, O Abrigo de Orfeu e Escombros de Ninguém.Ganhou os prêmios Álvares de Azevedo da UBE/RJ, em 2019; Literatura e Fechadura de São Paulo, em 2020; Marcus Vinicius Quiroga de Poesia da UBE/RJ, em 2024. É membro efetivo da academia Caxiense de Letras e da Academia Poética Brasileira.

SOBRE O ENTREVISTADO – Daffé – nasceu em Coroatá, mas foi criado em Santa Inês (MA). Viveu também em Teresina (PI) e em São Luís (MA). Na sua trajetória musical, recebeu influências de nomes como: Luiz Gonzaga, Marinês e sua Gente, Raimundo Soldado e Papete. Lançou seu primeiro álbum autoral, “Clareando”, em 1997. Integrou o grupo do projeto “Som do Mará”. Tem trabalhos marcantes no Spotify, como Festança Junina, Canções para Solar e Portefólio. Foi Secretário de Cultura de Santa Inês.

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