segunda-feira, 7 de setembro de 2026

SÉRIE MEMÓRIA IMPERATRIZ #05 – Terreiros de Imperatriz: a trajetória da Tenda de Umbanda Nossa Senhora da Conceição

Publicado em 29 de agosto de 2026, às 19:26

Polyana Almeida Frota Lima

A imagem tem autorização prévia da Mãe Meridalva d’Oxum para ser divulgada.
Foto: Polyana Almeida

As religiões afro-brasileiras, como o próprio nome indica, dizem respeito às religiões que foram trazidas para o Brasil pelo povo negro através do processo colonial. Reginaldo Prandi (1998, p. 152) conta que essas religiões “formaram-se em diferentes áreas do Brasil com diferentes ritos e nomes locais derivados de tradições africanas diversas”. Algumas delas são: Candomblé, Xangô, Tambor de Mina no Maranhão e Pará, Batuque no Rio Grande do Sul, Macumba Carioca, Umbanda, entre outras.

Dentre essa diversidade, é possível destacar ainda o Terecô, presente sobretudo na cidade de Codó (MA). O Terecô pode ser denominado também como encantaria de “Bárbara Soeira” (ou apenas “Barba Soeira”), “Tambor da Mata” ou simplesmente “Mata”. Os terreiros da cidade de Imperatriz (MA) possuem grande influência do Terecô, ainda que se denominem Tenda Espírita, Tenda ou Terreiro de Umbanda. Não há, contudo, um consenso sobre a quantidade exata de terreiros existentes no município. Segundo o Pai Augusto d’Oxum, do Recinto Nossa Senhora Aparecida e Caboclo Sete Flechas, estima-se a existência de 20 a 30 terreiros. Vale ressaltar que as pessoas de axé se organizam entre Terreiros, Recintos, Congás e Mesas; ao contabilizar todas essas modalidades, esse número cresce significativamente.

A Tenda de Umbanda Nossa Senhora da Conceição, fundada por volta dos anos 2004/2005, está localizada no bairro Vila Macedo, periferia de Imperatriz, e tem como dirigente geral a Mãe/Ialorixá Meridalva de Oxum. No Brasil, o título de Ialorixá “se dá à sacerdotisa-chefe de uma comunidade-terreiro. O mesmo que mãe de santo. Do iorubá ìyálorìca” (Lopes, 2011, p. 640). Nos terreiros da cidade, existem diferentes maneiras de se referir à dirigente Meridalva: o termo Ialorixá/Babalorixá é reservado para ocasiões mais formais, como em cards e convites para as festas da casa; a palavra “Mãe” surge como um termo mais geral, utilizado pelos visitantes e por mim; diversos Pais/Mães de Santo intitulam-se também como Zeladores de Santo; por fim, o termo “madrinha” possui um caráter mais íntimo, sendo utilizado pelas filhas e filhos da casa para designar os/as dirigentes dos terreiros.

Das festas abertas ao público, destacam-se quatro celebrações principais. A primeira é a “Festa de Nossa Senhora dos Navegantes” ou “Iemanjá”, realizada em 02 de fevereiro, em consonância com o calendário católico. Trata-se da principal festa da casa, data em que também se homenageia a chefe espiritual da tenda, a quem Mãe Meridalva chama de sua “patroa”, aquela que governa a casa, a Cabocla Toia Jarina (ou dona Jarina, como é carinhosamente chamada pelo povo do terreiro). Ela integra um grupo de três irmãs caboclas, composto também por Herondina e Mariana. Nas religiões afro-brasileiras, elas pertencem ao grupo dos encantados, definidos como:

1) seres invisíveis à maioria das pessoas ou algumas vezes visíveis a certo numero delas; 2) que habitam as encantarias ou “incantes”, situados “acima da Terra e abaixo do céu”, geralmente em lugares afastados das populações humanas; 3) que tiveram vida terrena e desapareceram misteriosamente, “sem morrer”, ou que nunca tiveram matéria; 4) que entram em contato com algumas pessoas em sonhos, fora de lugares públicos (na solidão do mar, da mata, por exemplo) ou durante a realização de rituais mediúnicos em salões de curadores e pajé, barracões de mina, umbanda, terecô (religiões afro-brasileiras) e em outros locais onde são chamados (Ferretti, 2008, p. 1).

Dando sequência ao calendário festivo, celebra-se em 29 de junho a Festa de São Pedro ou Xangô, “grande e poderoso orixá iorubano, senhor do raio e do trovão” (Lopes, 2011, p. 1353). Essa celebração tem como um dos motivos centrais a realização da festa de obrigação de uma das filhas da casa, ocasião em que se festeja, sobretudo, uma entidade espiritual da linha dos Pretos Velhos: a Preta Velha conhecida como Vovó Maria Redonda. Em seguida, celebra-se o 27 de setembro, dia de Cosme e Damião ou dos Ibêjis: “O nome Ibêji, referido tanto no singular quanto no plural, provém do iorubá ìbéjì, ‘gêmeos’, cuja raiz é éjì, ‘dois’” (Lopes, 2011, p. 642).

Nesse dia (27 de setembro), Mãe Meridalva e os filhos e filhas da casa realizam ações sociais voltadas às crianças em situação de vulnerabilidade socioeconômica do bairro Vila Macedo e adjacências. Na ocasião, distribuem-se doces, brinquedos e refeições para as crianças da comunidade, além da montagem de parquinho, carrinho de algodão-doce e diversas brincadeiras infantis. Essa festa, segundo Mãe Meridalva, nasce da necessidade de olhar com mais atenção para a infância do bairro. Inspirado por esse propósito, o terreiro fundou o Instituto Cultural Nossa Senhora da Conceição, um projeto social formalizado em seu estatuto em 16 de janeiro de 2015, cujo objetivo é acolher prioritariamente as crianças, mas também as mulheres da comunidade.

Por fim, no dia 08 de dezembro, celebra-se a Festa de Nossa Senhora da Conceição e também Festa de Oxum, a “orixá iorubana das águas doces, da riqueza, da beleza e do amor” (Lopes, 2011, p. 986). Homenageia-se, nessa data, a padroeira da Tenda e a divindade para a qual Mãe Meridalva dedica suas palavras:

Quando eu decidi colocar minha mesa (a gente decide e é escolhido ao mesmo tempo, sabe?) aí eu decidi que a santa da minha mesa, a dona da minha casa vai ser minha Nossa Senhora da Conceição que é a santa que eu tenho a minha devoção, não é? (Mãe Meridalva, informação verbal, 02 de fevereiro de 2020).

A Tenda de Umbanda Nossa Senhora da Conceição é composta em sua maioria por médiuns mulheres. Essa característica não é exclusiva desse espaço: nos terreiros dessas religiões isso é uma característica que historicamente se destaca e, em  Imperatriz, as mulheres exercem papel protagonista e quantitativamente superior, atuando tanto no sacerdócio (alta hierarquia) quanto como médiuns. Hélen Jardim e Dulce Voss (2022, p. 9) afirmam que essas comunidades umbandistas “preservam valores afro herdados dos antepassados. São marcas de ancestralidades que potencializam a afirmação ética e estética da vida vivida pelas comunidades litúrgicas dos povos dos terreiros e coletividades afro-brasileiras”. Rosinalda Simoni, ao refletir sobre a história do Candomblé no Brasil, passagem que se cruza inevitavelmente com a Bahia, demonstra como essas “mulheres exerciam o papel de sacerdotisas, conselheiras sociais e articuladoras políticas”; mais do que isso, aponta que ainda hoje essas mulheres “são reverenciadas e seus pensamentos atemporais ainda impulsionam os movimentos de mulheres” (Simoni, 2019, p. 297).

REFERÊNCIAS

FERRETI, Mundicarmo. Encantados e encantarias no folclore brasileiro. Apresentado no VI Seminário de Ações Integradas em Folclore. São Paulo, 2008.

JARDIM, H. O. S.; VOSS, D. M. S. MULHERES NEGRAS UMBANDISTAS: laços de ancestralidade afro. 9º Seminário Brasileiro de Estudos Culturais e Educação, 23 a 26 de maio de 2022.

LOPES, Ney. Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana. [recurso eletrônico]. 4ed. São Paulo: Selo Negro, 2011. Recurso digital: il.

PRANDI, Reginaldo. Referências sociais das religiões afro-brasileiras: Sincretismo, Branqueamento, Africanização. Revista Horizontes Antropológicos. Porto Alegre, 1998.

SIMONI, Rosinalda Côrrea da Silva. Ancestralidade feminina: da essência do sagrado aos movimentos feministas, mulheres negras e representatividade. FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 29, n. 2, p. 293-300, abr./jun. 2019.

SOBRE A AUTORA – Polyana Almeida Frota Lima – Doutoranda em Sociologia e Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Pará (PPGSA/UFPA). Bolsista pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES); Mestra em Sociologia pelo (PPGS/UFMA); Graduada em Teologia Pastoral pela Faculdade de Educação Santa Terezinha (FEST); Graduada em Ciências Humanas/Sociologia na (UFMA/ITZ); Especialista em Mariologia pela Faculdade Dehoniana e Academia Marial de Aparecida; Membra dos Grupos de Pesquisa: MENSMEMINI-Religião, Memórias e Trajetórias da UFMA; As Interfaces da Antropologia na Teologia Contemporânea ligado à (FAJE); Antropologia Visual – VISAGEM da UFPA. Membra e Titular em uma das cadeiras do Instituto Histórico e Geográfico de Imperatriz (IHGI); Membra da Associação de Defesa e Ancestralidade das Mulheres de Axé do Maranhão (DANDAXÉ); Sócia da Academia Marial de Aparecida; Membra da Associação Brasileira de Mariologia (ABM).

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