UM AMOR DE CARTAS…
Certo dia, Diva foi à minha casa e contou-me:
— Arranjei uma paquera, mas eu só conheço ele da revista.
Naquele tempo, havia nas revistas “Sétimo Céu” e “Contigo”, uma seção denominada “Correios do Amor”, para a qual os leitores enviavam foto e perfil, intencionando arranjar namoro e/ou casamento.
O perfil deveria conter informações do tipo: signo; trabalho; grau de escolaridade; além de outros detalhes de interesse do(a) candidato(a). A pessoa poderia acrescentar algumas informações que dissessem respeito à sua preferência musical, lugares que mais apreciava na natureza, seus hábitos, sua rotina, cores preferidas e pratos prediletos. Sobre características físicas e “modos de ser”, tornavam-se assuntos para tratar por meio de cartas.
Diva mostrou-me a página destacada da revista e continuou a falar detalhes sobre o rapaz:
— Ele mora em São Paulo, eu estou apaixonada e quero que você me ajude, amiga!
Imediatamente, perguntei-lhe:
— O que você quer que eu faça?
— Você pode escrever as cartas pra ele como se fosse eu.
Foi o que ela me propôs. Concordei na hora! Qual seria o problema, eu ajudar uma amiga a namorar a distância um rapaz? Quem sabe até com ele se casar?
A cada quinze dias, Diva me fazia uma visita. Às vezes ela trazia uma carta que havia recebido do rapaz. Eu lia com atenção e, muitas das vezes, não conseguia segurar a emoção. Quero dizer que, naquele mesmo instante, já me vinha inspiração para a resposta escrever. Os pensamentos eu não conseguia controlar. Esquecia-me de que o namorado não era o meu, era o de minha amiga. Coisas do coração conduzindo a minha escrita.
O tempo foi passando… Saudade apertando o peito, desejos de abraços e beijos… Vontade de “olhos nos olhos”, ver, ouvir, sentir o que o outro diz…
Em tempos de parcos recursos tecnológicos, tudo era feito à mão. Sentada ao meu lado, Diva ia “ditando” seus desejos, sensações na expectativa de conquistar o coração do rapaz. Eu ouvia, compreendia e me punha a registrar no papel.
Cartas pra lá, cartas pra cá, declarações de amor, mimos e promessas. Até que um dia, o rapaz mandou uma carta diferente, com uma notícia que (nos) abalou:
— Quero ir ao seu encontro, minha amada. Conhecer seus pais. Pedir sua mão em noivado.
Naquele instante, senti terrível frio na barriga, tremelique nas pernas, uma aflição descomunal. Falei comigo mesma: “Onde é que eu fui me meter a mandar cartas de amor para um amor que não era o meu?”
O jeito foi deixá-lo vir, quem sabe, a minha amiga, sendo tão diferente de mim, conseguiria conquistar o coração do rapaz?!
Até hoje não sei o que aconteceu. Saí de férias e viajei. Só mesmo a Diva poderia nos contar melhor essa história outra vez…
MUDAR DE NOME?
Os balões pequenos e coloridos eram trazidos pelo pai, das viagens que ele fazia como caminhoneiro. Tudo era simples, pouco ou quase nada de decoração. Semanas antes do grande dia, a menina escutava dos vizinhos e familiares: Você tá virando uma mocinha, mês que vem vai mudar a idade.
Pra início de conversa, a menina não gostava do próprio nome. Todos a chamavam de Teresinha. O pai lhe deu um apelido – Sibita, pior ainda! Com o pai, ela não se importava, levava na brincadeira. Mas como criança vive num terreno fértil de imaginação, Teresinha não via a hora de mudar de idade e de nome. Para ela, Brigite, Sophie, Adelie, Fernanda, Laura, estes eram nomes elegantes, que ornavam com o seu sonho de ser artista.
O dia era especial, o clima de festa, sensacional. Bolo redondo, alto e fofo, de laranja, com raspas de casca da fruta para enfeitar e soltar um aroma gostoso no ar, biscoitinhos amanteigados, K Suco de guaraná, tudo feito pela mãe.
A cantiga de parabéns, ela já havia ensaiado, tinha de ser a do Palhaço Carequinha, a que era o hit daquele momento e a menina aprendeu escutando no rádio: “Chegou a hora de apagar a velinha, vamos cantar aquela musiquinha: Parabéns pra você, parabéns pra você, pelo seu aniversário! Que Deus lhe muita saúde e paz e que os anjos digam amém!”
A garotinha estava radiante e muito ansiosa também. Minutos antes da cantoria, ela se apressa pra perguntar, cochichando ao ouvido da mãe, puxando-lhe pela barra da saia:
— Mãe, mãe, eu posso mudar meu nome?
Franzindo a testa, arregalando os olhos, a mãe, aborrecida, responde em voz alta:
— Claro que não, menina! Onde já se viu uma coisa dessas? Que tanta ansiedade é essa?
De pé em cima de uma cadeira, que mais parecia um pequeno palanque, a menininha reage, e solta a voz em alto e bom som:
— Ah!… Que chatoo!! Mas eu não “tô” mudando de idade?!
BÊNÇÃO, MONSENHOR!
Ler em voz alta com graça e entonação, eu já sabia, desde menina. Discursar para uma plateia, no aniversário do vigário, só com ensaio e os ensinamentos de Dona Maroca.
Após a missa na igreja Matriz, em Caxias do Maranhão, os parabéns ao Padre Mendes eram uma tradição. Por três ou quatro anos consecutivos, eu li, ou melhor, eu declamei o discurso de Parabéns na solenidade. Na verdade, não havia jeito de ser diferente, é que depois de tantos ensaios, o discurso eu já sabia “de cor e salteado”.
Naquele 23 de janeiro de 1968, eu tinha apenas oito anos de idade, garotinha desinibida, que gostava de ler e se apresentar em público. Segurando a folha de papel do discurso feito, à mão, por dona Maroca, “passado a limpo” à máquina de datilografia. De pé sobre um pequeno tablado, olhei nos olhos das pessoas, especialmente, dirigi o meu olhar para o reverendo Padre Mendes
À medida que eu ia ‘recitando o discurso’, Padre Mendes não tirava os olhos de mim, como que me encorajando e gostando do que via e ouvia. Ele, um senhor alto, esguio, sorriso brando… Eu, pequenina, alegre e desembaraçada.
Ao finalizar o discurso, eu disse a famosa e costumeira frase dos discursos daquela época:
— Tenho dito!
Imediatamente, bateu palmas o vigário. E disse alto e bom som:
— Parabéns! Achei bonito!
Emocionada, eu não me contive:
— Como assim, meu Deus do céu? No aniversário do Padre, quem recebeu aplausos fui eu!?

SOBRE A AUTORA – Tereza Bom-fim é professora Titular da UFMA/CCim, em Imperatriz (MA). Pós-doutora em Letras pela UNESP-Araraquara (SP), doutora em Educação Brasileira na Universidade Federal do Ceará (UFC), Publicou: A Literatura Infantil para Maiores de Dezoito Anos (2018); Asas da Imaginação (2013); O livro-de-imagem: um (pre)texto para contar histórias (quatro edições), em 2001; Professor-leitor: de um olhar ingênuo a um olhar plural (2007 e 2022); Um lobo total mente mau? (2021); À Flor da Pele (narrativa poética); Ditos & Feitos (poesias).Atuou como leitora-votante para a FNLIJ, no período de 2004 a 2016. É membro da Academia Imperatrizense de Letras desde 2005.