
A ONÇA
Numa tarde de outubro, o silêncio do pôr do sol foi quebrado pelo choro de uma menina que acabava de nascer, num lugar chamado Suçuarana, nas terras do sertão nordestino. Sua mãe lhe deu o nome de Mariana, pois, na hora do parto, valeu-se de um pedido de socorro à Senhora do Céu, Mãe de Jesus, a quem lhe atribuiu o milagre de tirar o laço do cordão umbilical do pescoço da menina. A outra parte do nome, “ana”, em homenagem à onça Suçuarana, lugar do seu nascimento.
À medida que crescia, a menina ouvia de sua mãe a história de que era forte e esperta. Além da habilidade para nascer, carregava dentro de si uma onça Suçuarana, identidade dada às mulheres que pertenciam ao lugarejo. Lhes eram atribuídas a coragem, a agilidade e a leveza, além de um olhar luminoso, que quebrava a escuridão da mata com o reflexo da lua nos próprios olhos.
A mãe de Mariana gostava de brincar com seus cabelos encaracolados e de cor acastanhada, dizendo-lhe sempre que toda mulher era uma onça parda quando necessário. Até os dois anos, a menina Mariana teve uma babá que ajudava sua mãe nas tarefas da casa e nos seus cuidados. Lá, chamavam “mãe de leite”. Era a Ginú, uma moça velha que não se casara e que, sendo sonâmbula, costumava sair à meia-noite pelo caminho da mata para viver seus sonhos e voltar de madrugada… Até que, um dia, nunca mais voltou. Há relatos, entre os moradores do povoado, de que Ginú foi devorada pela onça Suçuarana, que, como um leão, uma vez em suas garras, não escaparia. Outros diziam que a própria Ginú teria se transformado numa Suçuarana e que vivia solitária no meio do mato, aparecendo de vez em quando para assombrar os homens da redondeza. Entre tantas histórias, o certo é que nunca mais foi vista.
Mariana, no entanto, crescia aos cuidados da mãe e só levantava da rede todas as manhãs se o seu pai a viesse acordar, colocá-la no colo, antes que pegasse o seu saco de estopas e atravessasse a porteira até desaparecer na chapada adentro, de onde trazia o sustento da casa. Sendo a caçula da família, Mariana não acompanhava os outros três irmãos nos trabalhos domésticos e da roça, sobrando-lhe tempo para brincar e inventar muitas travessuras.
O CAMINHO DA LUA
A menina Mariana, já crescida de cinco anos, foi morar no interior vizinho de Suçuarana, Alto Alegre, onde habitavam outras crianças parentes, seus tios e avós. Nas noites de lua nova, era costume de todos se encontrarem no terreiro da casa da avó Marcelina para enluará ao som de conversas e cantigas de roda. Como Mariana, as crianças que moravam um pouco mais distantes da casa da avó costumavam ir ao encontro em fileiras pelo caminho, em companhia de seus pais. Nesse percurso, na ausência de luz elétrica, muitas experiências eram vividas com certa magia: os sons noturnos e estranhos da mata, que causavam medo e curiosidade; o toque das pontas dos dedos do pé na areia fina do chão da estrada; a brisa leve da noite, que balançava os cabelos; as gotas das plantinhas que guardavam orvalho e molhavam a pele; o cheiro de mato verde; dos pés de manguita anunciando que a fonte da vovó estava perto e do perigo de atravessá-la por uma ponte improvisada com restos de caules de palmeiras… Mas nada mais impressionava a menina Mariana do que a visão da lua no céu estrelado, que refletia em seu corpo e criava a sombra no chão, aguçando sua curiosidade de tudo querer entendimento, com suas intermináveis perguntas.
A menina observava que a lua acompanhava cada passo que ela dava; ao mesmo tempo, parecia não sair do lugar, trazendo um universo de dúvidas: “É a lua que me segue? Ou será eu que sigo a lua?”, “Por que mesmo caminhando tanto, parece não sair do lugar?”, indagava a menina, totalmente tomada pelo mundo da imaginação, à procura das respostas antes que avistasse as outras crianças, que lhe aguardavam com brincadeiras.
Mariana gostava tanto da lua que às vezes diminuía os passos para permanecer na sua companhia por mais tempo, pois sentia-se banhada pela sua luz e em profunda conexão com a estrela-astro. Fazia círculos de dança pelo caminho refletindo na pupila de seus olhos o brilho da lua, até que sua mãe quebrasse o encanto, lhe chamando atenção para este mundo, pois a menina parecia hipnotizada. Assim, em todas as noites de lua a menina queria caminhar, pois era o movimento do caminho que a tornava mais próxima da lua e que tornava suas perguntas de proporções gigantescas. E, com os pés no chão e a cabeça na lua, Mariana parecia se diferenciar um pouco mais da maioria das crianças daquele povoado, na sua curiosidade e formulação de perguntas, ao mesmo tempo em que carregava dentro de si cada uma delas, na sua capacidade de experienciar o mundo, pois é próprio da criança ter os sentidos do corpo aguçados para a vida: ver, ouvir, tocar, sentir, cheirar e saborear, faltando-lhes apenas, muitas vezes, a possibilidade de aprimorar essas habilidades humanas. Foi o que aconteceu com a maioria das crianças daquele povoado, já que não havia escola infantil, sendo improvisada apenas uma casa de taipa, coberta de palha, para o ensino dos adultos daquela região, nas terras do pai de Mariana. Não havia lugar para a menina naquela escola, mas queria tanto aprender sobre os movimentos da lua que pegou sua cadeirinha de espaguetes e sentou-se entre os adultos para estudar, causando espantos com suas perguntas. Seu tio, professor aprendiz das primeiras letras, chegado da capital, que ensinava o ABC e tabuada, ficou impressionado com a menina, aconselhando seu pai a levá-la para a cidade.
DEPOIS DA FRONTEIRA
Encabulado com a desenvoltura de Mariana para os estudos, seu pai vendeu suas poucas cabeças de boi, comprou uma casa muito simples na periferia da cidade, levando a família para lá habitar. Na viagem de mudança do campo para a cidade, a menina se encantou com os postes de energia pela estrada. Não os conhecia. Queria saber como poderia circular energia por aqueles fios ao mesmo tempo em que eles serviam de uma linha de pouso de passarinhos na imagem que vislumbrava no horizonte. Na noite da sua chegada à cidade, uma tempestade arrancou o teto da casa que agora era a moradia, levando parte das palhas. De um canto, Mariana abraçava sua mãe e irmãos, e, por instantes, o medo foi quebrado pela curiosidade de saber o que provocava tamanho estrondo no céu e raios de luz radiante que quase cegavam seus olhos de suçuarana. Em meio ao frio daquela noite, seu desejo de chegar à lua crescia, afirmando em meio às rajadas de vento e relâmpagos a promessa de ler todos os livros até que conseguisse as respostas para as suas perguntas silenciosas, enquanto observava os rostos de sua mãe e irmãos adormecidos a cada raio de luz, e que logo enfrentariam mais um dia de trabalho. E todas as noites, da janela daquela casa, localizada numa encruzilhada escura e afastada do centro da cidade, o olhar de onça de Mariana caminhava na direção da lua no céu estrelado, criando novas perguntas, novas respostas.
Com o tempo, a menina suçuarana cresceu, estudou e, como cientista na universidade, retornou às margens da periferia da cidade. Lá, sussurra, juntamente com outras pessoas, que também aprenderam a caminhar com a lua, novas descobertas para tornar a vida mais humana e comunitária.
Mariana nunca deixou de atravessar a fronteira que separa o campo da cidade.
Volta ao povoado de nascença e infância, veste sua pele de onça parda e sai pela noite, no caminho da lua nova, para encontrar parentes e contar histórias antigas de vida!

SOBRE A AUTORA – Maria do Socorro Borges da Silva é natural de Caxias/MA. É doutora e mestre em Educação, especialista em História Política Contemporânea, graduada em História e professora da Universidade Federal do Piauí, no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGED/UFPI) e no Departamento de Fundamentos de Educação (DEFE/CCE/UFPI). Coordena a Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos do Piauí (REBEDH-PI). É membro do Instituto Histórico Geográfico de Caxias – MA (IHGC). Publicou, entre outros, os livros: “De Cidadão Persi a Mulher Maravilha: professoras capulanas do educar em direitos humanos” (2019); “Janelas do Devir” (2020), na coleção Mulherio das Letras; “Filosofia do chão: experiências e criações de professoras no educar em direitos humanos” (2022) e vários artigos em livros e em periódicos qualificados. Participou de diversas coletâneas, nacionais e internacionais. E-mail: [email protected]. Instagram: @socorroborgessofia