CAPÍTULO 6
Arlo Guilhães, o erudito
Pouco se sabia sobre Arlo, de aparência alta e esguia, possuía nariz avantajado e lábios grossos em um rosto comprido, quando não estava lendo, era visto trabalhando na escola da vila como professor, em seu tempo livre gostava de escrever na varanda de casa onde ainda vivia com sua mãe, não tinha amigos e não gostava das programações comuns da vila, mas não se sentia sozinho quando estava consigo mesmo, ele sabia que só ele mesmo poderia entendê-lo de verdade.
Colecionador de fracassos românticos, sua inteligência na hora de dialogar atraía admiradores, mas sua natureza solitária o impedia de se conectar, sempre terminava por se decepcionar com a essência rasa de seus interesses românticos, que julgava ser entediantes após alguns meses ou semanas. O histórico familiar de tragédias o tornou cético sobre o futuro, acreditava que os seres humanos atingiram seu limite de evolução e estavam fadados a sempre estragar o que tocavam, odiava como eles tomavam o que não lhes pertencia, fosse a esperança dos menos privilegiados a suas terras, o cenário caótico era usado como escada para os mal-intencionados triunfarem.
Dona Anaya se empenhava em renovar a fé do filho na humanidade:
— O céu ainda é azul, isso o ser humano não pode mudar, meu filho
— Só porque não podem tocar lá.
— Se você perder a fé nas pessoas estará perdendo a fé em você. Pessoas sem fé não mudam nada, é um desserviço ao mundo, não são nada além de desistentes. Os Gilhães não desistem, eles sobrevivem, e a sobrevivência é o começo.
— Não pretendo desistir da minha missão, minha mãe, minha teimosia em não ser parecido com a maioria há de se tornar uma educadora.
Arlo tinha certeza de que o que ensinava na escola era insuficiente para os jovens, apenas uma maneira padronizada de condicionar sem considerar as aptidões e afundava cada vez mais em livros para escape, sua tristeza em ver seus alunos desistirem dos estudos por carreira militar ou para trabalhar nas fazendas em péssimas condições o frustrava mais a cada dia, não conseguia ver sentido nessas escolhas e sabia que no final os diferentes caminhos terminariam igual, uma vida sem conhecer o que realmente importa, com tão poucas criações, guiado por suas emoções; renunciou a seu emprego na escola, decidiu que ensinaria por conta própria o que julgava ser importante.
Ele começou a oferecer aulas no galpão abandonado que um dia fabricara ouro roxo, iniciou com três alunos, avaliava seus interesses e oferecia aulas diferentes para cada um. Logo os três alunos se transformaram em dez, depois vinte, dentre eles mulheres, crianças e homens. O galpão logo ficara apertado. Arlo ensinou a seus alunos as noções básicas sobre artes que aprendeu em seus livros, e seus alunos logo se transformaram em pintores, escultores, escritores, artesãos, leitores, dançarinos. Aprendizes se transformaram em mestres, logo uma comunidade à parte nasceu, foi denominada de Os Grilos, a vila ganhou cor, sua população ganhou espetáculos e exposições, e as obras atraíam o interesse de compradores vindos de longe.
Os Grilos eram amados pela população, mas com o pretexto de se tornarem mais capacitados e focados Arlo os instruiu a se mudarem para criarem um assentamento, um lar próprio afastado da vila feito com muros de pedras coloridas e portões de ferro, acima do grande monte vermelho limítrofe. Nessa nova morada somente os Grilos eram permitidos viver, como precaução para conversar os saberes puros e constantes. A ideia se concretizou, e logo a vila de nome Baluarte foi construída, com o passar dos anos o tamanho dos muros aumentou e as casas se multiplicavam cada vez mais, os artesãos foram recrutados para criarem e usarem armas em prol da defesa e ordem, as leis eram claras: qualquer grilo que não produzisse ou interferisse na paz seria castigado em praça pública, o governo foi assumido pelos 3 Grilos Superiores, a primeira geração de alunos de Arlo, cada um responsável por um ministério: justiça, obras e comércio, com o passar do tempo se tornara raro Grilos serem avistados fora de sua cidadela.
Arlo se tornou cada vez mais recluso e obcecado por conhecimentos, em sua consciência ele sabia ser o verdadeiro e único responsável por uma nova civilização, e esta ainda não era boa o suficiente para ele, passava dias sem sair de seu forte, cercado apenas por livros, dona Anaya e Dario iam procurá-lo com frequência, mas sempre os despedia nos portões porque não conseguiam contatá-lo. Arlo deixou de comer e beber, julgando serem necessidades frívolas, seu cérebro alcançaria um grau maior de evolução, ele começou a escrever o que seria um manual de como criar uma civilização superior a todas, para alcançar seus objetivos era necessário matar sua fraqueza, a mais remota conexão com sua humanidade deveria ser extirpada por um bem maior, e de repente Arlo deixou de existir, não atenderia pelo nome de Arlo de novo, não era mais um ser humano, apenas uma autointitulada Corvo Iluminado. Dona Anaya sentiu em seu âmago, perdera mais um filho.
A vila de Baluarte começou a ser vista com curiosidade e desconfiança pelo resto da região, e logo começou a ser investigada, quando invadida por autoridades chegaram à conclusão de que as obras produzidas ali eram perigosas, e queimaram a vila inteira. Baluarte derreteu de volta à terra, os Grilos remanescentes fugiram e começaram a viver como nômades, até serem extintos. Nunca se soube ao certo o que foi encontrado em Baluarte de tão perigoso a ponto de precisarem queimá-la inteira, alguns suspeitam que a própria cidadela tenha incitado o medo das autoridades por rejeitarem se curvar, para sempre lembrada como Baluarte, a emancipada.
CAPITULO 7
Dario Guilhães, o remanescente
Não era fácil ser o último dos filhos de Dona Anaya Guilhães que sobrara, para Dario o mais amoroso dos filhos, embora o mais esquecido por sua mãe, dono de uma pele dourada, rosto redondo e olhar cálido, ver sua mãe definhar por tristeza era doloroso. Após a destruição de Baluarte e consequentemente a de Arlo, sua mãe havia se enclausurado em casa, nenhuma janela era aberta, nenhuma visita aceita.
Dario estava noivo há dois anos, economizou o suficiente com seu trabalho de alfaiate para ir embora e começar uma vida com sua noiva em outro lugar, abandonaria seu lar repleto de tragédias e memórias, ele amava Emiliana e por ela valia a pena. Os dois se conheceram em uma das serestas de Amaro, foi amor à primeira vista, quando caminhou para tirar sua mão para uma dança enquanto ela estava sendo guardada por seu ciumento pai, dono do único bar da vila, teve receio de causar uma impressão ruim, mas Emiliana se antecipou e, antes de ouvir a resposta de seu pai, aceitou o convite, conversaram a dança inteira sobre seus sonhos, o de Dario de abrir uma loja de roupas e o de Emiliana, de lecionar em uma universidade, suas mãos tinham se encaixado perfeitamente e naquela noite teve certeza do seu futuro, dali em diante seguiu tentando amolecer o coração ciumento do pai de Emiliana, fabricando várias roupas para o senhor que não confiava na fama que o sobrenome de Dario havia conquistado, porém, com nove meses de namoro escondido, enfim conseguiu a benção do pai da moça e de dona Anaya, que via a jovem como uma filha, pedira sua mão em uma noite de luar em frente à beira do rio.
Porém, Dario não conseguia ser feliz enquanto sua mãe padecia, sentia culpa por raiva de seus irmãos por deixarem a árdua tarefa de cuidar de sua mãe em suas mãos, logo ele que jurava ter alcançado felicidade de uma vida tranquila, sempre responsável e amoroso. Dario começou a passar quase todo seu tempo livre cuidando da sua mãe, ele cozinhava, limpava a casa, lavava as roupas e providenciava o que era necessário, mesmo contra a vontade de Dona Anaya, que não queria se tornar um fardo.
— Você deve ir embora com sua noiva, e viver ter tudo que seus irmãos não tiveram.
— Eu estou tendo tudo que meus irmãos não tiveram, mamãe, estou tendo consideração para com a senhora.
Logo as atitudes de Dario entraram em conflito com as opiniões de Emiliana, sua noiva dera um ultimato, ele teria que escolher entre uma vida com ela ou uma vida solitária, ele respondeu que nunca se sentiria sozinho enquanto sua consciência tranquila o aquecesse pela noite. Emiliana, que se recusava a continuar vivendo em um pedaço de fim de mundo, partiu sozinha para a capital.
Dario não se arrependeu de sua escolha, nunca havia considerado ser uma escolha de verdade, pois nunca tivera dúvidas, sua mãe cuidara dele e de seus irmãos sozinha não a abandonaria agora e, além disso, amava Emiliana demais para condená-la a uma vida de infelicidade e viuvez precoce, pois acreditava, no fundo de seu coração, que os filhos do capitão Gilhães haviam sido amaldiçoados a pagarem pela maldade do pai.
Com o passar dos meses, a tristeza dominou a casa dos Gilhães, nem parecia que aquela casa já fora lar de tanta música, comida e esperanças. Dario começou a recorrer ao álcool para suportar a monotonia. Ao enxergar o fantasma do falecido Capitão espreitar seu filho, Dona Anaya tomou uma drástica decisão.
— Você deve ir embora, prefiro arrancar meus próprios olhos a ter que assistir sua morte, então antes que morra vou lhe matar em meu coração, a partir de agora me considero uma mãe sem filhos vivos. – Declarou Dona Anaya
Entretanto, Dario se recusou a atender o pedido da mãe, diante a expulsão de casa passou a viver escondido na casa, em suas brechas e paredes ocas, sua mãe já não enxergava direito e tinha certeza de que os ruídos que ouvia eram os fantasmas do passado lhe assombrando, mas Dona Anaya tinha certeza de que tinha um Anjo da guarda cuidando dela, remédios apareciam ao lado da cama, suas roupas apareciam limpas e dobradas, a residência amanhecia limpa e a cozinha era reabastecida com frequência.
Com o passar dos meses, Dona Anaya estava cada vez mais debilitada, a solidão se tornou sua companheira, uma noite antes dormir, ao abrir o álbum de fotos da família, recebeu a visita de todos que um dia já amara, sua mãe e seus sete filhos, seu quarto se tornou um branco luminoso com vista para as estrelas, quando de repente viu seu filho Dario ao leito de sua cama implorando que ficasse.
— Então já estás morto e veio me buscar, você o último dos meus meninos. — Disse Dona Anaya com uma voz cansada.
— Ainda estou vivo e a senhora também, permaneça viva, minha mãe.
— Você teve uma boa vida longe daqui, meu menino, teve? — Questionou dona Anaya com uma voz falhada, olhar urgente e com lágrimas nos olhos.
Dario segurou o choro e hesitou ao responder, sabia em seu íntimo que chegara a hora, sua mãe delirava em seu colo, e não havia desistido dele, mas se sacrificava a viver o resto de seus dias sozinha para ele ter uma chance de felicidade antes de morrer.
— Tive, minha mãe, eu tive a melhor vida que um Gilhães poderia ter tido.
— Que bom, meu menino, que bom! — Respondeu a senhora, fechando os olhos molhados e sorrindo de uma orelha a outra.
Dona Anaya Célia Maria Gilhães foi enterrada em uma manhã ensolarada embaixo da grande palmeira de ouro roxo retorcida em dois, o céu brilhava em um azul intenso, o vento forte cantava e espalhava folhas roxas pelo ar, ouvia-se o rio agitado quebrando contra as pedras a metros de distância, toda a vila compareceu ao enterro e lamento. Durante a cerimônia, Dario se pronunciou:
— Dona Anaya viveu pelos sete filhos
Os filhos viveram para si mesmos
Ela plantou em seus filhos o que não viu em homem nenhum
O que não recebeu de seu marido, nem de seu pai
Mas estava feliz com seu destino porque acreditava que entre receber e dar amor
O melhor era amar, então ela amou em abundância.
Ela parou de procurar pelo amor
De amor ela teve sete vidas
Parou de procurar pela morte
Pois morreu sete vezes em vida
Agora ela percorre o caminho de volta
O caminho que trilhou para ser criada
O caminho que a leva de volta para onde sempre desejou.
EPÍLOGO:
Após dois anos de luto, a casa Gilhães renasceu de um casamento, de janelas e portas abertas dava para ouvir a música entoada de longe, o cheiro de vatapá e pato ao tucupi preenchia o ar, as palmeiras chacoalhavam com o vento forte, capim-areia e capim-dos-pampas contornavam toda a extensão com suas plumas dançando ao ar. Crianças brincavam na varanda, mulheres e homens se amontoavam na cozinha, a casa cheirava a alegria.
Após a morte da mãe, Dario assumiu a missão de reparar o sobrenome da família, reuniu todos os filhos perdidos de Amaro, os acolheu em casa e tornaram-se família, ajudou a viúva de Caetano a montar um mercadinho bem-sucedido para sustentar os filhos e netos, negociou com pescadores para fornecerem frutos-do-mar para o restaurante chamado Pescador Amaro, que fundou com a parceria com os Grilos nômades que viviam nos limites da vila. O restaurante era decorado com pinturas de ondas do mar nas paredes feitas pelos Grilos artistas, animado pelos Grilos músicos, suas mesas e cadeiras fabricadas por Grilos artesãos.
O Gilhães remanescente tinha se aproximado da viúva de Rochedo, que dera à luz a uma linda garotinha de olhos doces e cabelo cacheado loiro sendo chamada Margarida, Dario ajudava a viúva em todas as suas necessidades e se apegou à criança, se viu apaixonado pela mulher gentil e bela dentro de quatro meses, quando descobriu ser correspondido pediu sua mão com as estrelas como testemunhas, realizou o casamento em sua casa, ao ar livre, com apenas Margarida e sua família como convidados, interrompeu a cerimônia para declarar:
— Que daqui em diante minha esposa seja conhecida apenas como Dona Cornélia.
O casal foi feliz enquanto viveram, tiveram quatro filhos, Dario amou a pequena Margarida Rochedo como uma filha e o sobrenome Gilhães sobrevive até hoje.

SOBRE A AUTORA – Gabriella Araújo cresceu em Imperatriz, Maranhão. É enfermeira, pós-graduada em Auditoria em Serviços de Saúde, autora de “O Que Acontece Quando o Pássaro Bate as Asas” e coautora de antologias literárias.
Escreve contos e romances porque se interessa pelas pessoas, pelas lembranças que elas carregam.
Entre os autores que mais a acompanham estão Fiódor Dostoiévski, Clarice Lispector, Sylvia Plath, J. D. Salinger e Gabriel García Márquez.