CAPÍTULO 3
Cícero Gilhães, o homem cigarra
Cícero um dia, ao se enxergar de verdade através do espelho, constatou ter uma beleza nunca vista nas redondezas que só passava despercebida quando começava a cantar, sua voz emitia vibrações que poderiam ser sentidas pelo mais estoico indivíduo. Ao contrário de Amaro, ele não queria oferecer um pedaço do exterior para seu lar, na verdade, ele queria ofertar algo do seu interior para aquela vila, ele ficaria em casa e lá construiria uma reputação para o alívio de sua mãe. Começou a fazer serestas todas as noites na beira do rio embaixo de uma tenda colorida com varal de luzes, mesas e cadeiras dispostas por todo o pátio, todos vinham assistir e dançavam até alta madrugada.
— Você não tem medo de esgotar sua voz de tanto usá-la, meu filho? — Questionou Dona Anaya
— Tenho mais medo de não a usar, minha mãe, não sei ser quando não estou cantando — Respondeu Cícero
— Só deixarás de ser se opuseres a fazer isso. – Argumentou a senhora
— Mas só quero ser se for desse jeito. – Concluiu Cícero
— Esse é o problema das crias — Lamentou Dona Anaya.
Anos se passaram e as serestas nunca cessaram e as pessoas nunca deixavam de comparecer. Nesse meio tempo, Cícero conquistou vários amores e desses amores vários filhos. Muitas canções nasceram dessas paixões, porém Cícero não tinha tempo para ser pai nem marido, só tinha tempo para cantar, sabia ser amado, mas não sabia como amar, sua voz ocupava todo seu ser, não restava espaço para nada além.
Entretanto, conforme sua apresentação seguia invariável, sua voz se metamorfoseava a cada noite, se tornara rouca e atraía cada vez menos espectadores, logo comer perdeu seu prazer, pois todo alimento descia com dificuldade. Cícero travava uma batalha a cada noite enganando a dor em sua garganta como podia, até sua voz erguer bandeira branca e se despedir da guerra no meio de uma seresta, deixando toda a plateia à espera de qualquer som, mas tudo que viam era Cícero mover sua boca sem nada emitir. Após dias em repouso, o cantor tinha certeza de que sua parceira voltaria descansada e renovada, mas com pouca melhora seu canto não voltou sem a presença de chiados e aspereza.
Então um dia, finalizando o que julgava ser sua melhor composição sobre o voo da Marreca-de-asa-azul, decidiu que a melhor maneira de recuperar seu dom era invocando-o com todas as suas forças, prometera seu grande retorno ao povo da vila com o que seria uma das maiores serestas já feitas por ele, reunindo todos os moradores num final de tarde. Ao cantar, usou toda sua potência vocal inflando seu peito o máximo possível, desafiou o rio a ouvir também, achou um espectador na nascente difícil de agradar, sempre em seu ritmo sereno parecia ignorar sua apresentação, então finalmente houve movimento nas águas escuras, uma explosão carmim de Cícero se deu em vários timbres, espalhando-se por todo o ambiente e respingando os espectadores mais próximos, seu canto desapareceu no ar como vapor e o rio mudou sua cor para vermelho. Desde então, há quem diga que na vila o vento canta todas as noites em uma sinfonia com o farfalhar das árvores e o movimento das águas do Tocantins, em eterna parceria com o eterno homem cigarra.
CAPÍTULO 4
Átila e Caetano Gilhães, os iguais
A vila que se tornara o lar de Dona Anaya e seus filhos era repleta de longas e fortes palmeiras que davam pequenos frutos roxos colhidos a duras penas de uma escalada; adorada por todos, a exótica fruta se amontoava em uma lambança e fornecia a energia diária dos trabalhadores, crianças e donas de casas que contribuíam nas mais criativas receitas e até com jabá servia. Não demorou muito para o “ouro roxo” ficar conhecido vila afora e chamar a atenção, ninguém imaginaria que o roxo se perderia em meio ao vermelho que jorrou na pequena vila naquela fatídica temporada.
Atila e Caetano, os gêmeos que brigaram no útero competindo para ver quem saía primeiro, já alcançaram seus trinta marcos e ainda não haviam parado de guerrear. Átila não entendia por que Caetano sempre falava tanto, por que fazia sempre algazarras e interferia tanto na sua vida, já Caetano não entendia por que Átila era tão estranho e como conseguia tirar os risos de todos menos de seu irmão igual. Os gêmeos gastavam muita energia em tentar impor suas razões, ao invés de apenas aceitarem suas diferenças.
— Se brigaram na barriga foi de modo que um queria permanecer e o outro tratou de abrir a saída. – Declarava Dona Anaya.
Parecia que um se tornara o oposto do outro só para contrariar, Átila se tornara desmilinguido e vivia carrancudo, sempre quieto em seus costumes, ainda não havia se casado, mas se mudara de casa assim que arrumou a primeira vaga de acendedor de poste, pois gostava do seu sossego, enquanto Caetano vivia em mundiças, era barrigudo e já tinha se amancebado com Nelinha, a cheirosa, com apenas quatro meses de namoro, na ocasião chamou todos os amigos para construir sua casa com reboco, com muita música, pirão, bode e tucupi. Passados três anos da união, botaram três crianças no mundo, tendo aprendido desde cedo com sua mãe a manejar o ouro roxo e transformar em bebida, tirava disso o sustento da família.
Nessa época se estabeleceu na vila um negócio para exportação de ouro roxo, que precisava de moradores locais que conhecessem o solo. Átila iniciara no empreendimento como estivador, mas logo sua facilidade com números o colocou em cargo de supervisor. Por cinco meses, a vila comemorou o reconhecimento que havia chegado em suas terras, os rapazes da vila agora tinham empregos de sobra, colhendo e as mulheres despolpando.
Mas após os primeiros cinco meses, a euforia deu lugar a dúvidas e alguns começaram a sentir falta da fruta roxa que integrava suas rotinas e Caetano percebeu que lhe faltavam alguns trocados no final do mês; enquanto alguns moradores se contentavam em trocar o prazer da fruta pelo cheiro de dinheiro, outros começavam a murmurar. Na safra seguinte, Caetano articulava em segredo reuniões e sussurros logo chegaram aos ouvidos dos patrões, que não gostaram do que ouviram.
Finalmente, com trinta homens e mulheres posicionados, Caetano foi liderando a caminhada até o grande galpão para reivindicar uma parte do ouro roxo para a cidade, Átila tratou de mediar a reunião com seu irmão e fizeram a proposta de disponibilizarem 15% da produção para os moradores, desde que pagassem por ela.
— Quer nos vender o que já nos foi dado, mas que disparate é esse homem? — Questionou Caetano com um vozerio atrás.
— Esse trem já partiu e não tem como parar — Debochou Átila com um sorriso de canto de boca.
— O trem não pode ser parado, mas pode descarrilar.
— Está ameaçando o futuro de vários dos seus, até mesmo de seu irmão igual?
— Esse futuro já está condenado por estar sendo construído às custas da própria terra que te criou – Respondeu Caetano
Uma guerra pessoal foi travada, Caetano tinha certeza de que o irmão tramava com os patrões para prejudicá-lo, enquanto Átila sabia que Caetano só reivindicara o ouro roxo para tirar-lhe o melhor emprego que já tivera.
Caetano não parou de fazer barulho em frente à praça da cidade e conseguia mais apoio a cada dia, pois o empreendimento interferia cada vez mais na rotina da vila, que já cheirava diferente e tomava cada vez mais o espaço de outros cultivos. Cansado de ser ignorado pelos invasores, Caetano aderiu a uma estratégia diferente, conspirou com seus parceiros para invadir na noite seguinte o galpão e tomar de volta o que lhes era de direito, eles roubariam toda a safra de ouro roxo que pudessem e queimariam o resto.
Dona Anaya não sabia qual era o plano de Caetano, mas sentia que seu filho estava tramando algo perigoso; ainda de luto pelos filhos já perdidos e cansada de tanta preocupação, a senhora foi vista durante a madrugada caminhando em direção à plantação de ouro roxo.
Na manhã seguinte, guardas da cidade abordaram Caetano com diligência e levaram-no ao pequeno salão onde funcionava a delegacia improvisada da vila, onde já se encontravam Átila e seus patrões raivosos.
— O que aprontou durante essa madrugada Sr. Caetano? — Questionou o delegado.
— Estava descansando em minha cama como todo homem honesto e trabalhador, por quê?
— Porque alguém danou com a safra de ouro roxo dos senhores. — Contou o guarda delegado, apontando para os empregadores nada felizes de seu irmão e relatou que as frutas de tonalidades roxas amanheceram com outra cor, completamente pretas e, segundo testemunhas, Caetano estaria arquitetando um plano contra a safra.
— Oxe e como eu ia fazer fruta mudar de cor? Não fui eu. — Negou Caetano.
Pressionado pelos empreendedores, o delegado informou que manteria Caetano preso até resolverem o mistério, mas a decisão não foi aceita pelos moradores da vila, que se manifestavam em frente à delegacia. O tumulto se intensificou quando os amigos de Caetano forçaram entrada na delegacia, de modo a soltarem-no, os guardas em vão ergueram suas pistolas para assustar os invasores que já haviam triunfado. Mais tarde naquele dia, uma reunião foi agendada pelos seguidores de Caetano na praça da cidade, com a intenção de declarar sua inocência na frente de todos.
Poucos minutos depois de Caetano subir em uma cadeira para discursar, inúmeros disparos foram feitos pelos capangas do empreendimento de ouro roxo. Os patrões seriam ressarcidos de uma maneira ou outra, várias pessoas foram atingidas, inclusive Caetano, que caiu morto da cadeira no mesmo instante em que Átila sentia um aperto no peito a quilômetros de distância em sua casa. Ao testemunharem, os capangas afirmaram que confundiram o megafone na mão de Caetano com uma arma e tentaram evitar uma revolta armada.
Logo pela vila correu a conversa de que a mudança de cor das frutas era um agouro contra o empreendimento de ouro roxo e que o fruto havia sido amaldiçoado pelo sangue dos inocentes e causaria doenças a quem comesse, a teoria se espalhou e acabou com o interesse dos compradores, levando à falência o negócio apenas algumas semanas depois do massacre.
Após o velório coletivo, Dona Anaya se trancou no quarto se remoendo em culpa, ao tentar proteger seus filhos acabou condenando-os, perderia seus dois garotos, aqueles que recebera como um. Átila passou dias a analisar a cicatriz em seu peito, redonda e profunda do tamanho de um cruzeiro. Se sentia vazio e mais silencioso que o habitual porque faltava algo nele, a desordem de Caetano que fazia parte de sua alma. Átila era quieto e silencioso porque tinha seu irmão para fazer barulho por ele e Caetano fora barulhento e agitado porque tinha Átila para amansar sua inquietação, era assim que a balança funcionava e agora a balança estava desequilibrada.
Átila escreveu uma carta para sua mãe prometendo amenizar a tristeza, por Caetano ele traria o ouro roxo de volta e assim o nome de seu irmão seria honrado através do propósito que morreu defendendo. Por três anos ele viveu recluso, cercado por livros, vidrarias e mudas de palmeiras, decidido a tornar o fruto preto em roxo novamente, ninguém teve notícias dele, a região isolada onde situava sua residência fora abandonada pelos vizinhos por medo da quantidade do agora fruto preto que Átila colecionava. Vicente, um dos sete irmãos, vivia de andanças pela vila e visitava de tempos em tempos Átila, este nunca abria a porta, mas gritava lá de dentro.
— Hoje será o grande dia, vá embora que não tenho tempo de prosear — Gritava Átila e assim Vicente sabia que seu irmão estava vivo.
Após três semanas desde sua última visita, que não era de fato uma visita à casa de Atila, se dirigiu novamente em busca de notícias do irmão, ao chegar perto diminuiu os passos, pensou que teria finalmente enlouquecido, quando não avistou nenhuma casa e sim os escombros de uma, a residência fora destruída por uma enorme palmeira que havia nascido no local, retorcida em dois enormes galhos que se enrolavam um no outro dando a impressão de serem apenas um, e no chão havia um rio de cor roxa margeando toda a raiz grossa da árvore, era ouro roxo, milhares de frutos de ouro roxo e em nenhum lugar havia sinal de Átila. Por mais cinquenta anos, tempo em que a vila viria deixar de existir, só nasceria ouro roxo naquele lugar e nunca mais nenhum morador se atreveria a sentir novamente o gosto da fruta.

SOBRE A AUTORA – Gabriella Araújo cresceu em Imperatriz, Maranhão. É enfermeira, pós-graduada em Auditoria em Serviços de Saúde, autora de “O Que Acontece Quando o Pássaro Bate as Asas” e coautora de antologias literárias.
Escreve contos e romances porque se interessa pelas pessoas, pelas lembranças que elas carregam.
Entre os autores que mais a acompanham estão Fiódor Dostoiévski, Clarice Lispector, Sylvia Plath, J. D. Salinger e Gabriel García Márquez.