quinta-feira, 13 de agosto de 2026

UM CONTO AOS DOMINGOS #76 – A MORADA DOS SOBREVIVENTES (Gabriela Araújo)

Publicado em 12 de julho de 2026, às 12:05

CAPÍTULO 1

Dona Anaya e o Capitão

Ela fechou o álbum, a fotografia tinha tantas histórias a contar que nem as manchas das lágrimas conseguiram esmaecer, os rostos na foto ela conhecia muito bem, olhou para eles por tanto tempo que hoje não os reconhecia, ali estavam 7 rostos que só continham passado, as faces amarelas de seus meninos com grandes olhos castanhos, em corpos pequenos e magros um ao lado do outro embaixo de uma mangueira, na rua cheia de poeira em frente a um muro de tijolos no mais recôndito lar do Maranhão. Cada um com uma história a contar, cada um com um pedaço de mundo para oferecer, não poderiam ser mais parecidos se não fossem tão diferentes entre si. Ela queria que eles fossem do mundo, mas os garotos queriam que o mundo fosse deles.

Dona Anaya trouxe ao mundo sete filhos, e adeus aos sete deu, ela guardou o álbum de volta na cômoda de madeira ao lado da cama e ponderou que as histórias de seus filhos não tiveram preâmbulos felizes e tampouco os finais, mas os itinerários foram homéricos.

Quando Dona Anaya fugiu da casa de seus pais na calada da noite em direção à balsa para fugir com o capitão Cecil Gilhães, não tinha itinerário, quem lhe guiava vibrava em seu peito com excitação e a mandava se apressar e não pensar, ela só parou para reconsiderar a ordem dada por seu coração quando se viu caindo no chão com as mãos do capitão em seu pescoço nove meses depois, as marcas da noite anterior mal sumiram e seu corpo já era pintado novamente em tons de roxo e verde igual à lua tocando o rio Tocantins na alta madrugada, mas não se importava qual paisagem seu corpo se tornaria ao fim da surra enquanto seu ventre continuasse intocado brotando vida.

O Capitão Gilhães era conhecido por sua intrepidez, cresceu ouvindo as recordações de seu pai, um tenente que havia servido durante a Balaiada, mas que se tornou inativo devido ao impaludismo. Cecil foi forjado com seus oito irmãos desde pequeno para pleitear, quando tinha dezoito anos foi recrutado para um volante e serviu como soldado durante o declínio do Cangaço. Aos seus vinte e dois anos era um jovem magro de expressão austera, conheceu Anaya em seus dezoito anos ajudando sua mãe a lavar roupa no rio e a cobiçou imediatamente, com seu longo cabelo castanho escuro, rosto redondo e olhar intimidador a garota se encantou pelo uniforme marrom e a oportunidade de escapar de sua gaiola.

O casal se estabeleceu em um pedaço de terra distante e pouco povoado com muitas palmeiras, banhado por um rio impetuoso, paisagem essa que mais tarde ilustraria a bandeira local: uma palmeira emergindo de um rio dourado. Em seu novo cargo oferecido o capitão ajudaria a manter a ordem do assentamento, mas foi além e transformou a cadeira do bar em um trono onde todas as suas vontades eram saciadas e travava suas batalhas ao chegar em casa.

Numa noite quente com céu estrelado todo o mundo diminuiu de tamanho para Anaya quando Amaro chegou aos seus braços, o ar se tornou Amaro, seus batimentos cardíacos cantavam Amaro e seus olhos choravam Amaro. Então anoiteceu por mais sete meses, e o sol só voltou a brilhar para cumprimentar Cícero, seu segundo menino. O inverno chegou e ficou por dois anos inteiros, foi necessário que Átila e Caetano brigassem no útero para ver quem saía primeiro e desafiava o rigoroso inverno a se dissipar. Vicente se apresentou logo para a missão de trazer brisa de ar fresco para os tempos de estiagem, e não querendo ficar para trás Arlo tratou logo de atracar durante a tempestade. Oito meses depois Dario surgiu de um tornado que nada tirou do lugar. E assim originaram as estações do ano para Dona Anaya e diariamente ela recitava em voz alta:

—   Amaro, Cícero, Átila, Caetano, Vicente, Arlo, Dario, já está na hora de entrar!

—   Quando o Coronel chegar cheio do pau – Os garotos respondiam.

—   Irão ver o pau se continuarem com teimosia — Dona Anaya ameaçava.

O capitão Gilhães se afastou da criação dos filhos, passava todo o dia de serviço e a noite bebendo, não suportava voltar para casa e observar a atenção e afeto de sua esposa destinados unicamente para as crianças. Uma noite ao chegar em casa castigou um Vicente de sete anos por sair em defesa da mãe durante uma surra, na manhã seguinte o capitão saiu para caçar com um cantil de aguardente suspeito e, abatido por uma onça-parda, em meio a uma manhã seca em lágrimas, seria enterrado e dali em diante os garotos poderiam brincar até o final da tarde sem pau esperar. Conforme cresciam, cada vez menos os rapazes tocavam o chão, logo a casa de Dona Anaya ficou pequena, não dava para dar dois passos sem esbarrar em um mancebo sonhador pairando no ar.

Assim que se viu livre de seu algoz, a matriarca da família reformou o cenário, sua casa se tornou um lar, as paredes foram pintadas de laranja, uma varanda com escada construída, as estantes acumulavam louças especiais, seu altar com imagens de Nossa Senhora era limpo todas as manhãs, o quintal ganhou novas plantas, dona Anaya ganhou peso e a cor de sua pele recuperou um único tom, o de manga rosa herdado de sua mãe, fez amigas na igreja e na casa não se encontrava em canto nenhuma memória do falecido Capitão, ela havia sobrevivido e a sobrevivência era o começo de uma nova vida.

A casa dos Gilhães se tornou símbolo de acolhimento, sempre de portas abertas situada no centro da vila, qualquer um que lá chegasse encontraria panelas abarrotadas e um lugar na conversa que nunca cessava na mesa quadrada forrada com toalha decorada sempre posta com uma garrafa de café. A dona só tinha duas regras a seus visitantes:

—   Não peguem a maior goiaba do pé, essa é minha. – Ela reafirmava a tradição de colher a maior goiaba do pé apenas no final do ano, o prazer nisso era se surpreender com o tamanho que a fruta poderia alcançar e o sabor se torna indescritível. — E nunca encostem nas minhas louças especiais, de resto, a casa é de vocês. – Em vida Anaya nunca achou um motivo especial o bastante para usar as louças.

CAPÍTULO 2

Amaro Gilhães, o aventureiro

À vista do amor que sentia por seu lar, Amaro, o primogênito, rapaz de longos cabelos negros, queixo quadrado e olhar sorridente traçou sua rota e decidiu ser seu grande sonho trazer o mar até seu recôndito lar. Construiu uma pequena embarcação e a pôs a navegar até onde a água doce ficava salgada, e de lá reuniu toda espécie de frutos-do-mar e levou de volta consigo. Foi recebido com grande festa e maravilhou-se com os rostos exultantes de sua gente provando pela primeira vez frutos-do-mar, e decidiu levar outros homens na próxima viagem e trazer o dobro da pesca.

—   Meu filho, fique aqui, muitos sorrisos você já ganhou devido ao seu sonho. – Suplicou Dona Anaya com um olhar excruciante.

—   Estou indo buscar mais felicidade Mãe, o que pode ser melhor? — Refutou Amaro

—   Perder de vista o que já conquistou! — Aconselhou a Mãe de Amaro.

—   Nunca vi ninguém perder felicidade, se perdeu é porque não a tinha de verdade. – Respondeu Amaro.

—   Pois eu já perdi, te vi sumir de vista no horizonte

Contudo, na terceira expedição os moradores decidiram que comer pesca do mar já não era novidade e queriam algo diferente, Amaro não entendia como deixar de desejar aquilo que sempre se quis, magoado tomou a decisão de que viveria no mar e o valorizaria durante todos os seus dias, então seguiu sua rota até o fim que fosse possível encontrar e nunca mais foi visto, há quem diga que o mar se apaixonou por Amaro e sua devoção e o levou para morar abaixo das águas tumultuosas.

[continua no próximo domingo]

SOBRE A AUTORA – Gabriella Araújo cresceu em Imperatriz, Maranhão. É enfermeira, pós-graduada em Auditoria em Serviços de Saúde, autora de “O Que Acontece Quando o Pássaro Bate as Asas” e coautora de antologias literárias.
Escreve contos e romances porque se interessa pelas pessoas, pelas lembranças que elas carregam.
Entre os autores que mais a acompanham estão Fiódor Dostoiévski, Clarice Lispector, Sylvia Plath, J. D. Salinger e Gabriel García Márquez.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Publicidade

Sites relevantes para pesquisa

Publicidade