Formação realizada em Açailândia discutiu técnicas de apuração e segurança para profissionais e estudantes em áreas impactadas por grandes empreendimentos.
Por: Rita Maria e Renata Sousa
Nos dias 29 e 30 de maio de 2026, Piquiá de Cima serviu de cenário para um encontro focado no futuro do jornalismo local. O distrito recebeu a caravana da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) que, em parceria com o portal de notícias independente Assobiar, realizou uma formação intensiva voltada para profissionais da comunicação, estudantes universitários e comunicadores populares.
A escolha do local carrega um peso simbólico para o debate ambiental. Piquiá de Cima surgiu na década de 1980 junto com a abertura da Estrada de Ferro Carajás, operada pela Vale para escoar o minério de ferro extraído no Pará até o porto de São Luís. Desde então, o distrito passou a conviver diretamente com o polo de indústrias guseiras (ferro-gusa, uma das matérias-prima do aço) e siderúrgicas instaladas em Açailândia, sofrendo os impactos cotidianos da poluição do ar, da contaminação do solo e do descarte de resíduos industriais, o que tornou a comunidade um dos símbolos nacionais da luta por direitos humanos e justiça ambiental.
O objetivo central da oficina foi justamente municiar quem está na ponta com ferramentas para cobrir pautas complexas como essa. Durante as 15 horas de imersão, que contaram com o patrocínio da Fundação Ford e o apoio da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus de Imperatriz, os mais de 30 participantes debateram técnicas de apuração e estratégias de sobrevivência física e psicológica em contextos de vulnerabilidade e ameaça.
Lançada originalmente em outubro de 2023, a Caravana Abraji tem cruzado o país com passagens recentes pelo Distrito Federal, Sergipe e Pernambuco. A ideia é descentralizar o debate sobre a liberdade de imprensa e fortalecer veículos comunitários que enfrentam o desafio diário de relatar a realidade de seus próprios territórios.
A abertura dos trabalhos ficou por conta de Daniela Souza, jornalista e cofundadora do portal Assobiar, que detalhou os quatro anos de trajetória do veículo e os percalços da sustentabilidade na comunicação independente. Na sequência, Roseane Arcanjo, professora de Jornalismo da UFMA de Imperatriz, provocou a audiência ao defender a produção de um jornalismo de fôlego que escape do imediatismo e das amarras das mídias sociais.
Nenhuma reportagem vale a nossa vida
A linha de frente do treinamento de proteção foi conduzida por Catarina Barbosa, repórter especializada em investigação e membra da diretoria nacional da Abraji. Para ela, o exercício do jornalismo em cenários de conflito agrário, ambiental ou urbano exige um misto de técnica rigorosa e profundo instinto de autopreservação
Catarina explicou que a autoconsciência é o principal aspecto que o jornalista precisa desenvolver na profissão. Segundo a diretora, o profissional deve entender os riscos reais de cada pauta antes mesmo de sair da redação, sabendo o comportamento adequado para não agravar conflitos e, principalmente, reconhecendo a hora exata de parar o trabalho. Ela foi categórica ao definir o limite da profissão: “Nenhuma reportagem vale a nossa vida”.
Ouça: Catarina Barbosa fala da diferença entre ensinar e co-formar no território.
Para além dos protocolos de segurança, a diretora enfatizou que a Abraji atua como um braço de apoio no interior do país. A instituição oferece gratuitamente em sua plataforma digital diversos cursos de especialização, que vão desde o tratamento de dados públicos e uso de planilhas até as novas aplicações de Inteligência Artificial no jornalismo. O acesso é liberado para associados, categoria que inclui estudantes de Jornalismo a partir do terceiro semestre.
A trajetória da própria jornalista serve de exemplo para quem está começando. Catarina relembrou que iniciou no jornalismo investigativo justamente através de uma formação da associação para aprender a tratar dados de IDH.
Hoje na liderança do projeto, ela faz questão de destacar que a essência da Caravana não é ditar regras de fora para dentro, mas caminhar lado a lado com quem já produz conteúdo nos locais visitados. Para ela, a iniciativa funciona como um ponto de colaboração e um recado de incentivo aos coletivos locais: “O Caravana não vem para ensinar. Ele vem para coformar. Vem para dar força e dizer para continuarem e não desistirem”.
Quem é Catarina Barbosa?

Filha de ribeirinha nascida em uma pequena ilha no Arquipélago do Marajó, no Pará, cuja mãe migrou para Belém para trabalhar como empregada doméstica, Catarina Barbosa – Diretora da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo – traz na pele e na história os caminhos que guiam seu olhar jornalístico.
Para ela, “a técnica perde o sentido se o repórter esquecer a capacidade de ouvir o outro de verdade”.
Papelão e bambu na base da comunicação que narra o território
Entre os rostos atentos que acompanhavam as oficinas em Piquiá de Cima estava o de Raimundo Quilombola. Vindo do Quilombo Rampa, situado no município de Vargem Grande, também no Maranhão, Raimundo personifica o tipo de comunicação territorial e de resistência que a Caravana buscou abraçar. Ele é um dos idealizadores da TV Quilombo e da Rádio Quilombo, projetos nascidos em 2017 a partir do desejo profundo da comunidade de contar as suas próprias histórias, sem intermediários.
A engenhosidade do projeto subverte a lógica da tecnologia industrial. Diante da falta de recursos financeiros para comprar equipamentos convencionais de filmagem, os moradores acionaram o que chamam de tecnologia ancestral. Raimundo contou que a ideia inicial partiu de seu primo, Willian Cardoso, que construiu uma réplica de câmera usando papelão. Para Raimundo, o impacto visual daquele objeto foi imediato, despertando um forte sentimento de pertencimento e a certeza de que eles poderiam registrar a comunidade do seu próprio jeito.
Ouça: Raimundo relembra como nasceu a ideia de criar uma câmera de papelão.
Com o tempo, o arsenal tecnológico da TV Quilombo se expandiu mantendo a mesma filosofia. A equipe passou a utilizar tripés feitos de bambu, um “bambudrone” moldado artesanalmente para simular tomadas aéreas e microfones que usam gravetos como suporte. Utensílios cotidianos da cultura local, como o cofo, o balaio e o jacá, também foram integrados às gravações. Essa estrutura envolve desde as crianças até os mais velhos da comunidade, transformando a tradição artesanal em ferramenta de enfrentamento ao racismo, ao preconceito e às históricas violações de direitos sofridas pelos quilombolas.
Arquivo: TV Quilombo
Raimundo defende que a tecnologia tradicional deve andar atrelada aos recursos modernos, impedindo que os aparelhos novos apaguem os saberes repassados por seus pais e avós. Essa combinação astuta já chegou a quebrar protocolos oficiais. O comunicador relembra com orgulho o dia em que o então governador do Maranhão, Flávio Dino, visitou Vargem Grande para inaugurar um restaurante popular. Munidos da câmera de papelão, os jovens do quilombo romperam o cerco da imprensa tradicional e conseguiram uma entrevista exclusiva.
A Caravana da Abraji viaja pelo país justamente para encontrar projetos como o de Raimundo. Os dois dias de oficinas em Piquiá de Cima terminaram com debates práticos sobre como os jornalistas e comunicadores da região podem se proteger no dia a dia enquanto cobrem problemas ambientais e sociais. Ao se despedir do Maranhão, a caravana reforçou que o jornalismo local só continua forte se souber ouvir e dar espaço para as pessoas que vivem e defendem o seu próprio território.