sexta-feira, 14 de agosto de 2026

UM CONTO AOS DOMINGOS #75 – CALENDÁRIO DA TRISTEZA (Gilmar Pereira)

Publicado em 4 de julho de 2026, às 16:58

A menina olhava pela janela. Sua visão dá-se para a rua por onde seu pai sempre vem. A casa é um vazio de tudo; além do sofá bem usado, em que a menina estava em cima, para ter a visão da rua, apenas um fogão velho que quase não é usado, uma geladeira sem qualquer uso. A miséria se estabeleceu ali naquele cantinho que não se assemelha a qualquer parte deste mundo.

– Será que papai vem bravo hoje? Questionava a menina, não com medo, mas com apreensão. E, nestes tristes questionamentos, ela passa a lembrar dos últimos dias.

– Segunda Feira, papai nem veio. Senti fome. Mas, em compensação, mamãe não apanhou naquela noite!

– Não tinha nada para comer, mas dormi bem. Sonhei que comia, servida por um senhor que, ao que parecia, já me conhecia há muito tempo, achava que sabia de meus problemas. Seus olhos mostravam certa desconfiança, insegurança, talvez, não sei explicar. Mas o olhar penetrante me dava um pouco de paz. Acordei com a fome multiplicada não sei por quanto.

– Terça feira papai chegou com um embrulho. Quando vem, costuma trazer um embrulho. Já até sei o que é: espetinho de carne assada que ele, depois das farras, compra para mim e para mamãe. Naquela noite não fora diferente; mamãe me deu a maior parte, deu-me todo o vinagrete. Mamãe ficou com a farofa; a carne que não tinha gordura mamãe me deu. Enquanto isso, papai tomava banho. Antes que mamãe terminasse de mastigar a carne que ficara para ela, ouvimos um grito de papai lá do banheiro:

Cadê a toalha enxuta?! Sua pu…!!!!

– Mamãe levantou-se do chão, pois não tínhamos mesa e nem cadeiras. Sentávamos no chão para comer. Mamãe não pôde atendê-lo, pois não pudera nem sair para o quintal naquele dia; as portas ficaram todas trancadas, mamãe não pôde colocar as roupas ao sol. Mamãe apanhou. Mamãe apanhou muito naquela noite. Seu rosto ficou que foi um estrago só. Chorei. Chorei muito por mamãe. Doeu muito em mim ver mamãe sofrer a dor das pancadas, a dor da indignidade.

– Quase não dormi. Papai me olhou com uns olhos que, por mais que tentasse definir, não entendi. Quase não dormi… Os poucos minutos em que adormeci, tive pesadelos; algo bem forte invadia-me; sufocava-me, dominava-me. A noite fora grande e torturante. Queria a luz do dia para me aliviar um pouco daquela amargura.

– Quarta feira. Vi papai de longe, vinha cambaleando. Quis lhe ajudar, mas a porta estava, como de costume, trancada. Corri para avisar mamãe, que estava ocupada com as intermináveis tarefas. Não sei o que mamãe tanto faz; não para um instante, às vezes fica chorando às escondidas.

Não filhinha, não estou chorando, não! Respondia enxugando o rosto.

Mas eu sei que estás chorando, já estou até acostumada de ver mamãe chorando. Mamãe chora, mas chora quietinha. Nunca vi mamãe reclamando – que tipo de mulher mamãe é!

A menina voltou para a janela. A grade que a protege é feita de várias rodinhas de ferro.

– Já sei de cor quantas rodinhas existem ali, pois passo o maior tempo olhando a rua. O tempo parece o mesmo, não muda; vejo os meninos passarem pela manhã para o colégio. À tarde, vejo outros meninos a passarem, os vejo voltar.

– Não estudo. Apesar da minha idade, não estudo; meu pai diz que estudar é coisa do mal. Segundo ele, estudar é seguir o caminho do mal. Obedeço-lhe porque é uma determinação. Mas, no fundo do meu coração, eu queria estudar.

– Lá está papai sentado na calçada. Parece que está desorientado. Não traz o tão esperado embrulho, certamente bebeu demais e esqueceu de nós.

A menina, ingênua, foi até a porta.

– Que pena, está trancada mesmo. Não posso ajudar papai! Queria tanto ajudar papai a entrar em casa!

Mamãe deu um caprichado banho em papai e fomos dormir com fome. Mas, por outro lado, foi bom, mamãe não apanhou e eu sonhei com o homem de olhar penetrante, que me serviu comida novamente. Não entendo; acordei na quinta-feira com muita fome. Com muita fome!

– Logo cedinho papai saiu, sem falar nada e com um rosto de quem estava doente; olhos espantados, lábios ressecados e muito desalentado. Corri para a janela para ver papai dobrar lá na outra esquina. Mal papai sumiu, a vizinha do lado direito apareceu na janela.

– Abra a porta, minha filha. Pediu a vizinha, ainda olhando para o final da rua.

– Papai não deixa! Papai levou a chave! Papai vai brigar comigo!

 A vizinha, sem outra opção, por entre os espaços das rodinhas da grade, me deu uma banda de pão com manteiga. Nem agradeci, corri para dividir com mamãe. Sabia que ela estava com mais fome que eu. De início, ela rejeitou minha oferta.

– Não filha, pode comer, não estou com fome!

Aí eu menti. Respondi: Não, mamãe, eu já comi a outra metade deste pão. Só assim ela aceitou. Fiquei feliz por mamãe.

– Naquele dia papai não voltou. Fiquei muito preocupada. Será que está bem? Será que bebeu e não achou o caminho de volta? Será que dorme em alguma calçada?

– Chegou a noite e eu ainda estava de sentinela. Escureceu e fui dormir com nenhuma migalha de pão na barriga. Tremia de fome. Doía, ai como doía aquele buraco em minha barriga! Aquele vazio na barriga. Bebi bastante água e sentia ela se alojando lá embaixo, sem qualquer obstáculo.

– Antes de pegar no sono, ouvi mamãe chorar. Chorava baixinho para eu não ouvir. Sabia que estava chorando, coração de filha não se engana. Sabia que estava com fome; e com mais fome por causa da minha fome. Sabia.

Mamãe, com aqueles olhos tristes, tristes de desesperança, me disse:

– Boa noite, filhinha.

Falou quase me oferecendo o peito para mamar. Mas já tenho nove anos, não é certo mamar, tirar a vitalidade de minha mamãezinha. Tenho pena de mamãe!

– No meu sonho daquela noite, o homem que me alimentava veio mais triste do que outras vezes. Não entendia o seu silêncio, que talvez quisesse dizer algo que não compreendia.

– Sábado. Sábado é o dia mais terrível para mamãe. Mamãe tem medo de papai, tem mais medo do papai no sábado. Papai nunca bateu em mim, olhava sempre com um olhar desconcertante. Olhava-me de cima a baixo, como se um desejo lhe invadisse. Depois dava um sorriso de contente. Mas mamãe sabe que sábado não é um dia bom para se viver.

– Tinha razão. Vi papai, ainda de longe, naquele sábado. Era fim de tarde, vinha caminhando com passos firmes. Desconfiei que não fosse ele, pelo modo de caminhar. Nunca o vira a caminhar daquela forma. Infelizmente, era ele. Vinha como um búfalo em direção à sua vítima. Trazia nada em suas mãos. Mas parecia que carregava muitas coisas. Parecia que trazia um peso enorme no coração, uma sombra escura.

Tentou abrir a porta, mas a fechadura insistia em não lhe atender. Irou-se. Bateu forte com o pé na porta. Inflama-se. Até que, de repente, consegue abri-la.

– Papai entrou furioso. Falava algumas coisas de vales, de emprego, de patrão, de dinheiro. Naquele sábado foi um bate-boca como nunca. Mamãe respondia. Por que mamãe respondia?! Nunca, até então, vi mamãe responder a papai. Não entendia essa coisa de emprego. Coisas das ruas. Papai partiu para cima de mamãe. Bateu-lhe com força. Eu implorei muito – papai, não bata na mamãe! Tenha piedade da mamãe, papai!

– Não podia gritar. Nem eu nem mamãe. Aprendemos desde muito cedo a não gritar e nem responder a papai. Nem na briga de papai e mamãe.

– Não sei, e nem tem explicação de onde apareceu aquele pé de cadeira, se nem cadeira tinha em casa. Só ouvi a pancada. Depois, o silêncio reinou dentro de casa. Mamãe já não chorava mais. Papai ainda deu um sorriso para mim. Olhou-me de cima a baixo e saiu como se nada tivesse acontecido. Dessa vez, nem teve o trabalho de trancar a porta como sempre fizera. A chave ficou pelo lado de dentro.

– Domingo seria um dia ótimo para se viver. Mas mamãe não vivia mais. A mim, só restaram umas poucas fotos tristes de mamãe, que nunca mais veria. Nunca mais veria mamãe…

SOBRE O AUTOR – GILMAR PEREIRA da Silva nasceu em 23 de maio de 1957, na cidade de Xambioá – TO. Reside em Imperatriz – MA.É casado com Ana Lúcia Salazar da Silva, com quem tem dois filhos, Gil Gilmar e Anna Sara.Formado em Letras, Literatura Brasileira, pela Universidade Estadual do Maranhão – UEMA. É fundador do GRULI (Grupo Literário de Imperatriz), onde desenvolveu, junto com outros escritores, um providencial trabalho literário em Imperatriz, nos anos 1980/90. É membro fundador da Academia Imperatrizense de Letras – AIL, cadeira 28, que tem como patrono o imortal Viana Guará. Tem alguns livros publicados: Percurso insólito e outros percursos – Crônicas; O Camaleão que queria ser gente – Fábula; Bem perto é muito longe – Romance infantojuvenil; Cemitério de sonhos – Romance infantojuvenil.

Uma resposta

  1. Um conto para não ser esquecido Gilmar Pereira, parabéns por narrar de forma tão real e tão leve o sofrimento de uma família…
    Infelizmente o que era para ser apenas ficção literária, é realidade ainda presente em muitos lugares…

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