Por Paulo Rodrigues
César William é poeta nascido em São Luís do Maranhão, que despertou o fazer poético em 1984, quando venceu um festival de poesia falada. Desde então, vem se esmerando, sem pressa e sem alardes, pelos caminhos desta arte tão nobre e tão digna, já tendo lançado alguns livros e participado de muitas coletâneas, locais e nacionais. Nesta entrevista, publicada, simultaneamente, no jornal O Progresso e no site Região Tocantina, ele faz um panorama da poesia mundial, nacional e regional, por meio dos seus autores e autoras preferidos, e reflete sobre o espaço da leitura e da literatura no cenário atual. Vale a leitura.
Paulo Rodrigues – César William, como foi seu encontro com a poesia?
César William – Surgiu no antigo Secundarista, em 1984, quando venci o I Festival Intercolegial de Poesia Falada com um poema simples, bem simples e lírico, intitulado Vento Mar. Em 1983, Na mesma escola, Almirante Tamandaré, conheci Wilson Cerveira e Francisco Tribuzi que eram meus professores na referida instituição. Cerveira criou um Clube Literário com encontros aos sábados, ele fazia leituras, oficinas, recitais e isso me motivou bastante. E o fato de o Francisco ser filho do Bandeira Tribuzi fortaleceu minhas curiosidades no âmbito literário, sobretudo da poesia. Mais tarde, em 16 de dezembro de 1988, Francisco Tribuzi me apresenta no lançamento do meu livro, O Errante, no auditório do Sioge. Depois disso, tornei-me frequentador assíduo da Biblioteca do Sesc e da Biblioteca Pública Benedito Leite, engrenando-me cada vez mais no universo literário.
Paulo Rodrigues – Quais são os autores preferidos do poeta César William? Quais autores destacaria na literatura contemporânea do Maranhão?
César William – João Cabral de Melo Neto, Drummond, Bandeira, Quintana, Walt Whitman, Fernando Pessoa, Emily Dickinson, Jorge Luis Borges, Florbela Espanca (…) – os básicos para todo e qualquer poeta (penso). Quanto aos meus preferidos maranhenses, o quarteto Nauro Machado, Ferreira Gullar, José Chagas e Bandeira Tribuzi (nessa ordem) é meu panteon. E na lista dos contemporâneos, não posso deixar de citar: Salgado Maranhão, Antônio Aílton, Bioque Mesito, Carvalho Junior, Laura Amélia Damous, Paulo Rodrigues e Luiza Cantanhede (só para citar alguns). Um único verso que me faz admirar a criação de um poeta é-me suficiente para gostar da sua obra, como essa genialidade de Félix Aires: “Longe, a gaivota voando,/ é um til perdido nos ares.” Ou de Paulo Melo Sousa, “a ausência é um animal de grande porte”, citando apenas dois autores de diferentes gerações e estilo.
Paulo Rodrigues – Como é o processo criativo do poeta César William? Escreve com disciplina?
César William – Meu processo criativo é algo perigoso. Os textos me dominam. Enquanto não dou conta de prepará-los e deixá-los no ponto que eu julgar bons para serem publicados, eu mesmo não sirvo para muita coisa. Sou indisciplinado demasiadamente. Começo um livro e não concluo. Depois já estou com outro em mente. Mas travei luta contra isso e penso que já melhorei bastante.
Paulo Rodrigues – César William, Antonio Cícero afirmou: “o bom poema é intraduzível”. Você concorda com ele? O bom poema é uma peça exclusiva?
César William – Concordei durante um bom tempo, mas depois que me devotei mais a Manuel Bandeira, Manoel de Barros, José Chagas e Salgado Maranhão, fiquei em xeque quanto a essa sustentação. Por que em xeque? Porque me deparo com a genial produção de Nauro Machado, embrenho-me no seu campo semântico e, diante de alguns dos seus poemas (muitos), volto à primeira tese. Ater-se ao que Nauro fez com os versos é tão desafiador quanto investigar a fundo as técnicas para a construção das pirâmides do Egito. Tudo dele é sofisticado, seu produzir e seu olhar sobre essa missão. Tudo o que ele afirmou pode ir atrás que tem fundamento. E aí me vem à mente também Sousândrade.
Paulo Rodrigues – Poeta, você venceu vários prêmios. Eles ajudam a divulgar o trabalho do poeta?
César William – Sim. Cada participação em antologia, cada premiação em festival, mesmo que seja apenas uma menção honrosa, vão dando visibilidade ao que produzimos e nos dando também mais responsabilidade para continuarmos no processo. Mas só me considerarei realmente premiado quando eu tiver pelo menos um livro inteiro contemplado em concurso literário. O conto Cartinha a um velho poeta, de Dalton Trevisan, educa-me a não me envaidecer nem me iludir com qualquer coisa.
Paulo Rodrigues – Como você observa a formação do leitor no Brasil? É preciso formar o leitor do texto poético?
César William – Observo com muita preocupação, porque as grandes mídias incutem ideias errôneas sobre o fazer literário na mente das crianças, sobretudo no âmbito da poesia. Na maioria das vezes, as escolas pegam carona com essas mídias. Querem limitar a poesia e terminam fazendo com que quase todos concebam como poeta somente quem fala de flores, mares, dores, paixões e rimam céu com mel. É preciso leitura. Em 2016, conduzi uma estudante de Paço do Lumiar até Porto Alegre, pelas Olimpíadas de Língua Portuguesa, com o gênero crônica. Ela foi semifinalista no referido concurso, mas, para tanto, lemos em sala de aula cerca de 100 crônicas de autores estrangeiros, nacionais e maranhenses. Essas leituras e oficinas surtiram efeito positivo, trazendo consciência literária à estudante que, somada à sua sensibilidade e inspiração, trouxeram-lhe grande resultado. Tem que haver leitura, mais leitura que escrita!
Paulo Rodrigues – Fale um pouco para nós sobre o livro O Errante. E fale também sobre o livro novo, Carta (à) Margem.
César William – O Errante foi fruto das minhas primeiras inspirações. Apesar de não ter ainda maturidade suficiente para ser um autocrítico, consegui ser original, mas sofri muito. Ouvi conselheiros de plantão e saí do casulo. Deparei-me com críticos honestos e também com outros que julgam tua obra sem sequer lê-la. Ambos me ajudaram e continuam, continuarão me ajudando.
Paulo Rodrigues – Quais são os novos projetos do poeta?
César William – Estou escrevendo, sem me preocupar em ficar postando em blogs, grupos, redes sociais. No momento, prefiro mesmo o silêncio, até que eu me sinta no ponto de expor tudo o que eu for produzindo. Estou batalhando para lançar mais um livro ainda este ano.
Paulo Rodrigues – Deixe uma mensagem para os nossos leitores.
César William – Ser poeta não é tarefa fácil para quem de fato o é. Há um chamado que nenhum cânone explica. Se és poeta, siga a missão. Busque a disciplina (estou buscando e o resultado é regozijante). Não se iluda com títulos, certificados, troféus, menções, cadeiras blindadas. Isso também é válido, mas não é o que de fato valida a tua poesia. Talvez ela não seja vista agora ou demore a ser vista, porém se ela tiver valor literário, surgirá alguém que, tocado por ela, uma hora irá reconhecer o teu trabalho. Ser poeta independe da quantidade de livros que publiques ou da quantidade de sinos que badalem em torno da tua produção. Como disse o imortal Nauro Machado: “Ser poeta é duro e dura/ e consome toda uma existência”. E, se não és poeta, e ama poesia, continue lendo, os poemas te livrarão do senso comum de tudo e te oferecerão cada vez mais lugares que habitarás e que te habitarão.
POEMAS DE CÉSAR WILLIAM
PESCARIA
Enrugadas mãos tecem a tarde em linha reta
cruzando nó por nó no nylon
por cima e por baixo vão conduzindo
agulha desembrulhando angústia na malha
como se fosse um poeta burilando a palavra
o velho tece e retece sua rede num zigue-zague
feito piaba prateada furando as águas
no oceano da sua dúvida e no palhabote da sua alma
escorre do seu polegar atalho ligeiro
formando nova janela de onde escorrem suas mágoas.
(Tecido Tempo – Mostra da Poesia Contemporânea do Maranhão – Antologia da AML/2023)
FLOR SELETA
Para Salgado Maranhão
O melhor poema
ninguém o escreve
ele é pé-de-luz andarilho
inventando estradas de sonhos
não tem forma nem cheira
nem quer dizer coisa nenhuma
que o digam
o melhor poema
visita-nos
abriga-nos por dentro
e é sempre um fora.
PINTURA QUASE ÍNTIMA
O fungo nas unhas desenhou um quadro barroco
nas mãos de barro do operário que ouvia ópera
pouco preocupado com os abismos nos dedos
o homem já concebia as manchas como flocos
gastas garras desconfigurando-se e derretendo
feito um sorvete suicida encarando lentamente o sol.
(Tecido Tempo – Mostra da Poesia Contemporânea do Maranhão – Antologia da AML/2023)
CÂMERA UM
Saga em mutirão no quintal de casa
formigueiro fervendo em terra removida
como se eu visse homens na Serra Pelada.
Em vão tento conferir operários
eles não se incomodam comigo e têm pressa.
Guardar suas quentinhas para o próximo inverno
é uma missão quase suicida na frente de um humano.
Rápido um corredor cor de gasolina se avexa
ziguezagueando os minutos de um relógio que desconheço.
Transeuntes com verdes torços vão tecendo a aba da manhã
e eu desisto de pôr o pé sobre aquela vermelha torre.
Não estão inscritos no programa Auxílio Brasil
O IBGE os desconhece e o Fantástico não sabe o que perde.
Tudo está formado e me torno cúmplice
do xadrez nas folhas do pequeno abacateiro.
(Tecido Tempo – Mostra da Poesia Contemporânea do Maranhão – Antologia da AML/2023)

SOBRE O ENTREVISTADOR
Paulo Rodrigues é graduado em Letras e Filosofia. Professor de língua materna e literatura da rede estadual de ensino. Foi secretário de educação de Santa Inês e gerente regional de educação do Vale do Pindaré. É poeta, prosador, ensaísta e jornalista. Autor de, entre outros, O Abrigo de Orfeu e Escombros de Ninguém.Ganhou os prêmios Álvares de Azevedo da UBE/RJ, em 2019; Literatura e Fechadura de São Paulo, em 2020; Marcus Vinicius Quiroga de Poesia da UBE/RJ, em 2024. É membro efetivo da academia Caxiense de Letras e da Academia Poética Brasileira.

SOBRE O ENTREVISTADO
César William David Costa nasceu em São Luís – MA, no dia 22/05/1967. Venceu o I Festival Intercolegial de Poesia Falada, em dezembro de 1984. Autor dos livros O Errante (poemas, 1988), Oficina das Palavras – Algumas Dicas Formais da Língua Portuguesa (2014 – 3ª edição), Carta (à) Margem (poemas, 2024); Recado Maior de um Menino ou Reinvenção do Zé (biografia), Jogo de Imagens em Salgado Maranhão (ensaio), inéditos. Participou de várias antologias poéticas locais e nacionais. Tem publicações em vários jornais de São Luís. Professor de Língua Portuguesa e Literatura, graduado em Letras pela Uema, pós-graduado em Literatura pelo Iesf e em Gestão e Supervisão Escolar pela Faculdade Maranhense – Fam. Membro fundador da Associação Maranhense de Escritores Independentes – Amei, da Academia de Letras de Paço do Lumiar – ALPL; filiado à União Brasileira de Escritores – UBE, membro correspondente da Academia Icatuense de Letras – AILCA e pertence ao grupo Os Integrantes da Noite.