Lília Diniz – Presidente da Associação Cultural Casa das Artes
O reconhecimento e a valorização dos mestres e mestras da cultura popular são resultado de uma longa caminhada construída coletivamente por movimentos culturais, mestres da tradição, pontos de cultura, pesquisadores, artistas e entidades culturais de todo o Brasil. Em Imperatriz (MA), a Associação Cultural Casa das Artes vem contribuindo com esse debate desde 2008, fortalecendo ações de valorização das culturas populares e da memória tradicional da região Tocantina.
Agora, quase duas décadas depois do início dessas mobilizações em diversos territórios do país, nesse dia 21 de maio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou, durante a 6ª Teia Nacional da Cultura Viva, o decreto que cria a Política Nacional para as Culturas Tradicionais e Populares — um marco histórico para o setor cultural brasileiro e resultado de anos de articulação dos movimentos culturais em defesa das tradições populares brasileiras.
A Casa das Artes, que é Ponto de Cultura em Imperatriz, realiza desde 2008 o Festival de Cultura Popular de Imperatriz, iniciativa que se consolidou como um importante espaço de articulação cultural da região Tocantina. Ao longo de suas cinco edições, o festival reuniu mestres da cultura popular, artistas, pesquisadores, estudantes e representantes do poder público em oficinas, apresentações culturais, aulas-espetáculo e audiências públicas voltadas à valorização das tradições populares maranhenses.
As programações contemplaram diversas expressões culturais, como bumba meu boi, cacuriá, lindô, mangaba, forró, capoeira, quadrilhas juninas, cultura hip-hop e repentistas. Cada edição também homenageou uma mestra ou mestre da cultura popular, reconhecendo pessoas responsáveis por manter vivos os saberes tradicionais da cidade. Em 2008, a homenageada foi a Mestra Dona Francisca do Lindô; em 2016, a Mestra Maria do Amparo; em 2018, o Mestre Osório Neto, líder da Companhia de Dança Sotaque de Rua; em 2020, a Mestra Paizinha da Panelada; e, em 2025, o Mestre Genú Sanfoneiro.

O principal marco desse processo aconteceu em 2016, durante a segunda edição do festival, quando a Casa das Artes apresentou à Câmara Municipal de Imperatriz o Projeto de Lei dos Tesouros Humanos Vivos da Cultura Popular Tradicional. Inspirada em legislações já existentes em outros estados brasileiros, a proposta defendia políticas permanentes de reconhecimento e apoio aos mestres e mestras da cultura popular. Na ocasião, o evento contou com a presença do representante do Ministério da Cultura, Reginaldo Freire.
A iniciativa mobilizou artistas, universidades, movimentos culturais e sociedade civil em uma série de audiências públicas e discussões sobre patrimônio imaterial e memória coletiva. Entre os nomes reconhecidos como referências da cultura popular local estavam Mestra Francisca do Lindô, Mestre Marcelino Aboiador, Mestre João da Cruz, Mestra Maria do Amparo, Mestre Osório, Mestra Paizinha da Panelada, Mestre Constâncio da Cerâmica, Mestre Escurinho do Samba e Mestra Duzinha do Cordel, entre outros.

Em 2025, a Casa das Artes realizou uma nova audiência pública para retomar a discussão do Projeto de Lei de proteção ao Mestres e Mestras Mestra, agora chamado de Mestra Francisca do Lindô, reunindo artistas, mestres populares, parlamentares e coletivos culturais em defesa da criação de uma política permanente de salvaguarda dos saberes tradicionais.
A criação da Política Nacional para as Culturas Tradicionais e Populares também estabelece novos desafios e responsabilidades para estados e municípios brasileiros. A partir do decreto federal, os entes federativos passam a ser chamados a construir políticas locais de reconhecimento, salvaguarda, fomento e proteção dos mestres e mestras da cultura popular, adequando legislações, programas e mecanismos de financiamento às novas diretrizes nacionais. Nesse contexto, municípios como Imperatriz precisam atualizar suas políticas culturais e avançar na implementação de instrumentos permanentes de valorização das culturas tradicionais, fortalecendo iniciativas como a Lei dos Tesouros Vivos e garantindo que os saberes populares sejam tratados como patrimônio essencial da identidade brasileira.
Para a Casa das Artes, a conquista reafirma que Imperatriz esteve entre as cidades que anteciparam debates hoje considerados centrais para as políticas públicas culturais do país: o reconhecimento dos mestres da cultura popular como guardiões da memória, da identidade e dos saberes tradicionais do povo brasileiro.
A Associação Cultural Casa das Artes, junto aos mestres, brincantes, artistas e coletivos culturais da região que bebem da fonte da cultura popular com reverência, celebra este momento histórico e segue acreditando que cultura popular não é passado: é tecnologia ancestral de futuro, identidade, pertencimento e resistência.
Seguimos.
Porque quem cuida da memória do povo, cuida também do futuro.