quarta-feira, 19 de agosto de 2026

UM CONTO AOS DOMINGOS #072 – A mulher e o RIO (Helena Frenzel)

Publicado em 23 de maio de 2026, às 12:02

“Não vá pisar em esporão de arraia, hein?!”, disse o guia assim que ela pôs os pês nas águas do grande rio. Eram águas turvas, frias, águas fortes. Seguindo exatamente o conselho da tia, que muito lhe dizia que antes de entrar em águas (ou terras) novas sempre era bom pedir licença, ela pediu. Agora, lembrando de tudo isso, ela se perguntava de onde a tia teria tirado aquela história, e não precisava ir muito longe para saber que só poderia ter vindo do conhecimento ancestral que carregam os povos indígenas e quilombolas, povos que estavam em seu sangue, assim como um arsenal de conhecimento que foi passado de geração em geração, e que a Academia ainda insiste em desprezar chamando de superstição.


O fato é que nossa protagonista pôs o pé na água do rio e, segundos antes, pediu a permissão dos Encantados e Entidades que ali estavam, guardando aquele lugar sagrado, porque assim manda a boa educação que se faça, que se peça licença antes.


E a água estava fri-inha e refrescante naquele final de tarde. E não, ela não pisou em nenhum esporão de arraia. O companheiro, fascinado que era pelas belezas naturais, entrou também no rio. A curiosidade na pele dele parece ter atraído os peixes ribeirinhos, que logo vieram catar o que comer naquela pele tão pouco acostumada a águas livres. O guia dos dois, muito simpático, entrou também e logo deu um mergulho, porque aquela parte do rio era apropriada para o banho, e até uma tábua de lavar roupas estava ali, testemunhando a labuta de toda vida das mulheres que vivem às margens.


Ela, por sua vez, foi entrando devagar, sentindo a massagem que lhe fazia a correnteza sob a água, e viu (com os olhos da fantasia) imagens do reino encantado do príncipe Escamado, com quem a menina do nariz arrebitado, que vivia num sítio, costumava se encontrar sob as águas claras de um riacho. Ou melhor, nas águas de um riacho, pois o que há sob as águas de um rio ou mar não está claro, é chão, rocha, areia, é um mundo que ainda querem que seja desbravado e que só os equipamentos exploradores (de matéria fóssil) podem alcançar, um mundo que é melhor que deixemos quieto, para o bem de todos nós. Ou pode ser que lá no fundo do rio, bem no fundo, exista mesmo uma nave alienígena, com seres pacíficos que estão tentando salvar a humanidade de sua própria loucura. Por aí se vê o tipo de leituras que nossa protagonista fazia, pelo menos quando criança, e sem falar que ela também lembrou de Júlio Verne e suas viagens submarinas.


Os sábios habitantes indígenas de lugares como a Austrália costumam dizer: Deixem em paz os rios e as montanhas! Mas o ser humano não aprende, segue a destruição em massa, pois tudo precisa ser transformado em dinheiro, coisas de não-comer, daí a tristeza que ela sentiu à medida em que ia se deixando levar pelo aconchego daquelas águas tão acolhedoras que, como se supõe, têm medo dos homens maus.


O imperador da Imperatriz, uma canção que tocava nas rádios na época, ajudou nossa protagonista a fazer desse lugar, em sua memória, um lugar mítico, um lugar de contato com essas águas tocantinas surreais.


Logo o guia desamarrou uma canoa e disse que subissem, que ele os levaria a um passeio pelo rio para que sentissem o pôr do sol. Todos subiram, o guia remava, ela e o companheiro viviam aquele momento inesquecível vendo a canoa abrir com delicadeza seu caminho por entre as águas.


Tanto lugar pra vocês irem, por que este?, alguém perguntara-lhe certa vez. Realização de sonho!, ela respondera. É preciso entender a força do sangue ancestral que o rio inserta nas veias dos que são dele…


Não demorou muito e os raios dourados do sol tocaram a todos com seu beijo de despedida (dando adeus àquela tarde). A paz desse momento apenas foi quebrada por um barco grande, um Ferry, que ia de uma margem a outra, sendo que do outro lado ficava uma cidade (também) com nome yanque: Filadélfia. Ela não se lembrava mais dos detalhes geográficos, mas ainda sentia o beijo suave que recebeu do companheiro, a magia dos restos dos raios de sol e o abraço das águas nas pontas dos dedos.


Quando, inebriados de tanta beleza, voltaram às margens carolíneas, a memória daquelas águas já estava eternizada em suas mentes e corpos: tatuada em neurônios.


A mulher e o rio…


Ela havia de fato sentido a vida daquelas águas em toda a sua majestade. O encontro com a vida e a Entidade daquele rio, a experiência de ser por ele acolhida e acariciada, não poderia caber jamais no enquadramento esteto-estático de qualquer tela ou filme.

SOBRE A AUTORA – Helena Frenzel nasceu e se criou em São Luís do Maranhão (Brasil) no início da década de 1970. Aos 30 anos mudou-se para a Alemanha, onde vive atualmente. Formada em Ciência da Computação e Romanística, joga-se com gosto (e com um certo medinho) no trapézio (sem rede) da Literatura. Por volta de 2007 começou a publicar seus textos na Internet. A seu nome (na rede) estão associados os projetos Quintextos, Quinze contos mais, Bluemaedel lê e Sem vergonha de contar. Também gravou áudios para o canal Fantástico Feminino no Youtube, projeto dedicado à leitura de obras de autoria de mulheres. Participou das antologias de contos Gandavos – terceiros contos (2013) e Gandavos – um bicho para chamar de meu (2015) e da antologia Mural das Minas (2024), com poemas e um conto. De março de 2021 a agosto de 2024 manteve a coluna De contos, causos e oralidades no site Notícias da Região Tocantina. Para que possa ser lida por qualquer pessoa que assim desejar, quase toda a sua produção literária encontra-se disponível gratuitamente na rede em formato pdf. Alguns de seus poemas mais recentes estão no primeiro volume da coletânea 15 Letripulias+, publicação independente (edição da autora) que pode ser baixada no site quintextos.blogspot.com.

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