quarta-feira, 19 de agosto de 2026

UM CONTO AOS DOMINGOS #071 – A mulher e o triângulo no círculo da linguagem Ká (Helena Frenzel)

Publicado em 16 de maio de 2026, às 10:39

A mulher entrou naquele clube com o amigo e o namorado. Entrou porque o namorado e o amigo fizeram questão, queriam saber o que estava rolando na roda de conversa, na qual um grupo de jovens discutia sobre uma linguagem chamada Ká.


Com ela, com aquela linguagem, era possível fazer muitas coisas se moverem no espaço, era uma linguagem para animar seres. A mulher, o namorado e o amigo, uma vez no clube, ocuparam os lugares vagos na roda, e ficaram distantes um do outro. O namorado e o amigo sentaram-se à frente dela, ela sentou-se mais ou menos diante dos dois, formando com eles um triângulo naquele círculo de oradores.


E naquele triângulo curioso, a mulher era quem mais sabia sobre linguagens, programação e máquinas, pois foi o que ela havia estudado, porém o interesse maior (no tema) era do namorado, que queria saber o que rolava naquela roda de discussões. Os três se sentaram e começaram a ouvir (calados) o que vinha sendo discutido ali sobre a linguagem Ká.


Ao lado do vértice do triângulo onde ela se encontrava havia um outro ponto: um rapaz (bem apessoado) que, enquanto ouvia o que outros falavam, inclinou a cabeça em seu ombro, no da mulher (claro!) e ficou nela se aconchegando. No princípio, ela não se sentiu incomodada, mas depois sentiu incômodo, ao notar que até estava gostando do calor daquele corpo estranho e, de soslaio, olhou para o vértice no qual se encontrava o namorado, sentado tranquilamente, ouvindo a discussão.


Parece que ele também havia notado a estranha proximidade do ponto vizinho, mas seu olhar estava calmo, como se aquele comportamento fosse a coisa mais natural; e era, porque cada um é dono do seu cada qual, ninguém pertence a ninguém, além de a si próprio. Bem, pelo menos essa era a ideia dominante na comunidade. As discussões na roda foram ficando mais calorosas, e cada vez mais o rapaz ao lado achava conforto no ombro da mulher quieta. Ninguém naquele cenário via as coisas com as lentes da anormalidade, era como se tudo fosse muito natural. E de verdade era.


Sem perceber, a mulher foi se concentrando nos movimentos de aconchego daquela cabeça em seu ombro e se esqueceu de todo o resto, até que procurou no círculo pelo lugar em que seu namorado (até há pouco) estava sentado e lá não o viu mais. O amigo, ao que parece, também debandara, ambos haviam deixado a cena do triângulo (na roda) devagarinho, praticamente sem serem percebidos.


E a mulher não teve tempo de pensar em mais nada, o aconchego entre ombro e cabeça foi ficando mais estreito, aumentou o atrito com outras partes do corpo, que foram entrando na pauta e seguindo as notas da sinfonia que regia àqueles corpos, até terminar num concerto de instintos onde os corpos se soltam e bailam, e isso tomava toda a sua atenção, exigia concentração máxima.


Ela não sabia mais quem era (algum dia soube?), nem onde estava, nem como, nem por que; os corpos falavam e cada vez mais ela se sentia envolvida, culpada e levada por aquele ponto desconhecido rumo ao desenlace, e todos os outros pontos do círculo é como se não estivessem lá, as discussões sobre a tal linguagem Ká continuavam, como se nada mais ali houvesse. Passado esse momento ébrio de intersecção catártica, ela saiu do transe já sem a proximidade do corpo estranho e se sentiu só, embora estivessem todos ainda ali, falando sobre as propriedades da linguagem poderosa, de como ela pode dar a seres inertes a animação vórtice, o cerne que precisavam ter para servirem a propósitos alheios.


Então ela se lembrou de ambos, do amigo e do namorado, e sempre da sua culpa (que em verdade nem era dela, e culpa de quê, né?) e quis ir atrás deles para contar a novidade: havia decifrado os segredos da linguagem, e agora bem sabia como usá-la pra fazer o que quisesse. Antes, porém era preciso deixar aquele círculo, sair daquele clube escuro e fechado, elíptico, achar uma abertura pela qual passasse o sol, e seguir os raios. E foi o que ela fez: correu em direção à janela mais próxima quase toda coberta, que peneirava o sol pelas frestas. Abriu-a de par em par, subiu no parapeito e… saltou!, mesmo sabendo que estava muito longe do térreo. “Apareceu então no seu rosto um sorriso amplo e silencioso que não desapareceu mais.”, porque na linguagem Ká a vida é um deadlock. Lá embaixo, na esquina, o amigo e o namorado fumavam e continuavam esperando para saber das novas.

(Trecho de Na colônia penal, Franz Kafka)

SOBRE A AUTORA – Helena Frenzel nasceu e se criou em São Luís do Maranhão (Brasil) no início da década de 1970. Aos 30 anos mudou-se para a Alemanha, onde vive atualmente. Formada em Ciência da Computação e Romanística, joga-se com gosto (e com um certo medinho) no trapézio (sem rede) da Literatura. Por volta de 2007 começou a publicar seus textos na Internet. A seu nome (na rede) estão associados os projetos Quintextos, Quinze contos mais, Bluemaedel lê e Sem vergonha de contar. Também gravou áudios para o canal Fantástico Feminino no Youtube, projeto dedicado à leitura de obras de autoria de mulheres. Participou das antologias de contos Gandavos – terceiros contos (2013) e Gandavos – um bicho para chamar de meu (2015) e da antologia Mural das Minas (2024), com poemas e um conto. De março de 2021 a agosto de 2024 manteve a coluna De contos, causos e oralidades no site Notícias da Região Tocantina. Para que possa ser lida por qualquer pessoa que assim desejar, quase toda a sua produção literária encontra-se disponível gratuitamente na rede em formato pdf. Alguns de seus poemas mais recentes estão no primeiro volume da coletânea 15 Letripulias+, publicação independente (edição da autora) que pode ser baixada no site quintextos.blogspot.com.

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