Era um dia chuvoso, tempo fechado… Marina sempre foi uma menina que preferia o dia ao invés da noite, que escolhia olhar mais para o lado bom do que o lado ruim das coisas, que caminhava e se adaptava em sua infância com resiliência. Mas, naquele dia, o dia se fechou dentro dela também. Esta parece não ser uma história feliz, não é mesmo? Mas tudo depende dos olhos de quem vê. Venha comigo!
Marina teve uma infância diferente, sentia a responsabilidade de ser forte e adulta, principalmente diante de algumas tribulações familiares. Ela pensava que não deveria ser mais um problema. Eram apenas ela, o pai e a mãe contra o mundo, pensava… Ela aprendeu a “engolir o choro”, a ser a primeira a dizer “eu resolvo” mesmo sem saber sequer por onde começar. “Não posso dar trabalho”. Pensava.
Um dia, ela se sentiu mal, até culpada. Era seu aniversário, tinham se mudado de cidade há pouco tempo e não conheciam quase ninguém, mas teve vergonha de pedir por uma festinha, um bolinho que fosse. Passou o dia querendo falar, mas segurando a língua. Enfim, a inocência da jovialidade não aguentou e pediu:
– Mãe, deixa eu chamar as crianças da rua, só pra um bolinho e uma Fanta? Quem sabe uma maria-mole?
Uma lágrima ligeira passeou pelo rosto de sua mãe. Como se sentiu boba e culpada! Não deveria ter pedido isso, mas sua mãe logo respondeu:
– Claro! Vamos ajeitar!
Eram tempos difíceis, em vários sentidos. Em sentidos que talvez Marina nem devesse saber. Marina era uma criança que vivia doente, tinha pesadelos e imunidade baixa segundo os médicos.
Depois de um tempo, as coisas melhoraram. Marina teve uma infância bem vivida, alguns diriam, até feliz. Os pais se estabilizaram, criaram raízes na nova cidade. Claro que com algumas visitas ao hospital para não perder o costume. Mesmo assim, toda cicatriz deixa marcas, e ela tinha algumas para colecionar. Marina cresceu carregando esta responsabilidade.
Não posso dar trabalho, devo ser uma boa aluna, uma boa filha, não posso adoecer. Nem parecia que estava em casa às vezes. Silêncio, quarto arrumado, brincava sozinha, assistia a filmes, não chorava nem reclamava…
Um dia, todo sentimento internalizado, silenciado, foi sintomatizado. O corpo precisava de uma válvula de escape! A panela de pressão finalmente explodiu. O que era dia virou noite, o que gostava perdeu a graça, o que era colorido não tinha mais cor. Não queria sair da cama nem ter amigos, tudo era entediante.
– É da idade! Depressão! Disse o médico.
Seguia a vida no automático, tinha virado ‘expert’ nisso. Nada nem ninguém eram interessantes o suficiente.
– A vida não pode se resumir a isso: estudar, casar, trabalhar, morrer, fim. Não quero isso para mim. Pensava.
Começou então a buscar algo, um sentimento, uma emoção, alguma coisa que lhe palpitasse o coração. Procurava a tão falada “felicidade”. Encontrava algum prazer em atividades do dia, mas durava pouco tempo e sua excitação passava. Novos hobbies, novos amigos…Tudo igual. Mais dia menos dia, sabia que entraria na lista. Sim, ela tinha uma lista! Lista de pessoas e coisas que foram importantes por um dia ou por um instante, mas que hoje não significavam muita coisa. Não era pessoal. Ela queria desesperadamente se importar.
Certo dia, foi a um enterro. Não derramou uma lágrima.
– Será que há algo de errado comigo? Será que estou morta por dentro? Todos estão chorando. Alguns nem gostavam do morto, quanto cinismo! Será que estão fingindo? Pensou.
O tempo foi passando e um vazio ia se abrindo dentro dela. Muita coisa havia perdido o sentido e ela não conseguia cultivar amizades. O simples viver do dia a dia era cansativo e tedioso.
Encaminharam a menina para um psiquiatra!
– Ela precisa de um cachorrinho, um companheiro, que lhe dê responsabilidades! Disse o médico.
Isso foi providencial, um anjo que lhe foi enviado e que ajudou muito. Foi algo que deu sentido a sua vida e fôlego na caminhada. Mas, infelizmente, não era o bastante… Foi quando alguém lhe disse:
– Isso é falta de Deus!
– Quanta audácia! Como assim? Quem esse ser humano pensa que é? Agora decidiu que sabe da minha vida e tem a solução? Claro que tenho Deus! Pensou.
– Espera um pouco, eu não tenho ido à Igreja… Será que Deus sabe onde eu estou? Deveria eu ir lá? Pensou ela, reflexiva.
Se aquele comentário tinha a intenção de ofender, falhou. Pois ele acendeu uma faísca dentro dela. Dentro de uma pessoa que pensava ser a Bíblia só mais um livro…
Marina voltou ao médico.
– Ela precisa de medicação e exercício físico! Disse o Doutor.
Ela obedecia ao médico, mas sabia que algo ainda lhe faltava. Quem já tomou esse tipo de medicação sabe. É como uma boia salva-vidas em um mar revolto! É necessário tempo para que possamos navegar e acalmar esse mar que é nossa mente. Marina tentou vários esportes e mudou de medicação muitas vezes. Enquanto fazia tudo o que o médico receitara, começou a procurar por mais. Procurou em lugares errados, procurou nas pessoas erradas. Desistiu. Voltou a acreditar. Não era possível ser só isso.
Passou a ir à missa todos os domingos. Passou a orar. Chorava muito pedindo orientação. Nada. Silêncio… Fez promessa, novena, quaresma… Silêncio.
Procurou em outras igrejas. Na-da! Mas não desistiu. Orava sempre com o mesmo pedido e aquelas preces acalmaram o seu coração. Ela começou a ver as cores novamente, voltou a sorrir e até achar graça em algumas coisas.
Um novo problema de saúde apareceu. Você pensa que agora seria a hora de uma reviravolta na história, não é? Eu também pensei, mas nada aconteceu que valha a pena ser contado aqui. Apenas os pesadelos diminuíram consideravelmente. Já era alguma coisa…
Sua vida até parecia bem do lado de fora, ninguém imaginava que por dentro ela não passava de um saco de cacos quebrados. Marina sabia disfarçar. Eis que começaram as crises de ansiedade. Ela não se achava boa o suficiente, merecedora de nada… Ah, como eram debilitantes esses sentimentos! Ela não comia, tinha uma vida frenética, trabalhava duro de dia, faculdade à noite, um noivo, um casamento a caminho, uma vida lhe aguardava…
Um belo dia, tudo parou. Marina sofreu um acidente que mudaria as coisas. Tudo ficou escuro. Ela caiu no chão e não sentia as pernas. No lugar mais improvável, algo mudou. Não chorou nem reclamou. Apenas agradeceu. Agradeceu a Deus. Ali, naquele chão frio. Agradeceu!
Ela agradeceu pelo fato de o acidente ter acontecido com ela e não com as pessoas que amava, porque, apesar de tudo, uma coisa ela sabia: que era forte! Que aguentaria, porque assim Deus a fez. Aquele, talvez, foi o momento em que ela esperou por tanto tempo. Uma porta cheia de luz finalmente se abriu.
Ela havia procurado em tantos lugares, mas foi Ele que a encontrou, onde ela estava, quando estava pronta para recebê-lo.
Os encontros com Deus não são necessariamente como se idealiza ou se imagina nem onde se espera. Você precisa estar pronto, você precisa permitir o agir Dele.
Hoje Marina vê o quanto ela precisava desse encontro. Hoje ela entende que para experimentar a paz que excede o entendimento e dormir na tempestade é preciso descansar Nele!
Este não é o fim de Marina. Marina andou! Não apenas andou como também correu! Correu em direção a tudo o que sempre quis! Agora ela quer correr com os cavalos!
Esta, na verdade, é a história de como tudo começou. Foi a partir desse evento que tudo passou a fazer sentido, que Deus começou a agir e curar a vida de Marina. Ela não virou santa. Ela encontrou alguém que a ama incondicionalmente, que a ajuda a carregar o fardo, que a perdoa por suas falhas para que ela possa ser uma pessoa melhor para si mesma e para os que a rodeiam.
Vários desafios vieram depois disso, mas ela deu conta de todos. Não porque era forte como sempre pensou que precisava ser quando pequena, mas porque ela não estava só. Na verdade, ela nunca esteve, apenas não sabia.
Ele não prometeu retirar as dificuldades e as dores, estes moldam o caráter e aumentam o propósito, mas mostrou-lhe que ela nunca estaria só, que não precisaria nunca mais ter medo. E isso mudou tudo!
Marina hoje sabe que somos seres que precisam cuidar do que nos alimentamos, fisicamente e espiritualmente. Os lobos que alimentamos dentro de nós acabam ditando os caminhos que trilhamos na vida!
Não tema as renúncias que você vai ter que fazer para andar com Deus, porque são elas que vão lhe conferir autoridade na sua vida.
O que precisamos ser para superar as dificuldades que enfrentamos em alguma fase da vida não nos define. Deus faz nova todas as coisas e é o Senhor de recomeços!
Eu asseguro: Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não será condenado, mas já passou da morte para a vida. (João 5:24)
Agora o sol nasce em Marina, mas a luz não vem dela.
Marina sou eu. Hoje eu estou viva de verdade e sou uma série de testemunhos vivos! Mas essas são histórias ficam para um outro dia.
Se você tem dúvida de que Deus quer fazer parte da sua vida, eu posso confirmar: TODAS AS OVELHAS IMPORTAM! Mas não basta Ele querer, é preciso convidá-lo para fazer parte do seu íntimo, estar preparado para recebê-lo e assim, só assim, você não precisará mais sobreviver no meio de um mar revolto. Para que boiar se Ele convida você a andar por sobre as águas e a mergulhar mais fundo do que você jamais imaginou ser possível?
Se diante de mim, não se abrir o mar, Deus vai me fazer andar por sobre as águas. Trecho da música ROMPENDO EM FÉ – composta por Ana Feitosa, Edson Feitosa e Marco Peixoto.

SOBRE A AUTORA – Andressa de Alencar Picoli Marinho – ANDRESSA PICOLI – nasceu em Vitoria, Espírito Santo, em 13 de setembro de 1986. Formada em Direito pela FACIMP (Faculdade de Imperatriz), com especialização em Docência pela FGV (Fundação Getúlio Vargas) e Pós-graduação em Bilinguismo pela UniDBSCO (Centro Universitário UniDomBosco). Casada com Roberto Brito Marinho e mãe da Angelina e da Valentina. Advogada e Coordenadora do Programa Bilíngue do Colégio Delta, sua “escola de Infância”, o que lhe traz muito orgulho e gratidão! O amor pelas palavras vem da mãe, a poeta Adriana Moulin de “Nua como a Lua”(2015) que é Médica, pianista, membro da Academia Imperatrizense de Letras e também autora de vários outros livros, dentre eles, “Para sempre nosso Sol – Todos os pais são heróis”(2008), no qual Andressa Picoli teve a honra de fazer uma contribuição. Participou da coletânea “Mural das Minas” (2024) Antologia literária feminina maranhense.
Uma resposta
Um relato que começa na contenção e deságua no encontro. Há, em Marina, uma infância que aprende cedo demais a silenciar, e um corpo que, mais tarde, cobra o preço desse silêncio. O texto caminha entre a dor e a busca com honestidade rara, até alcançar não uma solução fácil, mas uma experiência de sentido. Não é a ausência da tempestade que a sustenta, mas a descoberta de que não está só dentro dela. Um testemunho delicado sobre fé, mas, sobretudo, sobre reaprender a viver.