A noite chegou, arrastando-se lentamente e mais uma vez eu esperava a hora de ir dormir. Queria descobrir o mistério do sonho que me deixava em êxtase e cheia de perguntas. Arrumei minha cama como fazia sempre, era um ritual meu, desde que me entendi por gente fazia aquilo todas as noites. Nunca gostei de cama bagunçada, o lençol da cama tinha de estar bem arrumado, sem uma nesguinha sequer.
Minha vida sempre foi cheia de alguns rituais dos quais eu não conseguia me libertar.
Tomei meu banho e deitei.
Vi um pouco de televisão e por fim o sono chegou. Desliguei a televisão e me preparei para dormir.
Adormeci. E, novamente, me vi naquele lugar…
“Era como se fosse tão conhecido, tão meu. Era uma cidade submersa nas profundas águas do Nilo. Sim, era o Nilo; eu sabia! Eu deslizava por baixo da água como um peixe e via todas as ruínas do que outrora tinha sido uma cidade. Parei em frente a um portão enorme, onde se lia ‘MORADA DO GRANDE SACERDOTE MENES’. Aquele nome, aquele palácio, o imenso jardim fizeram meu coração chorar silenciosamente numa saudade infinita. Como telespectadora que eu era, vi tudo como se fosse um filme. E só então me dei conta de que ali tinha sido também minha morada em tempos remotos; milênios já haviam passado.
Vi uma senhora muito jovem sentada no jardim à sombra de uma Oliveira. Tinha uma pele alva, delicada, cabelos cor de avelã madura. Era de um olhar tão puro e sorriso angelical, parecia desprovida de todas as maldades do mundo.
De repente surgiu um homem alto, esbelto, de pele bronzeada, vestindo uma túnica branca, simples, mas possuidor de uma elegância fidalga, seu rosto transbordava uma grande bondade.
Ele chegou por trás da jovem senhora e a tocou no ombro carinhosamente. Ela virou a cabeça e sorriu para ele dizendo:
– Chegaste cedo querido, a reunião no templo foi adiada?
Ele ficou de frente para ela e, agachando-se, colocou as mãos sobre seu joelho e disse:
– Não, minha querida, antecipamos e eu voltei logo para casa; hoje senti uma vontade enorme de estar perto de você, sinto um aperto no peito.
Ela acariciou o rosto do homem dizendo:
– Meu esposo anda muito preocupado ultimamente, tenho observado seu sono inquieto. O que está afligindo seu espírito?
Ali, sentada naquela pedra, eu chorei, e só então lembrei do quanto tinha sido feliz ao lado de Menes. E chorei ainda mais, após lembrar o que havia acabado tamanha felicidade, tamanha harmonia.
Porém o amor não tinha mudado, esse tinha ficado intocado, eternizado nos séculos até tornarem-se milênios.
Mergulhei e novamente deslizei entre as ruínas da grande cidade submersa.
Outra vez parei e admirei a grande lápide do cemitério milenar. Lia-se: AQUI JAZ O TERROR DO NILO: CONDE AMUN.
Meu espírito sentiu uma tristeza infinita, doída. E, outra vez, o filme passou diante de meus olhos.
Então a figura do conde Amun surgiu em minha lembrança. Era um homem de beleza sem igual, sua pele alva era um contraste perfeito com sua cabeleira negra, de olhos escuros e misteriosos, possuidor de uma voz encantadora.
Lembrei-me do dia em que o tinha visto pela primeira vez. Eu e Menes tínhamos ido ao Palácio do Imperador em um jantar oferecido ao conde Amun, que tinha voltado para morar em Assuam. Ele encantou todas as mulheres da época, porém se encantou por mim.
Chorei compulsivamente, sem poder conter os soluços. Lembrei que, logo depois daquela noite, mulheres começaram a desaparecer e depois seus corpos eram encontrados no Nilo, já em estado avançado de decomposição.
Não demorou muito para surgir o boato de que um vampiro assombrava a cidade de Assuam. Só então entendi a ansiedade de Menes ao voltar cedo para casa, de suas noites de insônia. O medo havia tomado o lugar da paz que outrora desfrutávamos em nossa cidade amada.
Lembrei-me das vezes que raramente encontrei com o conde Amun, geralmente à noite, pois ele nunca era visto durante o dia, dizia sofrer de uma insônia que o maltratava muito.
Voltei novamente ao portão do palácio que tinha sido meu e de Menes. Revivi nossa última tarde de amor; ele chegara outra vez mais cedo do templo, mandou os empregados prepararem um banquete na parte mais bela de nosso jardim, foi até onde eu me encontrava e me agarrou como se levanta uma criança, levando-me para a ala do jardim onde estava o banquete. Ali nos deliciamos com uvas, tâmaras, damascos, pães e, por fim, uma taça de vinho. Deitada com minha cabeça em suas pernas, Menes acariciava meu rosto e fazia juras de amor eterno. Eu o amava tanto! Nos beijamos e ali mesmo fizemos amor, um amor cheio de amor, onde se sentia o encontro de duas almas como se fossem únicas.
Me vi levantar para dar uma ordem a uma das criadas. Menes ainda tentou me reter dizendo:
– Querida, não precisa ir, deixe que quando entrarmos resolvemos isso.
Eu relutei e disse:
– Não, meu amor, preciso ir agora, volto já.
Não voltei! Outra vez chorei compulsivamente quando lembrei que nunca mais voltei para Menes e nem o vi. Vi-me andando alegre com minha túnica branca, transparente, solta com uma corrente de ouro presa à cintura, com um riso que denunciava toda minha felicidade. Senti quando dois braços fortes me agarraram e um cheiro forte me fez perder os sentidos.
Quando acordei estava em um quarto enorme, de um luxo fora do normal. Assustada, tentei levantar, mas minha cabeça pesou e eu caí novamente sobre os lençóis de seda pura. Ao abrir os olhos, vi Amun me admirando, que sorriu para mim e disse:
– Até que enfim ocupas o lugar que realmente é teu. Tu sempre foste a dona de tudo isso e do meu coração.
Relutei, queria fugir. Impossível!
Lembrei-me de Menes, de minha casa, da nossa vida tão feliz, do amor que nos unia e chorei pedindo clemência. Amun parecia indiferente ao meu choro. Observava-me silenciosamente e saiu dizendo:
– Vou mandar trazer seu jantar.
Pouco tempo depois, entrou o criado com a bandeja nas mãos dizendo:
– Minha senhora, seu jantar! Tão logo aceite sua condição de dona do palácio, fará suas refeições com o conde Amun no grande salão.
Não toquei no alimento, meu pensamento estava em Menes e na nossa vida de felicidade. Alguns minutos depois, a porta abriu-se e entrou Amun nos aposentos, acompanhado de um criado que trazia nas mãos um cálice com um líquido de cor rosa. Amun caminhou em minha direção dizendo:
– Tome, ou serei obrigado a usar a força, coisa que não quero.
Sem me importar com a situação, empurrei a mão do criado com tal força que o líquido derramou-se sobre o chão. O criado olhou-me com um olhar de reprovação e muito medo, enquanto balbuciava:
– A senhora não devia ter feito isso.
Amun mandou o criado retirar-se e aproximou-se de mim, sentou-se à beira da cama e acariciou meu braço, eu me afastei dele e olhando para ele disse:
– Deixe-me ir embora.
Ele, com um olhar transtornado, disse-me:
– Você nunca sairá daqui. Serás minha! Serás a dona disso tudo!
– Eu não quero nada disso. Só quero voltar para minha casa, para meu marido.
– Esqueça aquele sacerdote fajuto. Seu lugar é ao meu lado. Você é a mulher que escolhi para ser minha para sempre. É por você que vivi séculos e séculos à tua procura e agora que te reencontrei, só descansarei quando voltares a ser minha como há muitos séculos foste.
Naquela hora, diante de tais palavras, eu não conseguia entender nada. Só sentia vontade de voltar para o sossego do meu lar. Quando o conde Amun percebeu que não iria conseguir me convencer, levantou da cama dizendo:
– Ficarás presa no quarto até o dia que resolver me aceitar como o amor de sua vida – e saiu batendo a imensa porta.
Quando ele desapareceu, eu me joguei sobre a cama e chorei. Chorei por mim e chorei por Menes. Enquanto chorava, pensava nas palavras que Amun tinha dito, insinuando que tinha me reencontrado. Abracei o travesseiro de penas de ganso e fiquei em posição de feto, meu pensamento estava em Menes e na nossa cama, palco de tantas noites de felicidades. Notei que uma fumaça azulada entrava por baixo da porta e o cheiro da fumaça foi embriagando meus sentidos. Desfaleci… e como se fosse um sonho eu me vi ao lado de Amun em tempos remotos e ali eu era a sua esposa, e fazia parte daquele mundo em que ele era o meu homem. Amun realmente devotava grande amor por mim. Porém também pude rever que ele me tinha ao lado dele contra minha vontade e que, através daquele licor que eu tinha jogado por terra horas atrás, vi que todas as noites ele me fazia tomar um cálice do licor de cor rosa e assim roubava toda minha resistência e me dominava fazendo-me ser sua, entregue ao amor e aos desejos dele. Só que, de uma forma que não consegui lembrar, eu havia me libertado e voltado ao mundo da luz, e quando retornei a esse mundo, a minha nova vida ao lado de Menes já tinha me redimido do amor amaldiçoado de Amun e nada me faria manchar o amor que era partilhado por mim e Menes. Em meio às lembranças de um passado que eu não lembrava mais, adormeci caindo em sono profundo com o meu pensamento em Menes.
Novamente sentada na pedra de onde admirava o grande portão da casa de Menes, e que também havia sido minha, foi que percebi que eu tinha sido forte o suficiente para não me deixar enfeitiçar com aquele licor que no passado tinha sido minha perdição e que o amor puro e angelical de Menes tinha me dado forças o suficiente para matar e morrer em nome do nosso amor. Porém chorei em silêncio, com uma dor imensa na alma.
Outra vez deslizei lentamente sobre as águas do Nilo em direção ao grande portão do cemitério milenar e parei em frente ao túmulo que dizia ‘AQUI JAZ O GRANDE SACERDOTE MENES’. Logo mais adiante, vi a lápide que dizia ‘JAZ AQUI ANIPPE, A VÍTIMA DO CONDE AMUN. A HISTÓRIA ENTRE O BEM E O MAL QUE SE ETERNIZOU NA CIDADE DE ASSUAM’. Descobri que a vítima era eu e que meu nome tinha sido Anippe. E chorando copiosamente vi o desenrolar do fim daquele amor que Amun dizia sentir por mim e o fim do amor que tinha unido Menes a mim naquela era milenar.
Vi todo o sofrimento de Menes que, não suportando meu desaparecimento, depois de longos meses de procura, veio a falecer de desgosto e amor. Vi que Amun tinha tentado de todas as formas me ter, vi todo meu sofrimento e orgulhei-me de minha coragem por não ter cedido aos prazeres que Amun me oferecia, assim como também vi que, no meu ato de desespero, eu regredi ao agir por impulso, no ato da vingança.
Vi quando o criado entrou no quarto em que eu me encontrava aprisionada e me disse que eu devia ceder aos desejos de Amun, porque Menes já não existia, que ele havia morrido. Meu coração sangrou, sofri e chorei toda minha dor. Naquele dia, tomei uma decisão e resolvi colocar um ponto final naquele sofrimento.
Na noite daquele dia, quando o criado foi levar o meu jantar, eu disse:
– Diga ao conde Amun que resolvi me entregar a ele.
Coloquei um punhal de prata embaixo do travesseiro e fiquei à espera do conde Amun, ele entrou no quarto com uma alegria que transparecia em seu olhar e chegou perto de mim dizendo:
– Até que enfim foste sábia. Agora serás livre e dona de tudo isso aqui. E me beijou apaixonadamente, eu retribui com ódio; em minha mente estava todo o plano traçado. O conde, achando que tinha me conquistado, foi deitando-me lentamente sobre os lençóis alvos de seda pura, coloquei as mãos sobre o tórax dele e pedi que levantasse um pouco mais e deitasse de vez sobre mim. Ele, enlouquecido de desejo, obedeceu-me e quando veio eu coloquei o punhal em direção ao seu coração. Foi certeiro! Vendo o sangue sobre mim, ele puxou o punhal do peito e disse-me:
– É o meu fim, mas te levarei comigo, para sempre!
Amun baixou sua boca sobre meu pescoço e cravou os dentes na minha jugular. Ali, no leito, fomos encontrados, um sobre o outro.
Morremos abraçados.
E, assim, vi o desfecho do fim de uma estória de vidas milenares.
Vi o fechar do ciclo de uma vida que ainda retém resquícios na vida atual.
A nuca!
O Pescoço!
O ponto G do meu prazer.

SOBRE A AUTORA – ELIANE MORAIS ARAÚJO é maranhense natural de Santa Inês. É escritora, poetisa e romancista. Pertence à SOBRAMES (Sociedade Brasileira de Médicos Escritores), é acadêmica imortal correspondente da Academia de Artes de Cabo Frio/RJ – ARTPOP – Cadeira Patronímica 168, e também membro correspondente da UBE-RJ (União Brasileira de Escritores do Rio De Janeiro), membro da AJEB (Associação das Jornalistas Escritoras do Brasil). A autora é participante ativa em congressos nacionais e internacionais, possui diversas poesias e contos em livros de Anais e Antologias. Em 2016, tomou posse na Cadeira de nº 146 como Membro Correspondente da Academia de Letras do Brasil/Suíça – ALB/Seccional Suíça. Em janeiro de 2017, tomou posse no Núcleo de Artes e Letras de Lisboa e no mesmo ano foi empossada no Círculo da Sociedade Civil Europeia de Belas Artes – La Societé Civile Européen des Beavaux-Arts, assim como tornou-se membro oficial do Le Cercle des Écrivains Luso-suisse de Genéve, ambas em Val de Loire – França. Tomou posse em 10 de Maio de 2018 na AJEB – RJ – Associação de Jornalistas Escritoras do Brasil, e é membro honorária da ABRAMES – Academia de Médicos Escritores e membro imortal da ATHEART – Academia Atheniense de Letras e Artes – São Luís, Maranhão.