No sudoeste do Maranhão, onde o crescimento urbano redesenhou paisagens e expectativas ao longo das últimas décadas, a história da educação superior pública foi sendo tecida — lentamente, entre demandas sociais persistentes, projetos políticos em disputa e aspirações coletivas que atravessaram gerações. É nesse horizonte que se inscreve a criação da Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão (UEMASUL).
Instituída pela Lei Estadual nº 10.525, de 3 de novembro de 2016, sancionada pelo então governador Flávio Dino, a UEMASUL representa um marco na interiorização do ensino superior público estadual. Sua criação sintetiza décadas de reivindicações por ampliação do acesso à educação, fortalecimento regional e autonomia acadêmica. Mais do que o surgimento de uma nova instituição, trata-se da materialização de um projeto coletivo construído por estudantes, professores, gestores públicos e diferentes segmentos da sociedade.
Ao completar uma década de existência, a UEMASUL já se inscreve de forma consistente no patrimônio educacional e científico do sul do Maranhão. Sua trajetória ultrapassa a dimensão administrativa recente e se articula à construção de um espaço simbólico onde memória, conhecimento e identidade regional se entrelaçam. Como observa Jacques Le Goff (2003), a memória é elemento constitutivo das identidades coletivas, continuamente reelaborada pelas instituições sociais. De modo semelhante, Pierre Nora (1993) destaca que determinados espaços se tornam “lugares de memória”, nos quais experiências históricas se cristalizam. Sob essa perspectiva, universidades não apenas formam profissionais, mas registram, interpretam e projetam as experiências das sociedades em que se inserem.
Nessa perspectiva, a compreensão da UEMASUL exige um recuo histórico. Desde a década de 1980, a Universidade Estadual do Maranhão iniciou a expansão de suas atividades para o interior do estado. Em Imperatriz, essa presença se materializou inicialmente por meio de cursos de licenciatura, voltados à formação de professores para atender à crescente demanda das redes públicas de ensino. Para muitos estudantes do sul do Maranhão — e de regiões vizinhas, como o atual estado do Tocantins —, essa interiorização representou a possibilidade concreta de acesso ao ensino superior sem a necessidade de deslocamentos.
Com o passar dos anos, essas iniciativas foram se consolidando institucionalmente. As unidades acadêmicas evoluíram para Centros de Estudos Superiores, ampliando a oferta de cursos para além das licenciaturas, incorporando áreas estratégicas, como Administração, Engenharias (Agronômica e Florestal) e Medicina Veterinária. A expansão alcançou também Açailândia, fortalecendo a rede regional de ensino superior público. Durante mais de três décadas, essas estruturas desempenharam papel decisivo na formação de profissionais que passaram a atuar tanto na educação básica quanto em setores diversos da economia e da administração pública regional.
Com a ampliação da oferta de cursos e o aumento da demanda regional, intensificaram-se os debates sobre a criação de uma universidade própria para a Região Tocantina. Professores, estudantes e lideranças regionais passaram a defender uma instituição capaz de responder de forma mais direta às especificidades sociais, econômicas e culturais do sul do Maranhão. Essa mobilização resultou no encaminhamento do Projeto de Lei nº 181/2016, de iniciativa do poder executivo, à Assembleia Legislativa do Maranhão. Após tramitação e consequente aprovação a proposta foi sancionada, culminando na criação da UEMASUL como autarquia pública estadual, dotada de autonomia didático-científica, administrativa e financeira, com sede em Imperatriz.
A área de atuação da universidade foi definida pelo Decreto Estadual nº 32.396, de 11 de novembro de 2016, abrangendo 22 municípios da Região Tocantina, conforme demonstra a Figura 02.
Essa delimitação evidencia o papel estratégico da instituição em uma região marcada pelo crescimento urbano e pela expansão econômica, mas também pela pluralidade de suas atividades produtivas e pela complexidade de suas dinâmicas sociais, culturais e históricas.
O processo de implantação da universidade exigiu uma transição administrativa cuidadosa, marcada pelo diálogo e por acordos de cooperação entre UEMASUL e UEMA. Esse processo foi conduzido pela Comissão de Transição e Instalação, responsável por realizar a transferência das estruturas anteriormente vinculadas à UEMA, organizar os órgãos iniciais de gestão e garantir a continuidade das atividades acadêmicas. Instituída pelo Decreto nº 32.397/2016, a comissão apresentou uma composição plural — com representantes do poder público, do corpo docente e do corpo discente —, evidenciando o caráter participativo do processo.
Os primeiros anos foram marcados pela estruturação organizativa, material, legal e pedagógica da instituição. A elaboração do primeiro Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI), em 2017, foi decisiva para orientar a expansão, estabelecendo metas voltadas à ampliação de cursos, à qualificação docente e ao fortalecimento da pesquisa e da extensão.
Ao longo dessa trajetória, a UEMASUL ampliou sua atuação em diferentes áreas do conhecimento, contribuindo para consolidar Imperatriz como um dos principais polos de ensino superior do interior maranhense. Paralelamente, fortaleceu projetos de pesquisa e extensão voltados às dinâmicas regionais e expandiu sua presença com novos campi, centros de ensino e programas de acesso, a exemplo do campus de Estreito e do Programa Caminhos do Sertão.
Hoje, em seu primeiro decênio, a UEMASUL afirma-se como parte da história do sul do Maranhão. Sua trajetória articula memória, território e conhecimento, constituindo-se em patrimônio educacional e científico em permanente construção. Mais do que formar profissionais, a universidade contribui para a construção de um legado intelectual que integra a experiência da Região Tocantina e reafirma o papel das instituições públicas na democratização do conhecimento e no desenvolvimento regional.
Referências
LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas: Unicamp, 2003.
NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História, São Paulo, n.10, dez. 1993, p.7-28.
2026.MARANHÃO. Lei Estadual nº 10.525, de 3 de novembro de 2016.
MARANHÃO. Decreto nº 32.396, de 11 de novembro de 2016.
MARANHÃO. Decreto nº 32.397, de 11 de novembro de 2016.
PDI (2017-2021) – UEMASUL, Imperatriz, 2017
PDI (2022-2026) – UEMASUL, Imperatriz, 2022

SOBRE A AUTORA – Regina Célia Costa Lima é professora (UEMASUL) e doutora em História, com experiência nas áreas da Educação, política educacional e movimentos sociais. Participou da criação da UEMASUL como integrante da Comissão de Transição e exerceu a função de pró-reitora entre 2017 e 2021, sendo atualmente diretora do curso de História. Na sua trajetória, além da docência, desempenhou funções de gestão acadêmica e pública, incluindo a Secretaria Municipal de Educação de Imperatriz. Desenvolve pesquisas sobre a história do Maranhão, com ênfase no sertão maranhense, bem como em temas relacionados a intelectuais, mulheres e educação. Atua em projetos de pesquisa e extensão voltados à memória e ao patrimônio, coordenando o Centro de Documentação e Memória (CEDOM). É sócia fundadora do IHGI, do IHGJL e do IMC.

