CONSULTA
O médico foi bem claro e direto. Se o senhor não se cuidar, ficará surdo em cerca de uma década. Saiu de lá desesperado. Porra! Ainda teria de ouvir a voz fanha da esposa por mais dez anos?
VANTAGEM
Ninguém entendia sua paixão pelo Gaguinho. Ela nunca contou. Mas, à noite, a sós, as sílabas não eram as únicas coisas que ele repetia 3 ou 4 vezes.
DECISÃO
Eu o amo. Ele me ama. Vamos morar juntos. Não importa o que vão dizer. Trabalhamos. Somos independentes. Temos dinheiro. Somos capazes. Somos rapazes.
SESSÃO
Ela sempre disse que odiava sexo. Até o dia em que, durante a consulta, aquela bela profissional a convidou para conhecer o novo divã.
SOLIDARIEDADE
Ele guardava parte do jantar para que a esposa tivesse o que almoçar. Ela reservava parte do almoço para que o marido não dormisse com fome. E, assim, os dois sempre se alimentaram daquele amor puro e eterno.
EXIBICIONISMO
Sua calça apertada só atraía pessoas interesseiras. Vinte notas de cem, bem enroladinhas, escondia sua falta de escrúpulos e de outros atributos.
PROJETOS
Ela fez o que pôde para ser minha namorada. Lutou para ser minha esposa. Agora, suponho, planeja ser minha viúva.
REFORMA
Hora de reformar o apartamento. De jogar fora as velharias. Livrou-se de livros. Da estante. Do sofá. Das cadeiras. Olhou para o lado. Pai, 93 anos; mãe, 87. A reforma teria que ser completa.
ÉDIPO
Geralmente, esquecia o nome das namoradas com facilidade. Menos daquela. A desgraçada tinha o mesmo nome que sua mãe.
OBEDIÊNCIA
Ela mandou-me calar a boca. Obedeci. Difícil dizer não para uma mulher que envenenou o marido para poder morar comigo.
INSULTOS
– Vaca! Galinha! Piranha! Cadela!…
– Porco! Veado! Boi! Cachorro!…
E, à noite, saciavam-se como dois animais.
FAMÍLIA
A família dela jamais aceitaria nossa relação. Namoramos escondidos por anos. Filhos adolescentes e marido velho são sempre pouco compreensíveis.
AMOR
É um amor verdadeiro. Não nos unimos por interesse financeiro. O amor trocado e as esmolas recebidas nos alimentam.
ALIMENTO
Na juventude, ela rica e linda. Eu, o oposto. Mil recusas e risos de deboche. Lágrimas derramadas em livros e cadernos. Hoje, em minha cobertura, faço de suas fotos e de seus lamentos postados na internet parte de minha refeição diária.
BEM SERVIDA
Ofereci-lhe meu coração em uma bandeja virgem e pura. Ela aceitou. Provou. Gostou. Saciada, partiu sem um adeus, deixando a bandeja encharcada de sangue e lágrimas.
CALENDÁRIO
Ela está curada. Disse o médico. Porra! Não posso mais acreditar nesse tosco calendário da morte. Aquele câncer extirpado acabou com todas as minhas esperanças.
NOME
Ela fora o único amor de sua vida. Agora era uma imagem nublada em sua retina, enquanto a maldita doença, em zombaria, insistia na pergunta: qual é mesmo no nome dela?
PERFEIÇÃO
– Você não se incomoda de eu ser tão sem sal? Todos os meus namorados me deixaram por isso…
– Nunca mude. Você a mulher perfeita para um velho hipertenso como eu.

SOBRE O AUTOR – José Neres – graduado em Letras, História, Pedagogia, Jornalismo, Gerontologia e Tecnologia em Design Editorial. Possui diversas especializações. É mestre em Educação e Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional. Foi professor da Faculdade Atenas Maranhense, da Faculdade Pitágoras e da Faculdade Santa Fé. Trabalha na rede privada e na Rede Estadual de Educação. Atualmente, trabalha também na Faculdade Edufor. Tem experiência na área de Letras e Educação, com ênfase em Literatura. Suas pesquisas são voltadas principalmente para estudos sobre literatura (espanhola, hispano-americana, brasileira, portuguesa, latina e maranhense), Educação, Meio Ambiente. Autor de dezenas de livros, entre poesia, crônica, conto e ensaios literários.É membro da AML da ALL, da APB, da ALCASJR e da Sobrames.