terça-feira, 15 de setembro de 2026

UM CONTO AOS DOMINGOS – #062 – IMORTALIDADE (Adriana Moulin)

Publicado em 15 de fevereiro de 2026, às 11:33

São onze horas. O dia já começou faz tempo em Santa Clara dos Abençoados. Aqui todos acordam muito cedo. A vida começa mansa, fria e lenta. Há apenas os sons melodiosos da roça e o cheiro inconfundível do café que perfuma todas as casas. Mas hoje tudo parece irreal e diferente demais do habitual.
A essa altura, todos já teriam almoçado e estariam ensaiando um sono tranquilo. É domingo, dia de missa, mas hoje também é o dia do enterro do Seu Ramiro.
A cidade parou. Todos estão assustados. Não que uma morte a mais causasse tanto espanto, mas Seu Ramiro, que já tinha vivido tanto, trespassado gerações, escondia a sua idade e se autoproclamava imortal.
Como poderia um imortal cometer o impropério de morrer?
Ninguém sabia mais explicar coisa alguma. Era mesmo o fim dos tempos. Todos estavam comentando que, depois desse tal de computador e das redes sociais, nada mais faria o mesmo sentido de antes. Felizes eram os tempos em que as explicações fatalistas respondiam todas as questões. Mesmo naquele tempo, só acreditava quem quisesse, mas todos queriam. Agora a cidade estava habitada por um batalhão de incrédulos.
A morte de Seu Ramiro nunca esteve nos planos dele próprio nem de sua família e, pelo visto, também da cidade inteira.
No salão anexo à Igreja, uma mesa abrigava os quitutes que nunca podem faltar em velórios: biscoitos de polvilho, broa de fubá, bolinhos de nata e café forte da melhor qualidade. Toda essa sorte de guloseimas, e outras mais, estavam sobre a grande mesa montada logo na entrada.
Amigos, inimigos e conhecidos acotovelavam-se para fazer uma “boquinha” e admirarem o morto. Ninguém saía dali sem tecer um comentário.
Enfim, chegou a hora tão esperada (ou jamais esperada) dos trâmites mortuários. Às quatro horas da tarde, como em um prenúncio apocalíptico, os sinos começaram a tocar. A igreja estava lotada, os odores hediondos de rosas de enterro e velas tomavam conta do local, e um calor infernal parece ter baixado propositalmente na cidade. Havia muitas pessoas chorando e todo aquele cortejo macabro, grotesco e medieval que costuma acompanhar as mortes, conferindo-lhes uma cara ainda pior da que elas já têm.
Dá-se finalmente início à Missa de corpo presente. O padre falou bonito. Normalmente os padres falam bem dos mortos. Não foi diferente em Santa Clara. Seu Ramiro, na boca do padre, era só elogios!
A viúva, coitada, que ainda não tinha tido tempo para ficar triste, permanecia atônita, pois o combinado era de que ela morreria, mas nunca o marido; ele havia sido abençoado com a tão célebre imortalidade.
Os letrados da cidade estavam em dia de glória. Proferiam ironicamente palavras de desprezo aos demais moradores, por carregarem consigo tamanha ignorância. Como poderiam eles deixarem-se contaminar por um despropósito desses? Ora, ora… até para militar na ignorância há um limite. Todos morrem!
E então, na hora marcada, o cortejo saiu. Tudo transcorreu na mais perfeita ordem. Enterros em cidades pequenas não precisam de cerimonialistas, todos sabem o que fazer. Uns continuavam chorando, outros enalteciam o morto e os mais corajosos contavam os casos em que o defunto aparecia exatamente como ele era. Tudo dito e o morto foi então enterrado.


Os filhos, que, até o último momento, esperavam que o “pai imortal” levantasse quixotescamente do caixão para dar aos presentes pelo menos uma satisfação, voltaram para casa com um misto de tristeza e vergonha, pois o pai, que havia sido sorrateiramente enganado por sua tão laureada imortalidade, devia-lhes, pelo menos, uma boa explicação.
Ao adentrarem a casa, os órfãos depararam-se com Seu Ramiro tranquilamente sentado em sua cadeira de balanço como era de costume. Foi uma confusão sem precedentes. As filhas desmaiaram sincronicamente como duas jarras que caem cada uma para um lado pela força do vento. O filho mais velho saiu, feito um louco, gritando pela cidade afora que o pai havia ressuscitado. O outro filho ficou irado com o pai e proferiu os mais impronunciáveis impropérios pela brincadeira de extremo mau gosto, e o filho caçula abraçou o pai demoradamente, não conseguindo esconder a sua felicidade e satisfação em ter o amado pai de volta, ao mesmo tempo em que se mostrava orgulhoso do pai pelo fato de o mesmo ter cumprido a sua promessa de imortalidade.
Curiosos, os filhos retornaram ao cemitério para assuntarem, com aqueles que por lá ainda estavam, como o pai havia se livrado de sua urna mortuária mas, antes que fizessem qualquer pergunta, depararam-se com a seguinte frase já escrita em sua lápide: “Aqui jaz um imortal”.
Seu Ramiro é realmente um imortal, pois vive na memória e no coração dos filhos que amou e por quem foi tão amado. De vez em quando, ele retoma a sua cadeira de balanço e, do seu canto, ainda dá conselhos, recita versos e chama a atenção dos filhos na eventualidade de alguma traquinagem.
A viúva, coitada, trocou a tristeza da viuvez por uma raiva peculiar que só acomete algumas esposas. Seu Ramiro havia espalhado filhos pelos estados vizinhos e eis que todos vieram lhe fazer as honrarias no enterro e despedir-se do pai, famoso por sua suposta imortalidade.
Dona Rizolina, como toda esposa bem traída, sempre acreditou que seu dileto marido poderia ter todos os defeitos – menos esse. E agora tinha que conviver com a lembrança de todos os entraves do falecido e inclusive com esse último.
O pior de tudo é que no mundo dos pobres mortais existe uma história de herança, inventário e outras coisas que envolvem o morto, mas que só acometem quem está vivo. Morrer pode até ser ruim, mas quem morre sempre descansa.
A morte, no fim das contas, pertence aos que permanecem vivos.

SOBRE A AUTORA – ADRIANA MOULIN DE ALENCAR PICOLI nasceu em Colatina – ES e reside em Imperatriz – MA desde 1990. Formada em Medicina pela UFES (Universidade Federal do Espírito Santo) e pós-graduada em Medicina Interna pela mesma Universidade. É pianista e dedica-se também ao estudo de línguas e psicanálise. Membro da Academia Imperatrizense de Letras – Cadeira n° 18 – e Membro Correspondente da ALLCHE – Academia Longaense de Letras, Cultura, História e Ecologia. Recebeu o título de cidadã imperatrizense em 2008. Autora de ‘Para sempre o nosso Sol – Todos os pais são heróis’ (2008), de ‘Nua como a Lua’ (poemas, 2015), ‘Palavras & Hiatos’ (poemas, 2018), ‘Almas Gêmeas In/Versos (poemas, 2019 – em coautoria com o poeta Ribamar Silva) e de Poemas em Ré Maior (poemas,2020). Tem participação em cinco Antologias no MA e no ES.

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