sexta-feira, 9 de outubro de 2026

UM CONTO AOS DOMINGOS – #057- Mudando Hábitos, atingindo metas! (Flávia Pereira Salazar Ribeiro)

Publicado em 28 de dezembro de 2025, às 10:18

6:15 a.m.

Segunda-feira!

 Mal amanheço nesta minha vida de trabalhadora exemplar e já começo a anoitecer.

Num relance, vem à mente o check list do dia: pôr a roupa na máquina, descongelar a carne, pré-aquecer a ayrfryer antes de grelhar qualquer coisa, comprar a ração do gato e a minha (rs), trabalhar e tentar organizar as intermináveis notas mentais.

Apesar dessa hecatombe de afazeres,  estou firme no propósito: hoje a dieta começa!!

Mas, se já não bastassem as cobranças diárias e a pressão minuto a minuto, principalmente do trabalho, que sequestra  de mim os pequenos prazeres da vida diurna, ainda tenho que  aturar  uma intrusa, infiltrada e tirânica, instalada na minha casa (por indicação da minha tia), super disposta a ditar regras e subtrair a paz das minhas noites também.

Sigo vigiada, e não se trata de paranóia.

É perceptível o olhar de reprovação lançado na minha direção, analisando cada movimento meu, cada suspiro e até mesmo o sobe e desce do meu diafragma. Ela me inflige  uma vigília silenciosa e assustadora.

Sigo observada noite e dia e não posso fugir! Me sinto uma criminosa microchipada, usando tornozeleira eletrônica!!

Mas estou disposta  a cumprir todas as suas regras “para o meu bem”, segundo titia!

 Apesar disso,  não consigo identificar um leve sinal de reconhecimento pelos meus esforços, em nenhum dos 86 mil e 400 segundos do dia.

Depois de um caminhar lento para o banheiro e uma rápida chuveirada, começo a me arrumar aleatoriamente, sem combinar nada com nada, sem uma gota de motivação. Ensaio vestir uma blusa estampada e saia xadrez ou, talvez, uma calça com listras ou bolinhas, tanto faz, não importa, sei que ela iria me criticar mesmo que eu tivesse sido produzida pela personal stylist da Jackie Onassis… reencarnada!!

Ela ainda tem a audácia de me dizer:

 – Você não consegue se controlar…não segue as minhas dicas.

Justo eu? A mais domesticada e submissa das criaturas. Me sinto devastada, mas tenho que seguir, o dia longo apenas começou.

Depois de toda essa pressão matinal,  só preciso de um pouco de serotonina e nada melhor que uma generosa xícara de café com leite integral, pãozinho de sal com manteiga, ovos mexidos com muçarela, presunto e bacon – sem sal, já basta o meu dia!

Depois desse desjejum frugal, ela segue atrás de mim, como uma sombra a me lançar um olhar acusador.  Por fim, desabafo:

– Eu não sou de ferro e seu desrespeito inquisidor acaba com minha autoestima. Como absorver qualquer sugestão sua, depois de tantas imposições, restrições, gozações!!

Me sinto uma fracassada!! Saio bufando, entro no quarto, bato a porta atrás de mim e repito:

– Vamos lá, respira! O dia precisa começar.

Trabalho de casa, home office, grupo no zap e um bom bocado de aporrinhação dos vizinhos do apartamento de cima, que insistem nas festinhas e aglomerações.Pra piorar, o cheiro de churrasco do domingo “impesteou” os lençóis que eu havia esquecido no varal. Mas deixa pra lá! Sigamos!

Não são nem 10h e ela ainda me ronda, como se isso fosse a razão da sua existência.

Resultado? Gatilho, lógico!

Abro a geladeira de 10 em 10 minutos, como resultado do toc que sua tirania provocou em mim.

Por companhia, apenas alguns pedaços da pizza de pepperoni, da noite passada, que como a contragosto para evitar o desperdício, sem esquecer, nem por um segundo, que é impossível me manter produtiva e focada quando sei que ela não está disposta a reconhecer o meu esforço.

Aliás, preciso dizer que desisti de me arrumar para o trabalho por culpa dela, mesmo minha terapeuta, Carol, dizendo que preciso me cuidar e manter uma rotina na quarentena. Que fique claro, que só jogo isso na cara porque Carol disse que guardar mágoas não faz bem e deve contribuir para minha retenção de líquidos.

Isso da retenção eu que tô dizendo. Incluam a Carol fora dessa!

Ensaiei até usar aquele vestido floral hoje cedo, mas tenho certeza que a intrusa seria ligeira em me criticar, em dizer que ele não me cairia bem, e me mandaria olhar no espelho.

Ok! Começo o dia enrolada no roupão de banho mesmo. É terrível como a gente se sujeita a tudo por aceitação, principalmente quando o outro só quer nos punir.

Por falar nisso, não entendi até agora porque, do nada, ela resolveu jogar na minha cara que a ausência no casamento da Ju não teve nada a ver com enxaqueca, mas com o zíper da calça que teimou em não fechar. Mesmo sendo um contratempo perfeitamente normal, ainda precisei ouvir uma ladainha de que a culpa é do meu desleixo.

Imagina a injustiça dessa afirmação. Não aguentei e despejei:

– Há 15 dias passei na nutricionista e comprei tudo daquela sua maldita lista: verduras, legumes, leite sem glúten, sem lactose, sem graça e até tofu integral.

Já não cabe mais becel no armário da despensa; se estourasse hoje a terceira guerra mundial, meu estoque estaria garantido.

Entrou por um ouvido e saiu pelo outro.

Sabe o que ela fez em plena sexta-feira, depois de 2 semanas inteiras de sacrifício? Me culpou, afirmando que 80% de tudo estragou porque eu não havia consumido quase nada.

O que eu posso fazer se hortaliças e frutas duram pouco?

Nada tá bom, apesar de eu, pra  agradá-la, me privar de tudo…minhas amigas dizem que me transformei em outra pessoa!!!

Tudo isso por quê? Por causa de umas fatias de pizza amanhecidas!!!

12:00

Me dá até desgosto temperar a salada ou grelhar o frango. Passo a mão no celular e o aplicativo do ifood aparece compadecido da minha triste situação e eu peço uma feijoada … light.

Melhor pedir o marmitex grande de uma vez, a diferença de preço é irrisória…e como já disse: temos que evitar os desperdícios.

À tarde, aquela maldita planilha me deixou nervosa, ela e a intrusa se unem pra me deixar fora de mim.

Lembrei da D. Cida, mulher de Deus, caridosa, que trouxe aquele tanto de doce de leite de Viçosa, mesmo sabendo que sou diabética!!

Ela esqueceu, é óbvio. Até eu às vezes esqueço. Reconheço que ela, ao contrário da intrusa, gosta de mim de verdade.

Mesmo sabendo que sofrerei críticas, porque ela não tem empatia nenhuma, nem por mim, nem por ninguém, comerei o doce. Não posso fazer essa desfeita com a pobre da D. Cida. Algumas colheradas junto com umas fatias de queijo coalho que a comadre Chica trouxe da Bahia serão degustadas como uma forma de homenagem.

E, assim, o dia se passa e não consigo render tanto quanto eu queria. Melhor guardar os bifes de frango no Tupperware e congelar de novo, afinal evitar o desperdício está na ordem do dia!

Dou um pulo na barraquinha do seu Paulo, que já preparou um macarrão na chapa como só ele sabe fazer.

Depois de me alimentar, volto pra casa com a certeza de ter que encarar seus olhos de reprovação.

Comecei a fazer uma caminhada comprometida, passos largos, decididos, mas, 15 minutos depois, o tênis começa a esfolar o meu calcanhar. Melhor voltar pra casa!

Ao entrar, pensa que ouvi uma palavra de reconhecimento pelo meu esforço? Não, nada adianta, nada do que eu faça é suficiente!

Mas eu cheguei ao meu limite. A aguentei por 2 semanas, que pareceram uma eternidade e, como diz Carol, na terapia, precisamos manter o amor-próprio em dia.

Depois de muito refletir, despejei :

– Exijo que você saia da minha vida, balança maldita, não estou disposta a ser torturada nem mais um minuto!!

Falei. Tô leve!

21:45

Livre da minha torturadora, joguei fora o tofu, que já estava fedendo a peido, e pude, finalmente, abrir o freezer, pegar o pote de sorvete, que estava atrás das carnes magras, e assistir um pouco de TV em paz!

Amanhã já agendei a consulta com a nova nutricionista e tem sessão de terapia extra, com a Carol. Livre da pressão injusta, tenho certeza que poderei, finalmente, partir rumo ao manequim 42.

Nunca me senti tão disposta a mudar os hábitos. Nunca!!

SOBRE A AUTORA – Flávia Pereira Salazar Ribeiro – graduada em Ciências Econômicas pela UFMA(2003) e História pelo Centro Universitário Claretiano (2024), com especialização em Administração Pública pela Estácio de Sá (2018) e mestrado em Educação pela UFMG (2021). Atuou como Gestora Governamental na SEPLAG-MG (Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão), na Diretoria Central de Gestão do Desenvolvimento do Servidor, área de Recursos Humanos, com ênfase na capacitação e aperfeiçoamento profissional do Servidor, e na Superintendência Central de Política de Recursos Humanos, na Diretoria Central de Saúde Ocupacional. Foi servidora pública na UFMG, onde trabalhou na Comissão Permanente de Pessoal Docente, vinculada à Pró-reitoria de Recursos Humanos e no Acervo de Escritores Mineiros, integrante do Centro de Estudos Literários e Culturais, da Faculdade de Letras da UFMG. Atualmente, é servidora na Diretoria de Assuntos Culturais da UFMA.

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