Na vida da capital, São Luís, passava-se tudo aquilo com que muitas moças podiam sonhar. Maria Clara era casada com um homem muito rico, morava em uma casa que poderia servir perfeitamente para cenário de novela e usufruía de todas as pompas que almejava aquela sociedade. Não só a sociedade maranhense, mas a sociedade brasileira de uma época em que status e reputação eram tudo na vida de uma família.
Vida luxuosa, roupas caras, festas na alta sociedade; tudo o que a sociedade balsense poderia sonhar. No entanto, algo no íntimo de Maria dava sinal de alerta e não estava do jeito que ela tanto queria; inclusive, por plurais vezes, fazendo-a flagrar-se sobressaltada bruscamente.
Os anos se passaram e, como sua mãe e seu pai queriam, ela se tornou uma boa mãe e esposa. Cursou Letras – Português na Universidade Federal do Maranhão e aprendeu a falar francês. Viajou com o marido e o filho para vários lugares. Maria Clara continuava sendo a moça bonita e inteligente que conhecemos no início desta história.

Jefferson, seu marido, era homem de negócios. Homem estudado, polido, inteligente e bem relacionado na sociedade. Tinha raízes familiares no interior do Maranhão, porém comportava-se como um lorde inglês.
O relacionamento dos dois era tranquilo. Os dois se davam bem, mas faltava alguma coisa àquele casamento, como a todos os casamentos arranjados. E nada tinha a ver com a sobra de dinheiro. Esse não é exatamente o ponto da questão. Todavia Jefferson para Maria era matemática e não química.
Às vezes, o homem percebia que a esposa lhe tinha amor, mas lhe faltava algo mais. Muitas vezes, tentou conversar, até que começou a perder a paciência aos poucos. Dava-lhe presentes, levava-a em viagens, saía para restaurantes caros, trazia-lhe joias e roupas de marca; mas nada fazia o olhar de Maria brilhar como cinco anos atrás.
Aos poucos, percebendo que nada daquilo resolvia, ele começou a apresentar alguns atos que não tinha antes. Começou a abusar da bebida e, aos poucos, a passar dos limites. Primeiro fez piada:
– Não sei por que essa cara. Lembrei! Você só tem ela.
Daí, veio o sarcasmo temperado com constrangimentos:
– Lembra quando eu te tirei daquele lugar e você não tinha para onde ir? Pois é, e hoje tem tudo graças a mim!
Depois começou a vigiar para onde Maria ia, com quem saía, para quem ligava. Então, passou a ser uma pessoa possessiva. Até que começaram alguns embates físicos: agarrava-a com força pelo braço. Noutro dia lhe puxava pelo cabelo; até que, em um dia, lhe deu um tapa no rosto.
Tudo isso foi evoluindo dia após dia. Todas essas situações vinham sucedidas de arrependimentos. Jefferson sempre se perguntava por que tinha cometido tal atrocidade com sua amada naquele momento e lhe pedia perdão com todas as forças do universo, de todas as maneiras possíveis, com flores, perfumes e cafés da manhã na cama.
O filho de Maria, Carlos, só tinha cinco anos de idade na época, e não entendia bem o que se passava. Não tinha compreensão do que era aquele relacionamento tortuoso. Mas, como todo filho, percebia na mãe um olhar triste e longínquo.
Um dia, Carlos estava passando uns dias com a avó em Balsas. Maria estava em São Luís. A amiga de longa data, Dalva, ligou para saber como ela estava. Passaram algum tempo no telefone colocando a conversa em dia e se atualizando dos pormenores da sociedade balsense e da sociedade lusitana.
Jefferson estava chegando do trabalho. Ouviu que Maria estava ao telefone. Após terminar a ligação, perguntou quem era.
– Era Dalva, Minha amiga de escola – disse Maria.
– E o que vocês estavam conversando? – perguntou Jefferson.
– Nada demais. Ela perguntou como eu estava e acabamos ficando batendo papo.
– Não entendi por que ficaram tanto tempo ao telefone, se não era nada demais.
– Coisas de mulher, você sabe.
– Não foi ela que acobertou você e aquele outro com quem você fugiu?- Indagou Jefferson.
– Jefferson, isso já tem anos, não tem por que você ficar perguntando isso.
– Agora você tá preocupada! Se tá preocupada, é porque está devendo no cartório! Bem ele mandou recado por ela, não foi? – perguntou exaltado
– Do que você tá falando, Jefferson? Não tem mais nada disso. Eu nem sei mais por onde anda João.
– Eu não falei que você ainda pensava nele! – gritou Jefferson, puxando uma arma da gaveta da sala.
– Jefferson, o que você quer com essa arma? Guarde isso! Acalme-se!
– Eu já aguentei demais esses anos todos! Você pensando nesse João o tempo todo, nunca me amou, nunca me quis de verdade! Eu te dei tudo! Eu te amei mais do que eu pude! Eu te fiz a mulher que você nunca ia poder ser naquela cidade de onde eu te tirei!
– Calma, Jefferson, não é nada do que você tá pensando!
– É, sim! Deixe de cinismo! Depois de tudo o que eu fiz por você, você fica de conversinha com essa mulher que traz recado daquele sujeitinho. Você não era nada! Você não é e nunca vai ser nada! Uma meninazinha pobre do interior que nunca vai chegar aos meus pés, que nunca vai poder ter o que eu te dei! A vida que eu dei pra você e pro teu filho!
– NÃO! – foi a última palavra que se ouviu de Maria, a jovem que morreu com uma bala no peito esquerdo, depois de uma discussão com o marido, naquela casa, em São Luís.
Dona Firmina, mãe de Maria, soube da notícia da morte da filha por telefone, quando desmaiou sem conseguir respirar. O filho, Carlos, nunca mais pôde ver a mãe.
Na década de 70, inícios de 80, a Justiça não se fazia tão eficiente; talvez porque dinheiro e poder ainda atrapalhassem as investigações sobre o assassinato da morte de Maria. Sabe-se que o Sul do Maranhão é conhecido pelas suas histórias de vingança, e a família de Maria não ficaria inerte, de mãos atadas.
O pai, seu Adalberto, juntou os homens da família e tentaram ir atrás do genro para matá-lo, mas sem sucesso. Dali começaria uma saga de sangue e tragédias que marcaria para sempre a história desta família.
Correra a história de que a morte de Maria teria se dado por que ela ainda era apaixonada por João, mesmo após cinco anos do rompimento do relacionamento. Certo dia, o ex-amor de Maria tinha sido transferido para trabalhar em um povoado perto de Balsas. A família de Maria ficou sabendo da notícia e, claro, foi atrás dele para vingar a morte da parente querida.
Chegando na localidade, um dos primos de Maria saiu perguntando de casa em casa onde tinha um militar baixinho, recém-chegado de Imperatriz. Em cidade pequena, todos dão conta dos novatos que chegam. Era na praça que João estava, fazendo um serviço que o Exército determinara. Ao chegar ao local, o primo de Maria avistou João, pegando-lhe desprevenido e deu-lhe um tiro pelas costas, levando-o ao chão. Deu-se por satisfeito e realizado e foi embora.
João foi acudido pelos populares, que lhe levaram ao hospital mais próximo. O rapaz, que foi casado com Maria e que não tinha culpa pela morte dela, não morreu pelo tiro que levou, mas ficou paraplégico, precisando andar de cadeira de rodas pelo resto da vida.
A vingança dos familiares de Maria continuou. Ninguém conseguiu dar fim à vida de Jefferson. Porém, dois primos de Maria foram mortos no meio de emboscadas. Duas situações, dois locais. Uma mesma vingança.
JUSTIÇA
Depois de toda a confusão, Carlos, filho de Maria, continuou morando com os avós até a adolescência, quando precisou ir estudar em Imperatriz e depois em São Luís. O menino, que foi registrado como filho de Jefferson e tivera uma vida de luxo nos primeiros anos de vida, de repente perdera quase tudo: a mãe e todo o patrimônio que tinha.
O pai de Maria não viveu muito; morreu algum tempo depois, de certa anomalia no coração. Talvez não aguentou as agruras de ter visto a filha morrer com uma bala no peito. E, logo, deixou Dona Firmina sem o apoio emocional e financeiro que lhe assistia por toda a vida.
A avó era carinhosa e bondosa, mas Carlos sentia muita falta da mãe, que era o amor genuíno que tinha conhecido até aquela tenra idade. O menino não sabia ao certo o que tinha acontecido à família, só sabia que aquela vida em São Luís, em uma casa dada a riquezas, e dias alegres que passava na casa dos avós e outros familiares pareciam não ter mais a mesma energia.
A família, que antes tinha um padrão de vida classe média, de repente se viu com uma economia modesta. Carlos tinha recursos limitados e sempre olhava a vida um pouco melhor dos amigos que o cercavam.
Certo dia, estava na casa do amigo, Marquinhos. Lá via o garoto com a mesada sempre generosa que ganhava do pai. Marquinhos usava o dinheiro para comprar lanches e, às vezes, até brinquedos. Carlos não passava fome, mas não tinha as regalias do amigo. Em um momento que ninguém estava presente, viu o dinheiro de Marquinhos no quarto do colega. Havia dias que Carlos queria tomar um sorvete que vendia na praça, mas sua família não lhe dava dinheiro para comprar, dadas as circunstâncias das economias que precisavam servir às coisas necessárias. Foi lá e pegou o dinheiro às escondidas dos demais, deliciando-se com aquele sorvete com o qual há dias sonhara.
No dia seguinte, Carlos, como era de costume, volta à casa do amigo. Chegando lá está armada a confusão do garoto que percebe a falta da mesada. Não titubeou. Acusou Carlos de primeira mão.
– Foi ele – disse Marquinhos ao pai.
Carlos ficou olhando paralisado para aquela cena, sem saber o que dizer.
– Como você ousa acusar seu próprio amigo disso, Marquinhos?
– Eu sei que foi, pai! Só foi ele que entrou no meu quarto ontem! Eu tenho certeza! – Carlos continuava calado olhando aquela cena.
– Mas você não tem vergonha de acusar seu amigo, um menino tão respeitável, estudioso como o Carlinhos. Você devia lavar essa boca antes de falar dele. Peça desculpas agora!
– Mas pai! – e Carlinhos olhava aquela cena envergonhado, louco para confessar ao pai do amigo que havia sido ele que pegou o dinheiro, mas com medo do que pensassem dele dali para frente.
Acabou que Marquinhos pediu desculpas ao Carlos e nunca mais ninguém soube dessa história.
Aos poucos, dona Firmina também foi sendo maltratada pela velhice e chegou a hora que não pôde mais cuidar do neto. Algum tempo depois, Carlos voltaria a morar na capital, São Luís, para morar com a tia, já que sua avó não teria mais como tecer os cuidados necessários à sua tutela, além disso, seria necessário frequentar escolas mais avançadas para encarar os estudos para o vestibular.
Já rapaz, Carlos tinha o básico. Não lhe faltava comida, dormida e transporte, mas não era como os meninos da classe média à qual um dia pertenceu. No Ensino Médio, se matriculou em um cursinho à noite para se preparar para o vestibular. Como forma de conseguir algum dinheiro para bancar os custos, arranjou um trabalho de meio período na bilheteria de um cinema, tipo um jovem-aprendiz.
O que mais lhe atraía no emprego não era necessariamente o pouco salário que ganhava pelos bilhetes que vendia, mas o lanche que conseguia todas as tardes e, assim, podia ir de barriga forrada para o cursinho. No entanto, essa saga não durou muito, logo precisou abandonar o bico para se dedicar integralmente aos estudos.
Seguindo sempre pela morte de sua mãe, seus tios e por incógnita da história que nunca lhe contaram por completo, ele escolheu prestar vestibular para Direito.
Assim como a mãe, Carlos era muito estudioso e inteligente. Apesar dos recursos poucos e de uma vida trágica, estava decidido a cursar aquele curso e ser Promotor de Justiça. Com mais dedicação, passou no vestibular, tendo se formado com louvores.
Após a conclusão, fez vários concursos, em diversas partes do país, mas justo no Maranhão ele decidiu ficar. Tornou-se promotor de justiça do Ministério Público do Maranhão.
Diferente do que muitos pensam, um promotor começa sua vida nas cidades mais remotas do estado, como promotor substituto, nas primeiras entrâncias da estrutura judicial, ordinariamente. E Carlos guardava consigo uma meta bem clara: tornar-se-ia promotor do Júri. Queria ele levar a júri popular delinquentes que cometessem crimes semelhantes ao consumado contra a sua mãe para, doravante, serem punidos.
Foram alguns anos para que ele conseguisse se consagrar, acumulando várias atribuições na função do cargo. Certo dia, ele foi a um júri que julgava o agente de uma tentativa de assassinato – o marido tinha tentado matar a esposa; mas, graças aos vizinhos, ela sobreviveu. Na defesa, o acusado disse que ela tentou se matar, enfiando a faca em seu pescoço.
O advogado tentou ainda desclassificar a vítima, alegando que ela tinha filhos de outro homem, em um casamento anterior àquele.
Carlos interpelou: Senhores, eu tive uma mãe que foi assassinada. E ela não teve a sorte que esta senhora daqui hoje teve. Eu não era filho do homem que era casado com ela. Eu era filho de outro homem, de um casamento anterior. Ainda assim, senhores, nada tirava a dignidade da minha mãe! NADA! Nada podia tirar a vida da minha mãe! Não se justifica tirar a vida de alguém; a não ser, sabidamente, nalguns poucos casos, a legítima defesa. Eu queria poder ter tido a oportunidade de defender a minha mãe em uma tentativa de assassinato, mas infelizmente ela não teve a mesma sorte. Ela não teve a sorte de ter escapado. Ela morreu, senhores! Ela foi assassinada! Esta senhora só não morreu porque foi socorrida pelos vizinhos! Nada pode tirar a dignidade, a autonomia, a vida desta mulher!
Senhores, os filhos dessa senhora hoje poderiam estar órfãos! Eu sou um órfão! E a minha missão é colocar todos os homens que deixarem ou tentarem deixar filhos órfãos atrás das grades! Onde é o seu devido lugar, e com que todas as pessoas de bem e decentes hão de concordar.
Senhoras e senhores, homens como estes tentam e matam com eficiência todos os dias. Eles acham que as mulheres são suas proprietárias, seus objetos. Não acham que elas têm vida própria.
Esta senhora não fez nada a este senhor, assim como minha mãe não fez nada a meu padrasto. Esta senhora estava chegando em casa, de moto, e foi surpreendida pelo marido, que lhe desferiu uma facada no pescoço. E digo mais! Veio aqui a defesa argumentar que ela própria lhe golpeou contra o pescoço. E ainda trouxe uma falsa testemunha alegando que a vítima teria se esfaqueado! (Pá) – Bate com força na mesa em frente aos jurados! Só mesmo um trouxa para acreditar nessa história!
A intenção, senhores, era matar esta senhora. Ele a deixou lá, sangrando, no meio da rua, na beira de uma calçada e ela só não morreu porque os vizinhos a socorreram! Senão estaríamos aqui julgando um FEMINICÍDIO! (PÁ) – Bate de novo na mesa em frente aos jurados, revoltado.
Por ele, esta mulher estaria morta. Só não está por causa dos vizinhos! São eles que não deixaram essa tragédia maior acontecer! Senão ela seria mais uma das milhares de mulheres que morrem no Brasil todos os anos, vítimas dos próprios companheiros. Justo aqueles que deveriam amar e protegê-las. Mas não! Esse homem tentou matar a própria esposa! (PÁ) – Grita e bate novamente na mesa em frente aos jurados.
Seria mais uma na imensa lista de casos que levamos a júri popular praticamente toda semana, por crimes praticados pelos maridos. VEJA BEM. Pelos maridos! Vou relatar só alguns para vocês: envenenamento, esfaqueamento, espancamento, asfixia, tiros… como o que vitimou a minha mãe.
Esses são apenas alguns dos exemplos que matam mulheres todos os dias neste país. E deixar que estes homens fiquem livres é pactuar com todos estes crimes. É dizer para a sociedade que nós permitimos que homens possam matar mulheres tranquilamente, sem nenhum tipo de punição.
Há 30 anos, senhores, a morte da minha mãe não pôde ser julgada. Até hoje, a Justiça não definiu a autoria do crime e ninguém foi condenado. Minha mãe levou um tiro no peito quando eu tinha apenas cinco anos de idade. Mas hoje vocês podem colocar este homem atrás das grades e não deixar que casos assim fiquem impunes nunca mais.
Depois dessa sustentação, o júri decidiu que o réu era culpado.
Carlos levara 15 anos sendo Promotor de Justiça do Ministério Público do Maranhão e, por muitos anos, na Promotoria do Júri, assumindo a acusação de vários assassinos de mulheres, crianças, idosos, adolescentes.
No entanto, o mantra que carrega consigo é que seu cargo não é de acusação, é de promotor de justiça. Por isso, por diversas ocasiões, pedia a desclassificação de acusações, quando entendia que o bom senso tal exige.
Há alguns anos, ele precisou sair da pasta, da titularidade daquela função, por motivos de saúde. Atualmente, ele realiza júris a convite dos colegas promotores e/ou da instituição, em diversas cidades do estado.
Ainda hoje, colhe retalhos da sua história de vida, ajuda seu pai, que vive em Imperatriz, em uma cadeira de rodas, faz trabalhos filantrópicos, ainda buscando, todos os dias, fazer um mundo mais justo.
Certa vez, foi perguntado por alunos de faculdades de Direito sobre a acusação de pessoas pobres no banco dos réus. “As pessoas que morreram, no mais das vezes, também eram pobres” – respondeu.
[Esta é uma história baseada em fatos reais. Muitos eventos são fictícios para lhe dar dramaticidade].

SOBRE A AUTORA – Iane Carolina Silva é piauiense, mas vive em Imperatriz há 11 anos. É formada em Jornalismo pela UFPI e pós-graduada em Comunicação Institucional pela Metodista-SP. Com 41 anos, escreve poesias desde os 14. É produtora cultural, elaboradora de projetos, produtora de audiovisual e assessora de imprensa do Ministério Público do Maranhão. Apaixonada por teatro e cinema, escreve contos inspirados em histórias reais, motivada pelas pessoas que conhece na sua vivência com o jornalismo. Recebeu o Prêmio Maranhão de Literatura (2024), realizado pela Secretaria de Cultura do Maranhão. Também é colunista do Portal Acesse Piauí e agente exclusiva do cantor e compositor Erasmo Dibell.