sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Evento: “O processo”: 100 anos depois

Publicado em 20 de novembro de 2025, às 9:30
Fonte: Marcos J. Custódio

Em abril desse ano, “O processo”, de Franz Kafka, comemorou um século de existência. Isso não é pouca coisa para um livro que quase não existiu: o autor pediu em testamento para o seu melhor amigo, Max Brod, destruir todo o material que ele não tivesse publicado em vida. Aliás, o próprio Kafka, segundo testemunhas, costumava destruir seus manuscritos. Ele era um autor inseguro quanto à qualidade do que escrevia, chegou mesmo a chamá-los de “rabiscos”. Parte da sua insegurança vinha de sua relação com o pai, figura quase onipresente em sua obra na forma de uma autoridade a qual todos nos submetemos. E se “O processo” tivesse sido queimado? Ou pior, e se toda a obra de Kafka tivesse sido destruída?

Kafka é tão importante para a literatura que até se criou um adjetivo, ‘kafkiano’, para designar algum absurdo, algo burocrático, labiríntico e opressivo, que te dá a sensação de impotência diante de algo muito maior do que suas forças. Toda a literatura de Kafka percorre esses labirintos, em uma atmosfera de pesadelo calcado na realidade. Quem já teve de lidar com a CAEMA ou o DETRAN para resolver multas erroneamente aplicadas conhece bem a sensação de impotência diante da burocracia do Estado, que por vezes te obriga a ceder a certas injustiças em nome da paz de espírito. Eu já fiz isso muitas vezes, preferi pagar uma multa a ser encaminhado para outro setor, que me encaminharia para outro setor, que me encaminharia para outro setor…

Mas Kafka não criou nada dessa realidade mundana, ele (apenas) nos fez enxergar algo que sempre esteve aqui. Aliás, não é essa a grande qualidade de um escritor? Milan Kundera escreveu que “o romance que não descobre algo até então desconhecido da existência é imoral”. Toda a obra de Kafka, curta mas potente, fez a gente descobrir que a realidade é mais absurda do que parece. Que temos alguma culpa, não importa qual, e que ninguém escapa a uma autoridade esmagadora, seja no trabalho, na família, na sociedade, na religião.

Cem anos depois, Kafka ainda nos faz compreender que as tecnologias podem até mudar de um século para o outro, de um ano para o outro, mas os dramas humanos permanecem os mesmos.

SOBRE O AUTOR – Marcos J Custódio é escritor e docente da UFMA. Tem contos publicados em diversas coletâneas. Autor do romance “Os teus olhos estarão sobre mim” (2024). Coordenador do projeto “MaisHum”.

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