
03/11/2025. Arte: Nertan Silva. @nertansilvamaia
Ainda tocado pelo gesto poético de seu Zé Fernandes — aquele homem simples e imenso que, ao se despedir de sua amada Graça Dantas, pediu bênção ao padre e deixou que seu chapéu, companheiro de tantas histórias, seguisse junto ao corpo dela —, fiquei pensando no poder simbólico desses gestos.
Há neles uma forma de eternizar o que mais importa: o amor, a memória, o agradecimento.
E então me perguntei: o que eu deixaria no caixão de Lô Borges?
Talvez uma palheta, usada e gasta, símbolo da persistência criativa. Ou talvez um papel com versos soltos, pedaços de canções que nunca precisaram de acabamento porque já nasciam perfeitos. Poderia ser também um fragmento de disco, como se cada sulco guardasse o som de uma geração que aprendeu a sonhar ouvindo o “Clube da Esquina”.
Mas talvez o mais bonito seria deixar ali uma intenção — um voto de perpetuação: a de que nunca falte quem produza, com amor e sensibilidade, a boa música.
Uma promessa de manter acesa a chama do fazer poético bonito, de nutrir a política com arte, e a arte com responsabilidade, coragem e delicadeza.
Porque Lô Borges foi mais que um compositor. Ao lado de Milton Nascimento, Beto Guedes, Fernando Brant e do irmão Márcio Borges, ele foi um estado de espírito — um modo de existir na música e pela música. Junto com o Clube da Esquina, abriu janelas laterais para o infinito, misturou Beatles com montanhas, harmonias inglesas com o cheiro da terra mineira, poesia universal com alma brasileira.
O que deixaria no caixão de Lô Borges?
Talvez um bilhete dizendo: “Obrigado por ensinar que canção também é caminho.” Ou um sopro de vento vindo das serras de Minas, aquele mesmo que parece atravessar suas melodias.
Mais do que um adeus, deixaria um compromisso: o de seguir ouvindo, lembrando e acreditando que, enquanto houver música feita com verdade, o mundo continuará a ter salvação.
Porque o que Lô Borges construiu não morre — vibra. E o que vibra, como o amor de seu Zé por Graça Dantas, permanece.